Imagem: J3 News

60 Anos de Primeiros de Abris – Revolução Já!

Sessenta anos se passaram, e ainda discute-se quem foi(foram) o(s) mais bandidos(s) naquilo que se convencionou chamar de golpe-contragolpe-revolução-contrarrevolução-movimento, referente ao 31 de Março / Primeiro de Abril de 1964. Tanto faz a data. Mataram e morreram por uma causa ou causa nenhuma. E sabemos de muita gente que partiu num “rabo de foguete”, como diz a letra daquela música do Aldir Blanc, por livre e espontânea pressão para, em sua grande parte, rimo a Europa livre. Gil e Caetano foram para London, London, e mergulharam de cabeça na efervescência da contracultura. Talvez um ou outro tenha partido para o lado de lá da Cortina de Ferro — em nome da causa, é claro —, para lamber as bolas de um Vladimir Lênin, empalhado, em Moscou. Chico Buarque partiu para a Itália, para curtir um período de exílio voluntário, após sentir-se ameaçado pelo regime. Para a comunista Albânia, ali, bem pertinho, ele não foi.

Ok. Lembremos que a Guerra era fria e o chumbo quente; as torturas, as mortes, os sequestros e os atentados, absolutamente reais. O torturador do regime era o algoz do torturado, e o torturado seria o algoz de ‘alguéns’ caso a revolução triunfasse, como ocorreu em Cuba, por exemplo. Paralelo a isso, o tal Milagre Econômico ia de vento em popa, até que, em certo momento, começou a ir de vento em popa, ladeira abaixo. Quem era vivo viu e sentiu. Na pele. Na carne. Noventa e nove por cento da população lutava mesmo era contra a inflação, cujo único culpado era o regime do “Brasil. Ame-o ou Deixe-o”. Eu via adesivos com esse slogan colados nos vidros dos carros, sem entender o sentido da frase, afinal, eu era apenas uma criança. A dona Maria, o seu Antônio e os zilhões de Zés de todos os tipos estavam cagando e andando para Carlos Marighella, Dilma Rousseff, José Dirceu, José Genoíno, e toda aquela turma de trouxas que entraram de gaiatos no navio, sem saber o que lhes estava reservado. Pagaram caro pela ingenuidade.

Fora a carestia, as cidades, inchadas pelo êxodo rural, prenunciavam o caos em que estariam metidas neste século mal parido século 21. O “ópio do povo” era a Seleção Canarinho, que representava os “noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a Seleção”, e sem perder um só capítulo de Irmãos Coragem, a novela que até homem assistia. A questão era saber como o Coronel Pedro Barros, o vilão, seria derrotado pelo mocinho João Coragem, e já aguardando as novelas seguintes, das sete e das oito da noite. O povão sabia o nome do presidente da República, e também sabia que ele era um general, e que não foi eleito pelo voto direto, pois não era necessário naquele contexto. Sobreviver era o mais crucial, pois Brasília era algo muito distante, física e simbolicamente. Quem se ocupava de combater o regime era, em sua grande parte, membros da classe média culta, chique, politizada. Era uma classe descolada, que não andava nem de ônibus, nem de trem de subúrbio. Ela se ‘preocupava’ com o povo, e dizia que lutava por ele, mas não queria estar perto do povo. Falava mal do regime, mas dele se servia de um modo ou de outro. E era a mesma classe que obrigava os empregados a utilizarem o elevador de serviço, além de não abrir mão de seus privilégios por nada deste mundo. Posso estar sendo injusto na generalização, no entanto, salvo exceções, era assim que a banda tocava. Ou será que não?

Os livros dizem que o regime militar matou e fez sumir centenas de pessoas nos 21 anos em que mandou no país. Porra, Mao Tse Tung matava isso só no café da manhã, e em apenas um dia! E nem vou citar os outros regimes “libertadores” de então e de depois. Cabe frisar que havia ditaduras de esquerda e de direita, na Ásia, África, Europa e América Latina.

Nasci em 1964, portanto, dentro da “revolução”, em uma família pobre e carente de quase tudo. Quando comecei a ir à escola, obviamente o ensino era ditado pelo regime. Éramos ensinados a decorar o nome do presidente da República. Cantávamos os hinos Nacional, da Independência, da Bandeira, do Soldado, e qualquer outro de natureza cívica. Marchávamos orgulhosos, como soldadinhos, pelas ruas do meu bairro em honra ao 7 de Setembro. Era assim em qualquer lugar do Brasil.

