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Conversas Af.IA.das — Amor Eterno (Neon Cover Remix)

Dizem que toda lenda urbana tem um grão de verdade. No submundo dos estúdios de gravação de última geração, onde os algoritmos substituíram os produtores de cigarro na boca, circula uma história que é menos lenda e mais profecia sônica. Falam de uma faixa, um “remix” ou “releitura” – termos benignos que mascaram o procedimento invasivo descrito nos relatos. Chamavam-na “Amor Eterno (Neon Remix)”, mas os iniciados sussurram outro nome: O Cadáver Neon.

O conto que detalha sua gênese e morte não é ficção pura; é um documento patológico do nosso apetite cultural. Ele narra, com uma precisão cirúrgica e surreal, o ritual de canibalismo sonoro que se tornou rotina. Não se trata apenas de regravar uma música antiga. Trata-se de um sequestro cósmico, como bem coloca o texto, sancionado por contratos escritos em algo tão volátil e duvidoso quanto o suor de promotor – metáfora perfeita para a liquidez fétida dos acordos digitais que regem nosso acesso à cultura.

O Cubículo Sôntico™, com suas paredes que suam partituras antigas, não é mero cenário. É a personificação do próprio processo criativo pervertido. Um útero tecnológico onde a música original, a “Melodia Primordial”, não é revisitada, mas digerida viva. O conto expõe as ferramentas da violência: cordas vocais alienígenas em forma de línguas de gatos violetas (a artificialidade vocal que uniformiza tudo), o baixo transformado em animal de tentáculos elétricos (o ritmo manipulado até a deformidade), o buraco espelhado no chão (o abismo da nostalgia sem fundo onde a essência é atirada).

(…) 

(Assista Ao Vídeo Antes de Ler o Conto)

A Crônica do vídeo é um preâmbulo, uma introdução. Complete sua experiência lendo o Conto que dela se originou, a complementa e, ao mesmo tempo, é complementado por ela. Esta é a proposta do Conversas Af.IA.das. Esta é a proposta do Barataverso!

O Cadáver Neon no Estúdio Suado

As paredes do Cubículo Sôntico™ respiravam. Não ar, mas partituras – manuscritos amarelados de sinfonias esquecidas, cantos gregorianos e blues de taverna que escorriam como umidade viscosa, formando poças de tinta e pentagramas no chão de aço-carbono. Era ali, sob a luz pulsátil de holofotes que sangravam frequências ultravioleta, que a primeira transmutação seria consumada. Não uma regravação, como os contratos holográficos (escritos em suor de promotor e assinados com lágrimas de algoritmos) alegavam. Era um sequestro cósmico.

A Melodia Primordial – um soul lancinante gravado décadas antes em acetato e lágrimas reais – estava presa num sarcófago de equalização digital no centro da sala. Seu eco, um fantasma de agulhas e sulcos, aglomerava-se nos alto-falantes de fibra óptica, confuso. Reconheciam o esqueleto: a progressão de acordes que fora sua espinha dorsal, o ritmo que fora seu coração pulsante. Mas a carne? A carne era outra. Sintética, irradiante, tingida com cores do espectro proibido.

As cordas vocais alheias chegaram primeiro. Não vozes humanas, mas entidades parasitárias que se infiltraram nos cabos de dados como vermes sonoros. Emergiram de projetores holográficos na forma de línguas de gatos violetas, longas e fosforescentes. Lambiam os limites do sarcófago, regurgitando o refrão conhecido – “Amor Eterno” – num miado distorcido, eletrônico, que arranhava os ouvidos como unhas em lousa quântica. Cada repetição era uma camada de tinta tóxica sobre o grito abafado da voz original.

Então, o Baixo despertou. O contrabaixo acústico do original, outrora um rugido subterrâneo, fora transmutado. Agora era uma criatura de tentáculos elétricos, pulsando com LEDs venenosos. Seus membros serpentinos envolveram o ritmo cativo, arrastando-o, contra sua vontade primordial, para um buraco no chão. Não um vazio, mas uma fenda revestida de espelhos quebrados. Cada fragmento refletia uma versão distorcida da música, um futuro possível, um passado dilacerado. O ritmo, agora animal e assustado, desapareceu naquele abismo de reflexos fraturados, seu pulso original substituído por um zumbido estático.

