(Inspirado por uma conversa com o amigo Luca Fiuza, a quem dedico este texto)
Quando a gente ama o trabalho que faz, ele deixa de ser trabalho, e passa ser “apenas” amor. Essa frase captura a essência do trabalho apaixonado, onde o ato de criar e construir algo com dedicação e entusiasmo transcende a definição tradicional de trabalho. Quando amamos o que fazemos, o esforço parece mais natural, e os desafios se transformam em oportunidades de crescimento e realização. Nesse estado, o trabalho não é mais uma obrigação, mas sim uma extensão de quem somos e do que acreditamos. Essa fusão entre paixão e profissão transforma o cotidiano em uma experiência de prazer e propósito, onde o “apenas” amor revela uma profundidade que dá sentido à jornada.
Desde que me entendo por gente, o trabalho nunca foi só trabalho. Talvez seja o amor, essa força vital e misteriosa que tantos tentam definir, que transforma a labuta em algo maior, mais luminoso. Mas antes de me perder no que é o amor, volto ao início, ao próprio conceito de “trabalho” – uma palavra que, em sua origem, carrega o peso de outra era. Dizem os etimólogos que vem do latim tripalium, um instrumento de tortura, e não por acaso carrega a ideia de esforço, de suor e dor. Por milênios, essa carga foi a definição de trabalho: uma prática árdua, muitas vezes degradante. Abençoado, então, é aquele que escapa desse sentido sombrio e descobre, no esforço cotidiano, uma faísca de algo maior.
Para mim, essa faísca sempre veio do ato de criar. Minha relação com o “trabalho” não é um casamento com aliança e papéis assinados; é uma paixão constante, um pulso de vida que se manifesta quando escrevo, seja em poesia, prosa, ou na criação de imagens e mundos visuais para o meu universo particular, o BarataVerso. Tudo começa com o amor ao que faço, mas não um amor piegas ou idealizado. Esse amor é teimoso, quase obsessivo, uma força que desafia cansaços e obstáculos. Amor assim não é escravo do sucesso imediato, do aplauso. Ele persiste porque é verdadeiro.
E se o trabalho se torna leve quando o amor existe, não quer dizer que é sempre fácil. Há dias em que as palavras me escapam, em que as ideias parecem brincar de esconde-esconde, recusando-se a se revelarem. Mas a paixão pela arte de escrever e de dar forma ao que parece imaterial me move – é um motor silencioso, porém potente, que torna tudo isso menos uma obrigação e mais uma dança. A sensação que tenho ao escrever é quase uma transcendência, como se as palavras fossem ponte entre o que é real e o que poderia ser. A partir dessa visão, criei em 1996 meu primeiro site voltado à cultura e à informação. E desde então, persisti, em projetos e portais culturais, guiado pelo amor genuíno e puro por esses campos vastos que são a arte e o conhecimento. Afinal, o amor sempre vence, quando é verdadeiro.
Mas falo do amor autêntico, não dessa palavra vazia que certos políticos – especialmente os de esquerda – tanto invocam. Há anos que ouço discursos sobre o amor, uma promessa vã e cheia de nuances hipócritas, dita por lábios que, na prática, exalam o veneno da divisão e do ódio. Esse “amor” político é plástico, criado para seduzir e manipular, nada tem a ver com o amor que faz florescer coisas belas e verdadeiras. O meu amor, ao contrário, é comprometido com a criação, não com a retórica. Ele não é parte de um espetáculo onde se proclama um ideal para esconder outra intenção.
Para mim, o trabalho criativo nunca foi uma questão de status ou de reconhecimento, mas de entrega e sentido. O BarataVerso, em sua essência, é isso: um ato de amor traduzido em palavras e imagens, uma conexão com quem encontra nele um espaço de reflexão e expressão. Em cada texto, cada imagem, há uma semente plantada com o coração. Como na poesia, onde as palavras, tão comuns e tão leves, são capazes de provocar uma revolução silenciosa dentro de quem lê. E é para esses momentos, esses instantes de contato profundo, que vivo e trabalho.
Amar o que se faz é ter liberdade e, ao mesmo tempo, responsabilidade. A liberdade de criar o que quiser, sem as amarras das expectativas alheias; a responsabilidade de entregar ao mundo algo que faça a diferença, nem que seja mínima. Não falo de uma diferença grandiosa ou transformadora – que pode até ser, quem sabe –, mas da diferença que o toque de um bom texto ou uma imagem bem-feita podem provocar. É assim que o amor pelo trabalho se manifesta, quase como um vício que não faz mal, mas que nos completa.
Há uma pergunta que sempre me faço: por que continuo? Depois de todos esses anos, por que sigo escrevendo, criando, editando? É, talvez, porque sei que o amor verdadeiro não precisa de razões; ele simplesmente existe e age, movendo montanhas de cansaço, de falta de apoio, de qualquer coisa que possa parecer um obstáculo. O amor ao trabalho é um fenômeno que transforma a vida em um projeto pessoal, íntimo e até intransferível. O meu trabalho com a escrita e a criação visual é algo que não conseguiria delegar, porque ele é uma extensão de quem sou e do que acredito.
Entre a poesia, a prosa, o BarataVerso e tudo que criei ao longo desses anos, desde 1996, há um fio que os liga, e esse fio é o amor. É um amor que fala de liberdade e de expressão, da vontade de deixar uma marca sutil, quase imperceptível, no mundo. Nada do que faço é gratuito; é parte de um todo que constrói uma visão de mundo, um olhar poético, crítico e, por vezes, até sarcástico. Porque, afinal, a vida não é para ser levada tão a sério – a beleza está nos detalhes e na leveza com que se encara o caminho.
Trabalhar com aquilo que se ama é, em última instância, uma forma de respeito a si mesmo e ao que acreditamos ser nossa missão. É ter coragem de enfrentar dias cinzentos, de suportar as críticas e o descaso, porque o que nos move é algo maior que o reconhecimento imediato. No meu caso, é o desejo de que as palavras e imagens que crio possam tocar alguém, oferecer um momento de contemplação, um questionamento ou até mesmo um sorriso.
E é essa a verdadeira vitória do amor: persistir onde tantos desistem, continuar onde tantos pararam. Porque, ao contrário das promessas vazias que os oportunistas em seus palanques vendem, o amor verdadeiro não tem pressa. Ele é firme e sutil, exigente e paciente, e nos transforma no processo. Ele não quer aplauso ou validação, apenas se expressa, se transforma e segue – exatamente como o faço, dia após dia, com cada palavra, cada imagem, cada pedaço do BarataVerso que coloco no mundo.
No fim, sei que o amor é a única coisa que permanece. Tudo o mais passa.
09/11/2024
(Revisão Ortográfica por IA (ChatGPT)
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.

Rapaz, que texto satisfatório!! Uma declaração de amor ao que faz, mesmo que a maioria não entenda isso: para eles, se a sua arte não te dá fama e fortuna material, você é um fracasso. Tolos!!! Como diz na letra da música, “eles são muitos, mas não podem voar”!
Meu caro, para mim, produzir um texto usando a palavra “amor”, é algo simplesmente sui generis. Raramente encontrará em qualquer texto meu, seja poesia ou prosa, essa palavra. Mas aqui a usei com prazer, porque é realmente a aplicação correta na minha vida para ela. Sempre foi assim, mesmo quando eu achava que tinha outros “amores”. E, no final, essa confissão amorosa ao trabalho, mais especificamente ao MEU trabalho é uma declaração de amor ao Individualismo, ao valor do trabalho de cada um. Coletivistas jamais entenderão isso, porque apenas sugam o trabalho alheio.