Black Sabbath: Uma Ode ao Demônio

No ano de 1971, quando me deparei com o LP Black Sabbath (1970, o primeiro da banda, com a bruxa do casarão na capa), tinha 14 anos. Já era interessado em ocultismo desde muito cedo. A capa do disco me chamou muito a atenção. Peguei o dito cujo, fui para uma cabine de som (comum na época) na Livraria Brasil de Campinas (que hoje não existe mais), grudei os fones no ouvido e toquei a primeira faixa…

Tive um orgasmo imediato. A chuva, os sinos e a entrada da guitarra e a voz gutural de Ozzy me levaram direto para a Casa de Usher (para quem não conhece, trata-se de uma maravilhosa história sobrenatural do escritor místico Edgar Allan Poe). Na sequência, a gaita macabra da música “The Wizard” completou minha overdose. Tirei o fone, paguei pelo play e corri para “queimar um” sozinho nos fundos de minha casa. Foi o dia inteiro ouvindo este disco. Eu já estudava piano adiantado em conservatório e tudo aquilo estava fervendo dentro de mim. Missas negras, músicas estranhas, pesadas, cheias de feeling, climas sobrenaturais, enfim, tudo o que eu amava em um som estava naquela bolacha.

O disco saiu no Brasil com capa simples, mas a maravilhosa capa americana era dupla, e tinha uma cruz invertida dentro com um poema de H.P.Lovecraft. (*) Lindíssima! Virando o disco para o lado B, esperava que a viagem tivesse acabado, mas era ai que o bicho pegava. Ele começa com uma balada de violão e uma voz gutural seguida de um arregaço de bateria e guitarras (uma jam session com pegadas cruas de Jazz). Enfatizo a criatividade e técnica de Tony Iommi, a pesada e criativa pegada de Bill Ward, apoiado pelo baixo demoníaco de Geezer Butler. Este LP é um marco único na virada de cena dos anos 70 mesmo com o Led Zeppelin dois anos antes, estourando nas paradas com um som pesado e fora da psicodelia do peace & love.

A esse disco seguem Paranoid, Master of Reality e Volume IV. Uma porrada atrás da outra, sem perder a pegada e mantendo o som “diablo” nas guitarras de Iommi.

Foto: Collector's Room

Surgiam muitos rumores sobre a banda na época. Uma das histórias confirmadas era de que em um show do Black Sabbath na Inglaterra, um grupo de satanistas preparou atrás do palco um “bolo de bruxas” e uma missa negra com tudo que se tem direito. Iommi (um adepto das “artes negras”), mais instruído, deixou a bola rolar. Já o Ozzy, chapado pra variar, foi brincar com a turma lá atrás. Ele resolveu sacanear apagando as “velinhas” do bolo. Conclusão: hospital com internamento psicótico (possessão), inchaço, etc. É o que acontece com desavisados que chegam próximos a um banquete do demônio.

As capas dos discos passavam-nos uma impressão totalmente sobrenatural, que os diferenciavam das outras bandas. Sabbath Bloody Sabbath e Sabotage estão banhados pela bruxaria e são obras primas, mantendo uma atmosfera sinistra e sui generis. Por mais que os quatro integrantes neguem sua dita “influência satânica”, eu me recuso a acreditar que eles não se enfiaram até o fundo em assuntos ligados ao ocultismo. Tudo na música deles é macabro, mesmo as baladas mais formais!

Recentemente adquiri o filme de terror-trilogia com Boris Karloff chamado “Black Sabbath” que deve ter sido assistido no s anos 60 por Geezer Buttler, de onde advém o nome do grupo. (*)

É importante também lembrar que eles influenciaram todas as posteriores vertentes do metal, de várias gerações, seja o black metal, gothic, doom, thrash metal, ou qualquer outro segmento.

Impossível ouvir algo parecido nos dias de hoje! No rock nunca ouvi nada semelhante. E isto mesmo quando em comparação com outras bandas que jamais serão igualadas. O Black Sabbath realmente, a começar pelo nome, se diferencia em muito dos outros grupos da época. Algo sem explicação. Seria como um portal musical abrindo para o lado sobrenatural, escuro e gótico do além. Isto é o que sinto quando ouço essa descomunal banda.

Após a saída de Ozzy passaram Ronnie James Dio, Glenn Hughes, Ian Gillan e Tony Martin registrando magníficos petardos sonoros, que apesar das críticas, são obras primas indiscutíveis. Em momentos raros ainda Ray Gillen e Rob Halford (ao vivo) que registraram alguns piratas soltos por ai.

Foto: Pinterest

N. do E.
(*) Esse poema não foi escrito especificamente para o álbum. Não há informações precisas sobre ele, mas há quem ache que o autor é H.P. Lovecraft, escritor que muito influenciou a banda, mas não há certeza da autoria.
Beyond the Wall of Sleep” faixa 3, foi baseada num conto homônimo do escritor norte-americano H. P. Lovecraft escrito em 1919.

(**)”Black Sabbath”, cujo título em italiano é “I Tre volti della paura” (As Três Máscaras do Terror (título no Brasil) ) refere-se ao filme de horror italiano de 1963, do diretor Mario Bava. O filme compreende três histórias de horror: “The Wurdalak”, “The Drop of Water” e “The Telephone”.

Atualização da Nota (2024, por Amyr Cantúsio Jr.)
“Verdade, o poema não foi feito para o álbum do Black Sabbath, mas foi colocado ali pela produção. O poema é do assistente do Produtor, Roger Brown, devido a ter uma faixa inspirada em Lovecraft.”

Foto: O Globo

Texto Publicado na 4ª edição da Revista “Gatos & Alfaces“, Agosto, 2014

Amyr Cantúsio Jr. – Campinas, SP. Músico, Compositor, Pianista, Produtor e Gestor Cultural, Técnico em Fortran & Cobol, Musicoterapeuta em Neurociencia. Livre Pensador.

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