A Globo e Eu: Nada a Ver, Nada a Dever

Estamos em Janeiro de 2022. Há pouco mais de 50 anos meu pai comprou nosso primeiro aparelho de televisão —- uma Philco importada, preto e branco, 16 polegadas, com pagamento em ‘trocentas’ prestações, em uma loja que nem existe mais —- . Absurdamente, naquele início da década de 1970, éramos pobres, mas comprávamos produtos importados – produtos eletrônicos, discos, calças Lee americanas, perfumes, bebidas, leite em pó e quinquilharias mil. Nada era Made in China. No máximo, Made in Taiwan ou Hong Kong. O milagre da Zona Franca de Manaus nos permitia a esses luxos.

O televisor Philco importado dos EUA chegou de surpresa, encerrando, ao menos para nós, a fase de televizinhos. Por outro lado, demos a contrapartida, cedendo aos vizinhos, que ainda não podiam ter uma televisor para chamar de seus, a oportunidade de compartilhar as imagens do nosso televisor. O foco principal era, obviamente, as novelas. Da TV Globo, destaque-se. Em 1971, Irmãos Coragem estava caminhando para seu final. O bang-bang à brasileira levava todos para outro universo, uma mescla de fantasia com realidade, que, naquele tempo, ninguém sabia analisar, tampouco se daria a esse luxo, afinal, isso era tarefa para intelectuais, que viviam em algo parecido com um universo paralelo. Eles sabiam da nossa existência. Em contrapartida, estávamos cagando e andando para eles, pois, além de não conhecê-los, não tínhamos a menor necessidade de saber e entender suas ideias e ideologias. A vida era dura, e a televisão era um instrumento de alívio no nosso cotidiano.

Outro fator a considerar é que, naquele tempo ainda não havia a transmissão via Embratel e, como aqui ainda era o cu do mundo, os capítulos chegavam com uma defasagem de cerca de duas semanas, de maneira que já sabíamos o que ia acontecer, por meio das revistas de fofoca. Jerônimo Coragem (Cláudio Cavalcante) ia morrer junto com sua amada Índia Potira (Lúcia Alves) em um tiroteio com a polícia; que o Coronel Pedro Barros (Gilberto Martinho) ia enlouquecer; que João Coragem (Tarcísio Meira) quebraria o cobiçado diamante em praça pública para alegria do povo, e que ele seria feliz para sempre com sua amada Márcia (Glória Menezes), filha do terrível Pedro Barros; e que Duda Coragem (Cláudio Marzo) voltaria a se entender com Ritinha (Regina Duarte). Mas, o que importava esse atraso? Afinal de contas, tínhamos uma televisão, e a TV Globo – que ainda não era a todo-poderosa do ramo do entretenimento — já nos tinha… E não sabíamos.

Mesmo naquele começo da televisão, a influência das novelas já se fazia sentir na minha cidade. Uma enorme área de terra foi invadida, logo sendo batizada de Coroado, em ‘homenagem’ a cidade fictícia onde se dava a luta dos Irmãos Coragem contra a autoridade do Coronel Pedro Barros. Uma das ruas da invasão que virou bairro possui o nome do vilão. Há quem diga que isso é uma mera coincidência, e há quem discorda.

Naquele 1971, um certo Silvio Santos tomou posse dos nossos domingos. O programa começava por volta das 11 horas da manhã, se estendendo até por volta das 19 horas. Pouca coisa era capaz de desviar nossa atenção para o Homem do Baú. E isso se seguiu por anos a fio, mesmo após a saída dele da Globo para fundar sua própria rede de televisão.

E nem vou falar dos filmes, dos desenhos animados e das séries, para não me estender muito. O foco deste artigo é ela: a emissora do plim-plim.

Tenho o hábito de olhar para trás, analisando fatos para me posicionar no presente e me preparar para os desafios do futuro. Infelizmente, não é possível fazer a engrenagem do tempo voltar atrás. O máximo que podemos fazer é não repetir os erros que cometemos, inconscientemente ou não. Também, não é possível cometer os erros que cabeças pensantes cometeram CONSCIENTEMENTE. Nisso, há crimes cometidos contra a inocência das pessoas. E a TV Globo os cometeu a torto e a direito nesses mais de 50 anos. Contudo, justiça seja feita: as demais emissoras concorrentes também tem seus pecados. Entretanto, os da Globo pertencem à ‘classe mega’, dado o gigantismo que a emissora da família Marinho alcançou ao longo de mais de cinco décadas. E não é pouca coisa.