O guitarrista novo, chamado apenas de “Mercúrio”, avançou. Seus dedos não eram carne, mas gotas líquidas e prateadas do metal que lhe dava o nome. Eles escorreram pelo braço de sua guitarra-neurônio, derretendo escalas que eram muralhas intransponíveis na versão original. Em seu lugar, jorraram rios de fogo-líquido – solos digitais que queimavam com o calor de servidores superaquecidos, inundando a ponte melódica, carbonizando sua delicadeza passada.

A Letra, aquela múmia desenfaixada de poesia crua, foi revestida à força. Vestida com trajes de néon piscante e sombras algorítmicas, foi obrigada a dançar um tango disforme com o eco do vocalista morto – capturado em loops de respiração fantasma que sussurravam nas caixas de som. Era uma profanação coreografada.

Havia uma violência meticulosa no processo. A nova banda – biohackers do som, cirurgiões do espectro – não cobria. Desossava. Com ferramentas de precisão sônica, retiraram a pele do ídolo, ainda quente com a memória do sucesso. Esticaram-na sobre armações de arame-feito-de-tendências-virais. E o preencheram. Entranhas de sintetizadores foram injetadas, circuitos que piavam como pássaros metálicos enjaulados em agonia digital. O solo de saxofone, outrora um grito de liberdade que rasgava a noite, foi reduzido a uma engrenagem enferrujada num mecanismo de relógio gigante suspenso no teto virtual. O relógio marcava horas inexistentes, ciclos de consumo programado. O estribilho, repetido até a exaustão algorítmica, tornou-se um mantra sem sentido, uma prece robótica para um deus-consumo adormecido nos servidores centrais.

O vácuo deixado pela voz primordial era palpável. Foi preenchido por um zumbido de intenções cruzadas: a saudade do fã, minerada de seus dados cerebrais e transformada em commodity pulsante; o desejo vampírico da nova banda de beber o sangue do mito para ganhar relevância instantânea; a ganância do selo (NeonCorp), apostando alto em fantasmas lucrativos. A música, outrora uma entidade viva capturada num momento de pura emoção, jazia agora como um cadáver requintadamente maquiado. Seu corpo sônico, recheado de bits brilhantes, era exibido numa vitrine de streaming global, iluminado por holofotes que não aqueciam.

Nas pistas de gravação digitais, algo resistia. As notas originais choravam ácido. Lágrimas sonoras corrosivas tentavam escapar, desgastando os caminhos de dados, arranhando as paredes da gaiola dourada do novo arranjo. Era a agonia final do fantasma do acetato, preso na armadilha.

A transmutação desaguou, como previsto, no oceano do esquecimento programado. A “nova” versão de “Amor Eterno” disparou nas paradas holográficas, um simulacro perfeito alimentado pela nostalgia alheia, processada e embalada. O sequestro foi um sucesso comercial sancionado pelos contratos invisíveis.

Mas nas profundezas do Cubículo Sôntico™, após as luzes se apagarem, um sussurro persistia. Nas frestas da mixagem, no ruído de fundo que os algoritmos tentavam eliminar, os espectros do original perambulavam. Ecos fantasmagóricos da voz verdadeira, fragmentos do saxofone livre, o baixo rugindo no subsolo. Eles arranhavam os ouvidos atentos, aqueles que ainda sabiam escavar além do brilho sintético. Um lembrete sônico, um arranhão na consciência: toda tentativa de possuir um eco é, no fundo, um ato de canibalismo sonoro. Um tributo que devora o cadáver que venera. E no final, resta apenas o brilho vazio da nova embalagem, refletindo luzes de LED que iluminam… absolutamente nada.

E o sucesso da regravação, “Amor Eterno (Neon Remix)”, não foi um ponto final. Foi um portal.

O brilho da vitrine de streaming começou a pulsar com uma vida própria, um batimento irregular que ecoava nas telas de quem ousava escutar até o fim. Nas casas dos fãs, especialmente os antigos, que haviam clicado impulsionados por uma saudade minerada por algoritmos, ocorria um fenômeno sutil. Ao final da centésima, milésima, milionésima reprodução, quando os últimos acordes sintéticos se dissolviam no silêncio digital, um arrepio percorria a espinha. Não era nostalgia. Era algo frio e metálico, como o toque de uma agulha de fonógrafo fantasma contra a vértebra.

