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Conversas Af.IA.das — Memória Cheia – Parte II (A Invasão)

Prólogo:

Essa continuação parece carregar um tom de ironia e melancolia diante do cenário contemporâneo — a sobrecarga do consumismo, representado pelo acúmulo de plástico, se infiltra na vida diária. A metáfora do folclore, que antes era um símbolo de tradições, vivências e histórias passadas de boca em boca, agora se converte em um processo mecânico, quase automático, como uma máquina enchendo garrafas plásticas sem fim. A poesia aqui sugere que o “folclore” moderno é fabricado em massa, perdendo sua essência natural, transformando-se em lixo — literal e simbólico.

(Continua…)

(Assista Ao Vídeo Antes de Ler o Conto)

A Crônica do vídeo é um preâmbulo, uma introdução. Complete sua experiência lendo o Conto que dela se originou, a complementa e, ao mesmo tempo, é complementado por ela. Esta é a proposta do Conversas Af.IA.das. Esta é a proposta do Barataverso!

Era uma tarde estranha, daquelas onde o sol parecia derreter em ondas coloridas, como se alguém tivesse pintado o céu com pinceladas de laranja e roxo, arrastando tudo em uma espécie de transe coletivo. As pessoas ao meu redor andavam em câmera lenta, ou talvez fosse eu quem estivesse acelerado demais, já não sabia. Tudo vibrava em um ritmo diferente, como se o ar carregasse uma batida invisível que só alguns conseguiam ouvir.

Caminhei pela cidade, meus pés tocando o chão, mas minha mente parecia flutuar, desconectada. As ruas, antes cheias de vida e barulho, agora estavam cobertas por uma camada de algo estranho. Não era pó, nem sujeira. Era plástico. Um mar de garrafas e sacolas se estendia por quarteirões, como se a cidade inteira tivesse sido engolida por uma onda de consumo descartável que se recusava a desaparecer.

Em uma esquina, uma velha jukebox tocava uma melodia esquecida dos anos 60, algo entre o e psicodélico o melancólico. Me aproximei e, ao lado dela, uma máquina enorme enchia garrafas de plástico sem parar, em um ciclo interminável. O som repetitivo de clique, enchimento, fechamento era hipnótico, quase como uma canção. Pessoas passavam, apáticas, pegando suas garrafas, bebendo e jogando-as de volta ao mar que crescia aos pés de todos.

Sentei-me ao lado da máquina, sentindo o chão vibrar sob mim. Era como se o próprio solo estivesse tentando me dizer algo, uma mensagem vinda das profundezas da terra, sufocada sob o peso de tanto plástico. Olhei para o céu, mas agora ele estava opaco, tingido de cinza, como se as cores tivessem desistido de lutar.

Foi então que vi. As montanhas de plástico começaram a se mover. Lentamente, mas com propósito. Elas não eram mais apenas montanhas; eram criaturas, gigantescas e informes, nascidas do excesso. Elas avançavam pela cidade, crescendo a cada garrafa descartada, absorvendo cada sacola jogada ao vento. Suas formas eram grotescas, moldadas pelos resíduos de nossas escolhas, pelo que havíamos transformado o mundo.

As pessoas continuavam suas rotinas, indiferentes às criaturas plásticas que se agigantavam ao redor delas, como se fossem parte do cenário, parte de um novo folclore, algo que sempre esteve ali, mas que ninguém ousava reconhecer. Eu tentei gritar, alertar, mas minha voz se perdeu no burburinho dos passos e no som mecânico da máquina que enchia garrafas ao fundo.

E então, entendi. As criaturas não eram a ameaça. Elas eram o reflexo do que nos tornamos. Um espelho distorcido, mas fiel, do que criamos. O verdadeiro perigo não eram as montanhas de plástico que cresciam ao nosso redor, mas o fato de que não víamos mais o absurdo da situação. Estávamos cegos, mergulhados até o pescoço em um oceano de artificialidade, e nem sequer notávamos.

De repente, uma garrafa caiu aos meus pés, vazia. Olhei para ela e vi meu reflexo distorcido em sua superfície. Era eu, mas ao mesmo tempo não era. Eu era parte daquela história, parte daquele ciclo. Talvez o folclore moderno não fosse contado em cantigas ou lendas, mas em plásticos e desperdícios, em máquinas que enchiam garrafas sem parar e pessoas que viviam sem perceber o que realmente acontecia ao seu redor.

No fim, o mar de plástico nos engoliu. Não com violência, mas com uma calma perturbadora, como se já fosse parte de nós há muito tempo. E, em algum lugar no meio de tudo isso, a jukebox continuava tocando, sua melodia se misturando ao som das máquinas e ao murmúrio das conversas que ninguém mais ouvia.

À medida que o mar de plástico avançava, fui tomado por uma estranha sensação de paz, como se a iminente fusão entre nós e aquilo que criamos fosse inevitável, uma conclusão óbvia. As criaturas plásticas moviam-se lentamente, mas com determinação, seus corpos formados de sacolas e garrafas ondulavam em ritmos surreais, acompanhando a melodia psicodélica que ecoava da velha jukebox.