Seria injusto condenar a TV Globo por inteiro. É inegável sua contribuição para a história da televisão brasileira, muitas vezes por inovações que influenciaram o modo de ser do povo brasileiro. Alguns programas jornalísticos, como o Fantástico e Globo Repórter na década de 70, os programas humorísticos (Satiricom, Planeta dos Homens, Casseta & Planeta, Zorra Total, Os Trapalhões e Chico City), os esportes. Já a linha de shows prezavam pela variedade e qualidade. Mas, era por meio das novelas e do Jornal Nacional que a TV Globo entrava, de fato, na vida das pessoas.

As novelas ditavam as modas, o linguajar, as gírias, os bordões, influenciando fortemente no senso crítico (ou na falta dele) do grosso da população. As pessoas absorviam certas influências de modo natural. Um exemplo claro disso foi a novela Dancin’ Days (1978), que praticamente turbinou o fenômeno das discotecas Brasil a fora (ou a dentro, dependendo do ângulo de onde se olhe). Nunca se vendeu tanta roupa, maquiagem, calçados e discos. Muitos discos. Um modelo de meias coloridas foi lançado por uma personagem da novela, que vendeu como água no deserto. A novela Dancin’ Days fez os brasileiros dançarem. O setor de dramaturgia da emissora, àquela altura, já tinha a fórmula para moldar, não apenas os hábitos, e também o modo de pensar dos brasileiros.

Comigo não foi diferente. Sempre fui mais ligado ao jornalismo e aos programas humorísticos. O Jornal Nacional era a minha principal fonte de informação televisiva. Todas as notícias que eram veiculadas recebiam de mim a o carimbo de “verdade absoluta.” Eu ficava chateado quando perdia uma edição do JN, quando havia um fato muito importante acontecendo. O jornalismo da Globo passava – subliminar e até explicitamente – seus pontos de vista sobre tudo. Era a informação de mão única. É claro que havia outras opções em outras redes de televisão, mas a Globo era absoluta. A revista eletrônica Fantástico só reiterava esse, digamos, absolutismo informativo.

Um exemplo claro desse absolutismo informativo (esse termo é uma invencionice minha, sem valor científico e apenas ilustrativo) é a reportagem-bomba exibida no Fantástico em 1995, na qual o cadáver de um ET é submetido a uma autópsia feita no ano de 1947, nos Estados Unidos. Eu, no alto dos meus 31 anos, caí feito um pato nessa fake news de outro mundo. Evidentemente, a matéria pôs em dúvida determinados detalhes do vídeo, entrevistou especialistas, mas o que ficou retido na minha mente foi o carpo do tal ET. O assunto rendeu por semanas a fio. Havia quem acreditava. E havia quem não. Eu fazia parte do primeiro grupo, mas só para mim. Se a reportagem tivesse dito que os ET estavam entre nós, eu acreditaria do mesmo modo.

Com o advento da internet (e graças a ele) tomei conhecimento de que o tal vídeo era uma farsa no melhor estilo Pegadinha do Mallandro, mas sem o “ié-ié-ié!” de praxe. Sinto uma imensa vergonha por ter acreditado naquilo, da mesma forma como acreditei em muita coisa divulgada pelos jornalísticos da Globo ao longo dos anos. Hoje, me dou ao trabalho de pesquisar matérias impactantes. Em alguns casos, isso nem é tão necessário, pois elas vêm à tona sem que eu procure por elas. Assista às matérias nos links abaixo:

https://exame.com/ciencia/polemico-video-de-autopsia-alienigena-custou-54-mil-dolares/

Outro exemplo de manipulação da opinião pública com clara influência em suas decisões é a campanha eleitoral de 1989, a primeira após regime militar. Os dois principais concorrentes ao Palácio do Planalto eram Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Melo:

“Discutido até os dias de hoje, o debate eleitoral de 1989 entre Fernando Collor e Luís Inácio Lula da Silva, gera polêmica e diferentes visões acima da transmissão. É certo de que após o debate do segundo turno, Fernando Collor venceu com 53,03% dos votos, sendo a primeira eleição, desde 1960, em que os cidadãos brasileiros foram aptos a votar e escolher seu presidente da república.

Muitos afirmam que a vitória de Collor se deu pela manipulação e edição da Rede Globo no debate. As suspeitas poderiam ser confirmadas com a vitória de Collor nas urnas. Dados mais concretos também podem ser observados: “Um relatório da DENTEL (Departamento Nacional de Telecomunicações), divulgado em 08/12/89, aponta o favoritismo da Rede Globo para Fernando Collor de Mello: ele teria 78,55% mais tempo de divulgação no noticiário político, se comparado ao do seu concorrente Lula, no período de 27/11 a 06/12/89.”

