À esquerda: Cracolândia (Foto: Herculano Barreto Filho/UOL) - À direita: Moradores de Rua no centro de Araraquara (Foto: Milton Filho/ Acidade On)

Cidades em Crise: São Paulo e Araraquara no Espelho da Desesperança

Sou paulistano nato, filho de paulistanos natos, mas há quase sete anos deixei definitivamente a cidade para não enlouquecer. Cheguei a parafrasear Olavo de Carvalho dizendo para minha mulher: “Qualquer hora mato um paulistano.” E ela: “Quem?” Eu: “Qualquer um!” A cidade da qual eu tanto tinha orgulho, pela cultura, pelas oportunidades, pela história e por tudo o que oferecia, passou a me aterrorizar, a ponto de eu deixar de ir ao centro da cidade, meu local favorito desde a adolescência. Monumentos pichados, ruas mijadas e cagadas, prédios históricos invadidos ou destruídos, pessoas sem caráter, sem paciência, que querem fazer dos seus direitos obrigações alheias. Intolerância e falta de apego aos seus próprios valores históricos. Todas as coisas que eu amava foram destruídas, e assim, como alguém que é progressivamente traído e aos poucos se desapega e, com o tempo, começa a odiar a pessoa, há dois caminhos: abandono ou crime.

De uma cidade com cerca de metade da população de descendência italiana nos anos 1950, quando São Paulo sequer era a maior cidade do estado, posto ocupado por Campinas, a uma megalópole com mais de doze milhões de almas, composta em grande parte pela escória mundial, São Paulo se tornou um local inóspito, perigoso, violento. Cracolândia, PCC e uma série de redutos criminosos bem debaixo das barbas dos governantes, e assim se explica porque a capital efetiva do Brasil acabou se tornando reduto esquerdista, desde os anos 1980, com Covas e Erundina, passando por Marta Suplicy, José Serra e Haddad, e fechando o círculo com Covas Neto. Agora, em 2024, o que temos? De um lado, a dupla nefasta: Boulos/Marta, e do outro… Pablo Marçal. Quem?

Pablo Marçal, correta ou incorretamente chamado de “coach”, é considerado um outsider político, e, nesse ponto, é comparado por muitos a Bolsonaro, e tal como este, nada nas águas bolsonaristas do outsider na política, o que é bom por um lado, mas que com certeza atrairá muitos tubarões que chegarão sedentos à sua praia. (Aliás, já chegaram, mandando derrubar perfis dele em algumas redes).

Até por isso, e como já aconteceu na sua tentativa de eleição à presidência, duvido que não achem um jeito de cassar a candidatura dele, afinal, é uma ameaça, inclusive ao próprio bolsonarismo, cujo capitão, por motivos ainda não compreendidos, decidiu apoiar o atual prefeito de São Paulo, um tampão de Covas que esconde dos eleitores o apoio do ex-presidente.

Agora, por outro lado, embora eu admire suas atitudes e coragem, coragem esta revestida por uma boa conta bancária, e particularmente a figura do outsider, mesmo duvidando que consiga quebrar as correntes e ser eleito, tenho minhas dúvidas sobre sua capacidade de “dirigir” uma cidade, que aliás reputo como indirigível. O Doria vendeu a ideia de gestor há alguns anos, foi eleito e se mostrou incompetente. Uma coisa é administrar uma empresa, com funcionários registrados, cartão de ponto, etc.; outra coisa é uma cidade com mais de 10 milhões de pessoas, que cagam montes para o “Chefe”, que tem entre seus dirigentes falanges criminosas, como o PCC. Duvido que ele dê conta, e mais ainda que consiga se sustentar com a corriola de indecentes que realmente mandam na cidade. Lembrando que a capital de São Paulo, maior cidade do Brasil, já elegeu: Haddad e a Marta do Colete à Prova de Balas, que é vice do Boulos de Bosta. Como também Erundina, que já foi também vice do invasor de propriedades que adora talco.

Fluxo da "cracolândia" se instalou na rua dos Protestantes (Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL)

Agora, usando como referência e contraponto, Araraquara, cidade que fica a 270 quilômetros de São Paulo, que tem em seu perímetro a sede de empresas gigantes como Lupo e Cutrale, e possui uma geografia, clima e história invejáveis, e que deveria só por esses motivos figurar entre as mais modernas e eficientes do mundo, por conta de seu histórico político, é apenas um feudo do coronelato… Desde sempre. O final do século 19 marcou a cidade para sempre com o Linchaquara, quando um jornalista e seu tio foram linchados por seguidores do Coronel Antônio de Carvalho, que fora morto por Rozendo Brito em legítima defesa. A motivação foi política, e esse crime marcou, e marca até hoje a cidade.

