O presente texto era para ser uma resenha sobre o filme “Idiocracy”, em português “Idiocracia”. Mas em determinado momento, percebi claramente que não poderia ser apenas uma análise sob o ponto de vista de cinematografia, mesmo eu não sendo um cinéfilo, um especialista e tentasse analisar apenas sob a ótica de espectador.
O filme, de Mike Judge, um dos criadores de Beavis e Butt-Head, lançado em 2006 é definido como sendo uma comédia, onde Joe Bowers (Luke Wilson), um acomodado burocrata do Exército que passa os dias assistindo TV é considerado como o QI “mais na média das médias” e por isso escolhido para uma experiência secreta onde, juntamente com uma prostituta, será congelado por um ano. O projeto é desativado e Bowers e a mulher acordam não um, mas quinhentos anos no futuro, quando os EUA tem como presidente um ex campeão de lutas e ex ator pornô, um negro de cabelos tingidos esticados com sobrenome latino e tem como ministros loiras peitudas, moleques alcoólatras e toda sorte de gente totalmente idiota. Taxado de criminoso e de “gay” por falar correto, primeiramente é condenado à prisão, onde para implantação de um CHIP de identificação é “batizado” com o nome de “Não Sei” e seu QI dado como muito acima da média. Ele foge da prisão e depois se torna Secretário do Presidente que o incumbe de resolver os problemas da nação, entre eles o de todas as plantas não mais nascerem, pois estão sendo irrigadas por um energético verde que também é usado em substituição à água em tudo, menos na privada. A população, convencida por uma corporação de que água é apenas para ser usada no vaso sanitário trabalha predominantemente na tal corporação e pede a cabeça do articulador da “absurda” idéia de irrigar plantas com água. Tudo ali é manipulado pelas corporações, mas ele consegue provar sua tese quando as plantas começam a brotar. Pouco tempo depois, ele se torna o Presidente e se casa com a sua companheira de jornada, a prostituta.
O filme é tratado em tom humorístico, com cenas que pretendem fazer rir. A presença de um narrador, tentando conduzir ao nível comédia completa a farsa. Sim, a farsa, pois “Idiocracy” não é, nem de longe uma comédia. Rir daquilo que mostra o filme, uma sociedade completamente dominada por pessoas completamente idiotas, sem o menor traço de cultura, sem sequer conseguir formular frase simples, só pode ser mesmo ser coisa de idiota. E talvez seja mesmo esta a intenção do diretor: “Se você achar graça disso, então você é mesmo um idiota!” ou “Faça cara de inteligente e assista este filme calado!” Ou ainda algo até mais contundente, mostrando que apenas idiotas riem de idiotas… “Idiocracy”, em termos de cinema não é um grande filme, chega até mesmo a ser um tanto idiota – desculpem, mas o trocadilho foi inevitável. E talvez também tenha sido esta a idéia do diretor: fazer um filme idiota sobre uma sociedade de idiotas. Fazer um filme inteligente, intelectual, tecnicamente bem feito, talvez não surtisse o mesmo efeito. E aí o diretor seria outro: Woody Allen. Confesso que o tal Mike Judge me deixou confuso, até mesmo me fazendo sentir… Um idiota.
Mas, de fato é um filme que não será muito engraçado para aqueles que têm um senso critico apurado da atual realidade, do atual momento pelo qual a humanidade passa, pois ao olharmos ao nosso redor, percebemos que podemos trazer o filme uns quatrocentos e noventa anos para trás, mudar os EUA por um certo território na América do Sul e ele deixaria de ser enquadro no gênero “comédia”, para se encaixar no de “documentário”. Claro que não é privilégio, mas é de onde e para onde eu consigo dirigir meus olhos e ouvidos. Aliás, acredito que até na tradução do titulo para o português tenham tido o cuidado em não criar nenhuma identificação com a terra de Cabral, pois a palavra “Idiocracia” não existe nos dicionários da língua portuguesa, então, a distribuidora, inteligentemente (ou idiotamente) traduziu literalmente, talvez até desconhecendo o fato da palavra não existir em português. Se traduzissem como “A Republica dos Idiotas”, fatalmente as pessoas iriam assistir pensando se tratar claramente de um filme sobre a História do Brasil, ou ainda algum filme “político” sobre o país nos últimos dez anos, transformado numa Idiocracia comandada por uma corja de idiotas sem caráter. Uma real e muito menos engraçada, mas nem por isso perigosa, Idiocracia.