Olhei ao meu redor, e as pessoas continuavam andando, suas rotinas inalteradas, como se o espetáculo grotesco fosse apenas parte de um sonho febril. As palavras que surgiam em minha mente pareciam diluídas no ar, incapazes de romper a barreira da apatia coletiva. O que antes era um alerta em minha cabeça agora se tornava aceitação. Talvez fosse assim que deveria ser, afinal.

As formas plásticas começaram a se misturar com os prédios, engolindo janelas, portas, até fachadas inteiras. Aquela paisagem de concreto e vidro tornava-se um híbrido de materiais naturais e artificiais, um reflexo do mundo moderno onde vivíamos. As sombras das criaturas se alongavam, como se se estendessem para o infinito, criando uma dança bizarra que se movia ao ritmo do consumismo desenfreado.

De repente, vi alguém parado no meio da rua. Era um homem vestido com um terno completamente desajustado para aquele clima caótico, com óculos escuros grandes demais e um cigarro pendurado no canto da boca. Ele parecia ser o único que notava o que estava acontecendo, encarando as criaturas plásticas como se já as conhecesse. Ele riu, uma risada solitária e alta, ecoando pela rua deserta.

— Cara, você tá vendo isso? — ele disse, olhando diretamente para mim. — Essa é a nossa obra-prima. Isso aqui é o retrato do nosso tempo!

Eu não sabia o que responder. De alguma forma, ele parecia estar certo. Aquela transformação absurda, aquele cenário de criaturas feitas de lixo, era a pintura perfeita de nossa era.

— E sabe o mais louco? — ele continuou, tragando o cigarro com um brilho de insanidade nos olhos. — Todo mundo tá dormindo, e ninguém vai acordar. Isso aqui, essa porra toda, vai continuar.

Enquanto ele falava, as criaturas se aproximaram mais, suas formas distorcidas agora se misturando com os humanos. As pessoas não percebiam que estavam sendo absorvidas. Vi corpos se tornando parte das montanhas de plástico, fundindo-se de forma grotesca, como se fossem apenas mais um material descartável a ser reciclado naquele novo mundo. Os rostos continuavam inexpressivos, cegos para sua própria transformação.

O homem deu mais uma risada amarga e jogou o cigarro no chão, pisoteando-o lentamente.


— A beleza disso tudo? Não tem volta, amigo. Isso é a nossa revolução plástica. A gente criou e agora faz parte dela.

Suas palavras ecoaram em minha mente. A revolução plástica. Estávamos nos fundindo com nossas criações, tornando-nos parte daquele ciclo de consumo e descarte, sem fim. As cores psicodélicas ao meu redor começavam a derreter, misturando-se com as criaturas, enquanto o céu pulsava com aquele brilho opaco e triste. Tudo se dissolvia, a linha entre o natural e o artificial já não existia mais.

E, no fundo da cena, a jukebox continuava tocando sua música hipnótica, uma trilha sonora para o fim de uma era ou talvez para o início de outra. As últimas notas vibraram no ar, acompanhadas pelo ruído suave das garrafas sendo enchidas.

O homem desapareceu na paisagem, engolido pela maré de plástico que avançava inexorável, e eu fiquei ali, observando enquanto o mundo ao meu redor se transformava, sabendo que, de algum modo, eu também já fazia parte dele.

O som da jukebox finalmente cessou, deixando um silêncio que parecia pairar sobre a cena como um véu espesso. O ar estava carregado de uma calma inquietante, como se o próprio mundo estivesse prendendo a respiração. Olhei para meus pés, e o plástico começava a se enroscar neles, suave e frio, como uma nova pele se formando, uma camada que eu nem ao menos percebi que aceitava.

Ao longe, vi as últimas figuras humanas sendo envolvidas pelas criaturas plásticas, sem resistência, sem luta. O homem de terno tinha razão: estávamos todos dormindo, presos nesse ciclo, e agora fazíamos parte da paisagem. A revolução que ele mencionou não era violenta, era sutil, gradual, imperceptível até o último momento — até que nos tornássemos irreconhecíveis, parte daquele monumento de excessos e desperdícios.

E então, enquanto eu sentia minhas mãos também começarem a se fundir com o ambiente ao meu redor, algo dentro de mim despertou. Não era uma epifania gloriosa ou um chamado heroico, mas uma pequena e estranha aceitação. Talvez ele estivesse certo. Talvez essa fosse a obra-prima do nosso tempo, uma simbiose distorcida entre criador e criação, uma fusão de carne e lixo.

Respirei fundo, deixando o ar pesado preencher meus pulmões. Fechei os olhos, enquanto sentia as formas plásticas envolvendo meu corpo por completo, e, por um momento, houve paz. No fim, éramos todos parte dessa história — um conto de um tempo que passou despercebido, em que o folclore das sombras se misturou à realidade consumista, e nós, silenciosos, nos tornamos um com ele.

A música da jukebox voltou, suave, distante, como se estivesse tocando do outro lado de um sonho.

Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador. Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs.

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