Com ares de descoberta — aos 16, talvez 17 anos — recebi pelo Círculo do Livro aquele três-livros como relíquia carregada de promessa, sem saber que estavam para incendiar minha percepção. Uma caixa simples, embrulhada talvez em papel pardo, trazia o peso material de páginas densas — capa dura, boa impressão — e o peso existencial de uma literatura que não pedia licença. Naquelas tardes — ou madrugadas —, abria “Sexus”, “Plexus” e “Nexus” com a ânsia de quem bebe direto da fonte proibida.
Li como quem arrisca o salto — de alma, de tabus, de ilusões — e fui atravessado pelas palavras de Henry Miller: sexo, culpa, desejo, rebeldia, liberdade. O peso da ficção misturava-se ao peso da vida — o jovem que eu era, já sedento de sentido, encontrava ali um espelho quebrado, mas infinitamente verdadeiro. A cada página, uma crucificação interna — das certezas tranquilizadoras, dos códigos morais herdados, da timidez da palavra contida.
Nas idas e vindas da vida — mudanças de cidade, de tempo, de convicções — a trilogia sempre me acompanhou. Já devo tê-la relido meia dúzia de vezes, em décadas diferentes, com olhos distintos: o primeiro leitor era intenso, aflito; o segundo, mais cínico; o terceiro, talvez mais velho — mas sempre um aprendiz da densidade humana. E em cada releitura os ecos foram mudando, sussurros novos surgiam entre as páginas: culpa, nostalgia, revolta, a crônica dolorosa da liberdade.
Recordo também do Círculo do Livro — não só como mera distribuidora de volumes, mas como portal de acesso à literatura num Brasil profundo, espraiado, muitas vezes longe de livrarias. Através daqueles catálogos enviados por correio (ou entregues por vendedores), o Brasil inteiro tinha chance de montar bibliotecas particulares.
Na minha juventude, esse funcionamento parecia mágica: livros de capa dura, preços acessíveis, a proposta de democratizar a leitura, de permitir que meninos e meninas de qualquer canto tivessem em casa não apenas entretenimento, mas companhia de autores e ideias.
Hoje, ao voltar às páginas de Sexus, Plexus e Nexus — já com décadas a mais de vida — sinto o mesmo impacto: não o do choque juvenil, mas de uma ressonância lenta e persistente. A obra continua me acompanhando, não como um fantasma, mas como uma escada: para subir, para revisitar, para questionar — sempre.
E percebo que aquele impacto fulminante de outrora não se apagou: apenas mudou de tom. Agora é mais fundo, mais sereno. Mas igualmente insubornável.
29/11/2025
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