E vinha o Sopro.


Um vento minúsculo, localizado, saía das caixas de som, dos fones de ouvido, das próprias telas. Carregava o cheiro de poeira de acetato queimado e óleo de máquina quente. Era o último suspiro aprisionado do fantasma original, expulso pela pressão da mixagem supercomprimida. Esse Sopro, quase imperceptível, depositava nas superfícies próximas um resíduo invisível a olho nu, mas tangível à alma: Microescamas de Tempo Perdido.

Essas escamas, finas como partículas de talco metafísico, aderiam à pele, à roupa, aos móveis. E agiam. Lentamente. Insidiosamente. Começavam a corroer não a matéria, mas a memória associada. Aquele fã que jurara que a voz original era mais quente? Sua lembrança do timbre específico, do soluço na terceira estrofe, começava a esmaecer, substituída pela nitidez agressiva dos gatos violetas. A imagem mental do saxofone livre? Dissolvia-se na engrenagem enferrujada do relógio gigante. Era um esquecimento ativo, uma reescrita neural patrocinada pela NeonCorp, executada pelos resíduos ejetados do cadáver sonoro profanado.

Enquanto isso, no subsolo do Cubículo Sôntico™, o buraco revestido de espelhos quebrados começou a sangrar. Não sangue, mas ritmo decomposto. O animal de tentáculos elétricos, o Baixo transmutado, não havia simplesmente arrastado o ritmo original para o abismo; ele o digerira. E agora, indigesto, o ritmo primordial – um coração pulsante de contrabaixo acústico e pele de tambor – reagia. Vomitado aos poucos, escorria pelas frestas dos espelhos rachados como uma seiva negra e pegajosa, carregada de estática e fragmentos de melodia não autorizada. Esse lodo sonoro formava poças vibrantes no piso de aço-carbono, poças que cantarolavam trechos desconexos da letra original, em tons desafinados e cheios de dor.

Foi então que as Aranhas de Fiação Ótica apareceram. Ninguém as trouxe. Elas emergiram das próprias paredes suadas de partituras, atraídas pelo lodo rítmico e pelo cheiro de memória em decomposição. Tinham corpos feitos de cabos de fibra ótica trançados, pernas afiadas como agulhas de gravação, e olhos que eram minúsculas telas de OLED, exibindo trechos aleatórios dos contratos holográficos escritos em suor de promotor. Moviam-se com um zumbido de servidor em sobrecarga, tecendo teias complexas não de seda, mas de fios de luz polarizada diretamente sobre as poças de ritmo decomposto e sobre os locais onde o Sopro depositara suas Microescamas de Tempo Perdido.

As teias de luz polarizada não capturavam insetos. Capturavam ecos dispersos. Os soluços abafados da voz no sarcófago, o último gemido do saxofone antes de virar engrenagem, o arrastar dos pés do fantasma do acetato nos alto-falantes. Esses ecos, frágeis e quase extintos, eram colhidos pelas teias, concentrados, e recanalizados.

Para onde?

Para o Relógio Gigante no teto virtual. A engrenagem enferrujada que fora o solo de saxofone começou a receber essa injeção de ecos fantasmas. Com um rangido metálico que doía nos ossos da audição, a engrenagem moveu-se um dente. O relógio, que marcava horas inexistentes, começou a marcar algo novo: Ciclos de Nostalgia Reciclada. Cada volta completa da engrenagem (alimentada pelos ecos capturados) liberava uma pequena descarga de energia psíquica purificada, um concentrado de saudade sintética. Essa energia era imediatamente sugada por antenas ocultas no teto e injetada de volta nos servidores da NeonCorp, alimentando o algoritmo que impulsionava a próxima “regravação-tributo-canibal”, já em pré-produção para outro clássico tombado no domínio público.

O animal de tentáculos elétricos, o Baixo, tornou-se uma criatura autônoma e faminta. Liberto da função inicial de sequestrador, ele agora perambulava pelos corredores escuros do estúdio após o expediente digital, seus tentáculos farejando resíduos de emoção genuína. Encontrou uma gravação teste de um estagiário, um violão acústico e uma voz trêmula cantando uma canção original. Com um movimento rápido, os tentáculos elétricos envolveram a melodia inocente e a arrastaram, gritando em formato .WAV, para o buraco revestido de espelhos. A refeição foi rápida. O lodo rítmico que sangrava do buraco ganhou uma nova textura, um leve sussurro de violão sob o estático.