Em 2011, em entrevista ao Globo News, Boni, então diretor da emissora, afirmou que “Todo aquele debate foi produzido – não o conteúdo, o conteúdo era do Collor mesmo -, mas a parte formal nós é que fizemos”. Até mesmo o ex-presidente Fernando Collor admitiu ter tido uma vantagem sobre Lula. Provando então a teoria que a televisão teria poder suficiente para moldar uma nova realidade, e influenciar o povo que pela falta de acesso a outros meios, se informam apenas pela mídia televisiva (…)”

Com se sabe, o Caçador de Marajás venceu a corrida eleitoral. Pouco mais de dois anos após a posse, Fernando Collor foi tirado do poder por meio de um impeachment. Lula seria eleito presidente da República em 2002, inaugurando um longo período do Partido dos Trabalhadores no poder. Lula foi reeleito em 2006, e é o protagonista dos maiores escândalos de corrupção já registrados na história do Brasil, sendo condenado à prisão em 2018, e sua substituta, Dilma Rousseff, foi deposta na metade seu segundo mandato, em 2016, envolvida não apenas em corrupção, mas em uma gigantesca crise econômica que quase levou o país para o buraco. Evidentemente, a TV Globo explorou o fato à exaustão, o que contribuiu para a ruína da credibilidade do PT e seus associados.

Por ser a maior rede de televisão do Brasil e uma das maiores do mundo, naturalmente, o gigantismo da Rede Globo sempre a colocou como alvo de interesses políticos. Com Leonel Brizola e Lula, por exemplo, não foi diferente. E com o presidente Jair Bolsonaro, também não. O que fica claro, a meu ver, é que a TV Globo e as demais empresas do grupo não possuem ideologia, e sim, interesses. São as conveniências do negócio e os modos de agir nos bastidores que a fizeram sobreviver ao logo de toda sua existência.

Em 1964, o jornalista Roberto Marinho, em editorial do jornal O Globo, declarou apoio ao regime militar. E, como se sabe, a TV Globo, inaugurada em 1965, se beneficiou bastante dos governos dos generais. Como os ventos da política sempre mudam, a Rede Globo se redime por meio de uma nota que, volta e meia, é lida por seus jornalistas toda vez que o assunto vem à baila. É famoso o vídeo de uma entrevista com o então candidato Jair Bolsonaro, no qual a jornalista Miriam Leitão “psicografa” uma nota da emissora que assume o erro de ter apoiado o movimento/golpe/contragolpe cívico-militar.

Passaram-se os anos e, constamos a enorme crise na qual o Grupo Globo está metido. Todas as suas empresas estão passando por readequações, demissões estão ocorrendo a todo momento. Há uma queda brutal no faturamento, somada com a redução drástica nos anúncios do Governo Bolsonaro. A empresa está vendendo seus ativos, inclusive no exterior. Muitos artistas medalhões também estão sendo mandados embora, ou, na melhor das hipóteses, permanecem na empresa, mas com salários reduzidos. Isso se deve em grande parte a internet, que tirou da mídia tradicional o monopólio da informação.

Além do mais, há uma dívida milionária em impostos e passivos trabalhistas. Na Rede Globo e, em especial, na TV Globo, a crise maior é de credibilidade. Cada vez mais, aqueles que cresceram sob a luz da Vênus Platinada, como também é conhecida, percebem o quão perderam sendo telespectadores passivos, como eu. Não há dia em que um podre da (ainda) poderosa televisão seja revelado via internet. O que o âncora do Jornal Nacional diz, já não tem tanto efeito. Até mesmo o famoso “boa noite” dito por William Bonner não tem mais tanto efeito. Na verdade, o respeitoso cumprimento é posto em dúvida.

No momento, acompanho os embates entre a emissora da Família Marinho e o presidente Jair Bolsonaro. Sabe-se que o atual presidente nunca morreu de amores pela TV Globo. E sabe-se, também, que ele está atrapalhando os interesses da empresa, a qual investe, com todos os meios que dispõe, para inviabilizar seu governo. Presumo que tudo isso é uma questão de sobrevivência – a morte de um significa a sobrevivência do outro, tal qual como acontece em uma savana africana. Se é que vale esta comparação.

Apesar dos meus sentimentos negativos em relação a tudo o que a TV Globo representou em minha vida — noves fora os pontos positivos — não desejo a falência da emissora, e sim, sua redução, até o ponto em que permita o surgimento de novas opções relacionadas a velha mídia. Quanto mais diversidade de opções, melhor será. Não mais quero ver celebridades posando de semideuses e seus narizes empinados. A TV Globo é aquele tipo de árvore muito frondosa, que impede que a luz do sol favoreça a crescimento das plantas sob sua copa.

Por fim, a Globo e eu: nada a ver. Nada a dever.

17/01/2022

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

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