Enquanto o regime era combatido por grupos ditos subversivos, predominantemente marxistas de diferentes tendências, empenhados em cometer atos terroristas, sequestros, assaltos, ações de guerrilha urbana e rural, assassinatos e tantos outros delitos, em favor da causa (furada) na qual acreditavam, por outro lado, era bajulado e enaltecido, salvo poucas e perigosas exceções, pela grande mídia. A Rede Globo transmitia os desfiles do 7 de Setembro – ao vivo! – algo raro naquela época; Silvio Santos exibia o quadro “A Semana do Presidente” inserido em seu programa dominical, onde fazia um balanço da agenda semanal do presidente com narração do famoso Lombardi. Nesse particular, destaque-se que, tanto as rádios como as tevês, tal como hoje, obedeciam aos critérios da concessão pública, e isso as tornava vulneráveis a qualquer oscilação de humor do presidente. Evidentemente, como a censura era onipresente, as concessionárias tinham que usar a imaginação para driblar a vigilância do Governo. Às vezes a estratégia dava certo; às vezes, não.

E assim foi, até que, em 1979, após muita pressão de diversos setores da sociedade, foi aprovada a Lei da Anistia durante o governo do general João Batista de Oliveira Figueiredo, por meio da qual o Brasil começava a recuperar a normalidade democrática.

Da Lei da Anistia para cá, muita água (ou lama) passou sob a ponte. A democracia até que voltou, mas não do jeito que esperávamos. Em 1984 o movimento Diretas Já exigia o direito de eleger o presidente da República pelo voto direto. Em 1988 foi promulgada a nova Constituição. Em 1989 Fernando Collor foi eleito o primeiro presidente eleito pelo voto popular após o fim do regime militar. Conhecido como o Caçador de Marajás, Collor renunciou ao mandato por envolvimento em um caso de corrupção, para, logo em seguida, sofrer um impeachment. Veríamos a repetição desse filme 24 anos depois, com o impeachment de Dilma Rousseff, uma ex-guerrilheira sobrevivente aos anos de chumbo e beneficiária da Lei de Anistia.

A propósito. Os anistiados recuperaram seus direitos políticos, sendo muitos deles eleitos, enquanto outros ingressaram nos mais diversos segmentos do serviço público. Tal retorno ajudou a moldar, seja para o bem ou para o mal, o estado de coisas no qual estamos imersos.

Avancemos para o ano de 2024.

Pois é. O atual governo proibiu as comemorações alusivas ao 31 de Março/Primeiro de Abril. E daí? Agora, o STF mais uma vez quer revisitar/reabrir a ferida, rasgando a tal Lei da Anistia, derramando mais gasolina na guerra de secessão em andamento, pois, mais uma vez, intui condenar apenas as forças do regime que combateram os opositores do regime militar, passando pano para os atos criminosos desses opositores, visto que alguns dos torturados/exilados naqueles duros tempos são os torturadores de hoje, pois não abandonaram seus ideais, mesmo sabendo que jamais deram certo, em lugar nenhum. E uma tortura não precisa ser necessariamente física. Além disso, muitos dos artistas e intelectuais que partiram num rabo de foguete lambem as bolas do atual mandatário, em troca de alguns milhões para suas performances artísticas. Calar a boca tem um preço. Caetano Veloso e Gilberto Gil que o digam. Aqueles resistentes de ontem são os coniventes de hoje. A fila é longa.

Para finalizar (este assunto prometia ser muito longo, preferi sintetizá-lo para simplificar o entendimento), o que percebo no contexto atual, é uma enorme decepção com aquilo que se chama de democracia, já que o poder pode até emanar do povo, mas em seu nome NÃO é exercido. O que se vê é a continuação de práticas condenáveis, até mesmo anteriores ao período do regime militar, como o clientelismo eleitoral, o tráfico de influência, as relações espúrias entre governantes e empresários, a sobrevivência dos clãs políticos, a péssima distribuição de renda, e por aí vai.

Torna-se mais grave a percepção de que uma nova ditadura está se instalando, graças a uma estranha associação entre o Poder Executivo e o Poder Judiciário, ocupados em combater os críticos do atual governo, por meio legais e ilegais e, claro, tal qual em 1964, com a complacência de diversos grupos de imprensa, da parte da classe artística, de intelectuais, de empresários, de formadores de opinião, e tantos outros. A diferença de hoje para aqueles tempos, é que a internet é, ao mesmo tempo, vilão e herói em uma luta pela implantação de uma agenda política e cultural gritada por pequenos grupos organizados contra os interesses de uma maioria que, ao que parece, está aprendendo a reagir. E sim: a censura voltou, repaginada. Na verdade, ela nunca foi embora de verdade. E quem também voltou foi a Direita, depois de passar mais de 40 anos escondida no armário para onde nunca deveria ter ido. E é ela a principal personagem deste pedaço de mundo em ebulição. Vamos ver no que isso vai dar.

Neste ano também completo 60 anos, e moro, ora vejam, em um logradouro que se chama 31 de Março. E é apenas um nome, como um 7 de Setembro, um 21 de Abril, um 13 de Dezembro.

Em 2024, o que precisamos mesmo é de uma revolução que nos proteja de “revoluções” e dos aventureiros políticos de sempre. Conseguiremos?

Depois de acreditar no que nos foi dito e prometido nesses 60 anos, o que digo é: Feliz Primeiros de Abris!

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

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