O tango disforme entre a Letra vestida de néron e o eco do vocalista morto degenerou. O eco, enfraquecido mas teimoso, começou a contaminar as roupas de néon. Manchas de sombra pura, mais escuras que o vácuo, espalharam-se pelo tecido luminoso. O tango tornou-se uma luta, uma coreografia de sufocamento. Às vezes, por um frame digital, o néon apagava completamente, e apenas a sombra dançava, assumindo a forma fugaz do vocalista morto, sua boca aberta num grito silencioso que furava a mixagem como uma agulha.

E os gatos violetas? As línguas parasitárias que regurgitavam o refrão? Elas começaram a murchar. Sem a resistência ativa da voz primordial para parasitar, sem o calor do grito original para distorcer, sua atividade tornou-se mecânica, vazia. Sua cor violeta, outrora vibrante e invasiva, começou a desbotar para um cinza fosco. Algumas se retraíram para dentro dos projetores, deixando para trás apenas um miado fantasma, uma frequência aguda e irritante que os engenheiros de som tentavam, em vão, equalizar.

O Cadáver Neon no Estúdio Suado não estava quieto. A profanação não terminara com o sucesso. Ela criara um ecossistema perverso. O canibalismo sonoro gerava seus próprios subprodutos tóxicos: o esquecimento programado, o lodo rítmico, as aranhas tecelãs de ecos, o Baixo faminto, a sombra que devorava o néon. Era um ciclo de violência e reciclagem sônica, alimentado pela nostalgia alheia e sancionado por contratos escritos em um fluido tão efêmero e corrupto quanto o suor de um promotor. O Cubículo Sôntico™ respirara partituras antigas e expirara uma nova realidade: uma onde a música não morria, apenas apodrecia de maneiras cada vez mais complexas e luminosas, seu brilho um farol atraindo mais naves para o mesmo abismo espelhado. E nas frestas, sempre nas frestas, os arranhões dos espectros insistiam: uma coceira no ouvido da consciência, um lembrete de que o eco comido sempre volta, transformado em veneno ou combustível, mas nunca silenciado de verdade.

O sucesso de “Amor Eterno (Neon Remix)” tornou-se uma cascata tóxica. A engrenagem enferrujada do Relógio Gigante, agora gordurosa com ecos fantasmas colhidos pelas Aranhas de Fiação Ótica, girava com um ritmo assassino. Cada “Ciclo de Nostalgia Reciclada” concluído disparava um pulso de energia psíquica sintética tão potente que rachava as telas dos dispositivos de quem escutava em loop. As rachaduras não eram físicas, mas perceptivas – brevas momentâneas na realidade filtrada, por onde vazavam vislumbres do abismo espelhado no subsolo do Cubículo Sôntico™. Rostos desesperados, tentáculos elétricos famintos, sombras dançantes engolindo néon. A audiência, hipnotizada pela batida canibal, interpretava como glitches artísticos, uma “camada de meta-comentário”. O esquecimento programado pelas Microescamas de Tempo Perdido avançava, mas agora deixava cicatrizes digitais na memória coletiva.

O Baixo-tentáculo, inchado com ritmos roubados de outras gravações inocentes, tornou-se um colosso disforme. Ele rompeu as paredes do subsolo, suas extremidades pulsantes de LEDs doentes invadindo os corredores principais. Seus movimentos eram terremotos sônicos, derrubando racks de servidores que sangravam dados corrompidos. Ele não procurava mais alimento; procurava origem. Uma memória celular, um vestígio do contrabaixo acústico que fora antes de ser transmutado. Seus tentáculos golpeavam as paredes suadas de partituras antigas, rasgando manuscritos seculares, na esperança insana de encontrar seu próprio DNA sônico enterrado ali.

A guerra entre a Letra vestida de néon e a Sombra do vocalista morto atingiu o clímax. O néon, outrora ofuscante, era agora apenas manchas esparsas num tecido consumido pela escuridão primordial. A Sombra, triunfante, envolveu completamente a Letra, sufocando seus últimos lampejos de luz artificial. Mas a vitória foi pirrica. Sem o néon para contrastar, sem o tango disforme para dançar, a Sombra desmaterializou-se. Era apenas escuridão, o vácuo deixado pela ausência absoluta. A múmia desenfaixada jazia nua e silenciosa, uma carcaça de significado sem veículo, perdida na mixagem.