Embora, segundo a opinião dos mais idosos da cidade, ela tenha tido prefeitos que de fato tinham a cidade, não seus bolsos e a escalada ao poder, como objetivo, como Rômulo Lupo (2 mandatos) e Waldemar De Santi (3 mandatos), o que se observa é uma cidade dominada pelo petismo desde a virada do século, com o atual prefeito pela quarta vez, dominando completamente o cenário político. Considerado uma das maiores lideranças do PT nacional, ele foi o chefe de campanha do atual presidente, que, aliás, coincidentemente estava na cidade no fatídico 8 de janeiro de 2023. É certa a eleição de sua candidata, justamente a criadora do lockdown criminoso estabelecido na cidade na época da pandemia. E é certa não apenas pela falta de qualquer outra liderança que tenha projeção na cidade que lhe faça oposição, porque o que temos são arremedos de oposição, com candidatos que dão as caras apenas em época de eleição.

Ao contrário de São Paulo, onde as tradições, história e até mesmo as religiões foram todas destruídas, Araraquara ainda tem como predominantes as famílias que descendem dos primeiros moradores da cidade, ou seja, é uma cidade tradicionalista, onde o catolicismo ainda predomina com larga vantagem sobre as neopentecostais. Ainda assim, encantados com o populismo comunista de dar esmolas aos eleitores com o dinheiro dos contribuintes da cidade, essas famílias, para fingirem que são boas pessoas, se aliam aos interesseiros beneficiários desses atos populistas, e assim acabam tendo uma cidade totalmente abandonada, com ruas cujo asfalto está desmanchando, mato alto nas praças, nenhuma segurança durante cerca de três anos e meio antes das eleições, quando há a correria para inaugurar obras. Um exemplo disso: em junho, o prefeito fechou dois dos três UPAs da cidade para reforma com inauguração prevista para… Bem, cerca de menos de um mês das eleições municipais. E como a candidata petista é a ex-secretária de Saúde…

Moradores se abrigam em marquise de Espaço Cultural na Praça Pedro de Toledo (Foto: Milton Filho/ acidade on) - Publicidade -

Ao comparar São Paulo e Araraquara, vemos que ambas as cidades sofrem de males similares, mas com nuances distintas. São Paulo, com sua vastidão caótica, representa a degradação do tecido urbano e social em uma escala monumental. A metrópole, outrora orgulhosa de sua cultura, história e diversidade, foi tomada pela violência, corrupção e desordem. O gigantismo da cidade parece torná-la ingovernável, com lideranças que falham em restaurar o brilho perdido e em enfrentar os desafios de uma população tão diversa quanto numerosa.

Araraquara, por outro lado, embora menor e mais tradicional, não está isenta das mesmas mazelas. Apesar de seu histórico de tradições familiares e um catolicismo predominante, a cidade se vê aprisionada em um feudo político, onde o coronelismo moderno se perpetua. A liderança petista, marcada por um populismo que alimenta a pobreza com esmolas eleitorais, mantém a cidade estagnada. Enquanto São Paulo sucumbe ao gigantismo e à criminalidade, Araraquara é vítima de uma apatia política que a mantém distante de seu potencial. Ambas, contudo, refletem a crise mais ampla de liderança e valores que permeia o Brasil contemporâneo, onde o progresso é substituído pela sobrevivência e o futuro pela desesperança.

Escrito e Publicado em 06/09/2024

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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genecysouza@yahoo.com.br
08/09/2024 19:23

Seja a sua cidade natal, seja a cidade que você adotou, os retratos mostrados no seu texto se repetem em praticamente todo o Brasil, quando muitas cidades importantes em qualquer nível, independentemente de seu tamanho e força econômica, padecem dessa entrega a aventureiros de toda as espécies, principalmente aquelas umbilicalmente logadas ao partido da estrela vermelha, seja por afinidade idiológica genuína, ou por puro oportunismo. A decadência urbana é visível, ao passo que a tal elite que as domina como autênticos feudos parece não querer largar osso. É possível tomar esse osso, mas briga será feia.

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