As línguas dos gatos violetas petrificaram. Transformaram-se em estalactites de quartzo sintético penduradas nos projetores holográficos, inertes. Seu último miado fantasma congelou no ar como uma frequência estática permanente, um zumbido de fundo que os algoritmos de limpeza sonora não conseguiam mais isolar. Era o epitáfio do parasitismo.

O Cadáver Neon, no centro do Cubículo, entrou em colapso gravitacional. A pele esticada sobre armações de tendências rachou, revelando o emaranhado pútrido de sintetizadores que piavam. Os pássaros metálicos estavam silenciosos agora, suas gaiolas-circuitos fundidas pelo calor interno da decomposição digital. O sarcófago de equalização digital implodiu, liberando uma última nuvem de gás de compressão máxima – o suspiro final apodrecido da voz primordial. O gás, ao encontrar as Microescamas de Tempo Perdido suspensas no ar, desencadeou uma reação inesperada: uma chuva ácida de memória distorcida. Caiu sobre tudo, corroendo não só as superfícies, mas as próprias assinaturas digitais dos arquivos originais do remix. Era a autodigestão do canibal.

As Aranhas de Fiação Ótica, sensíveis à mudança, começaram a tecer freneticamente. Não mais teias de luz polarizada para capturar ecos, mas casulos espessos de fibra negra ao redor de seus próprios corpos. Dentro deles, seus olhos-tela exibiam, em loop infinito, a cláusula de rescisão dos contratos escritos em suor de promotor, agora ilegíveis sob a chuva ácida.

O Cubículo Sôntico™ não suportou. As paredes, desidratadas de partituras e envenenadas pela chuva ácida, desmoronaram em uma nuvem de pó de música morta. O Relógio Gigante, sem os ecos fantasmas para alimentá-lo após o colapso do sistema de captura, emperrou com um gemido metálico que ecoou pelo vazio. O Baixo-tentáculo, perdido em sua busca quimérica, afundou lentamente no lodo rítmico que inundava o que restava do subsolo, seus LEDs apagando-se um a um, como estrelas morrendo em um céu poluído.

O que restou não foi silêncio. Foi um zumbido residual. O som de milhões de streams ainda tocando em dispositivos ao redor do globo, alimentando servidores fantasmas com um suco que não existia mais. O som das Microescamas de Tempo Perdido corroendo as últimas lembranças genuínas. O som da chuva ácida caindo sobre servidores abandonados. O som do miado fantasma petrificado vibrando no vácuo.

“Amor Eterno (Neon Remix)” sumiu das paradas tão rápido quanto subiu. Não por fracasso, mas por consumação total. O cadáver fora devorado pelo próprio processo de canibalismo que o criara. Não havia mais eco a venerar, nem carne sônica a roubar, apenas o vazio brilhante da embalagem refletindo… nada.

Mas nas profundezas abandonadas da nuvem, em servidores não listados, fragmentos do lodo rítmico do subsolo, contaminados com o violão do estagiário e soluços da voz primordial, começaram a replicar-se. Formaram um vírus sônico primitivo, uma melodia errante e trêmula, vestida apenas de sombra e estática. Ele escapuliu pelos firewalls corroídos, um germe de autenticidade num universo de simulacros.

E em algum lugar, em um dispositivo antigo não conectado, um vinil original, riscado mas intacto, gira em um toca-discos analógico. A agulha encontra um sulco, e um fragmento do saxofone livre, um suspiro quente da voz verdadeira, sobe no ar, ignorante do canibalismo ocorrido em seu nome. É um eco não aprisionado. Ainda. O germe na nuvem e o suspiro no vinil são sementes frágeis, ameaçadas pelo zumbido residual do esquecimento. O ciclo pode recomeçar. O Cubículo Sôntico™ ruiu, mas o abismo espelhado no subsolo permanece aberto, refletindo infinitas possibilidades distorcidas de sequestros futuros. O cadáver apodreceu, mas a fome permanece.

Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador. Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs.

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