Depois de massacrado por quase cem anos por golpes militares e ter passado por primeira experiência de “democracia” com um presidente enfiado goela abaixo, e depois retirado dela, pela grande mídia, a nossa Idiocracia Tropical adotou um sistema que elege “democraticamente” sucessivos idiotas, que vêm transformando a terra numa enorme e gigantesca favela. Não uma favela no conceito de exceção, do lugar em si, onde pobres se acumulam por falta de opção, mas no sentido de transformar a todos em mendigos, em pedintes, em esmoleiros, através de programas sociais burros e mal intencionados, que incentivam o crescimento da população de idiotas e maus-carateres. E ai, o cínico aproveitador se confunde com o idiota e, como no final de “Revolução dos Bichos”, ninguém mais sabe quem é um e quem é outro.
No início do filme que deu o tom deste artigo, o autor começa mostrando como teriam chegado aquele estado de coisas, ao mostrar as árvores genealógicas de dois casais. Um inteligente e com bom nível de informação e cultura. O outro, um casal de autênticos idiotas. A conclusão é simples: o primeiro casal pensa sobre todos os problemas que advem do nascimento de uma criança e assim acabam não tendo filhos, até que o marido morre. Enquanto o outro, o casal de idiotas enche o mundo de filhos. Dúzias de descendentes, dúzias de idiotas que se proliferaram, demonstrando assim como se chegou a uma população totalmente dominada por idiotas, que falam apenas por girias, consideram afeminado um sujeito que fala correto e premia um filme que mostra uma bunda o tempo inteiro com o Oscar.
E retornando às nossas terras no hemisfério sul, é muito mais vantajoso, deixar que os idiotas se proliferem, dar-lhes toda sorte de assistência social equivocada e mal intencionada, para que eles aumentem, proliferem e mantenham eternamente esse estado de coisas. Uma educação fraca e fraudulenta completa o quadro, mantendo essa situação eternamente, num circulo vicioso. Além disso, uma outra facção desse sistema torpe trata de disseminar a promiscuidade sexual, induzida pelo egoísmo e colocando nisso uma falsa idéia de liberdade sexual. Fora dos livros de poesia, a liberdade precisa ser sempre acompanhada da responsabilidade, e nesse caso representa: mais um monte de filhos não pensados, não planejados, que muitas vezes não terão o menor respaldo paterno e psicológico. Geralmente idiotas são contra qualquer tipo de prevenção, execram coisas como vasectomia e ligadura de trompas e, principalmente, idiotas não usam preservativos.
Mas o Estado incentiva tal coisa, dando a essas crianças uma assistência social fajuta, sob a forma de leite e remédios para que sobrevivam e cresçam, engrossando as fileiras do Exército dos Idiotas. E, através de um sistema de educação propositalmente incompetente, deixa que apenas um o outro se sobressaia, para assim manter viva a ilusão de que idiotas podem deixar de ser idiotas se estudarem. Mas, idiotas são deixam de ser idiotas porque estudaram, serão apenas idiotas estudados. E idiotas formados são piores que idiotas analfabetos. São muito mais perigosos.
Então, no que se tornará a maior parte dessas crianças quando crescerem? Estejam certos que elas se tornarão perfeitos idiotas. E se reproduzirão com a mesma facilidade, aumentando e aumentando em numero e espécie. E fatalmente serão sempre gratos aos que propiciaram essa situação, perpetuando o sistema. Salsichas insossas espremidas num enorme moedor de carne alimentando aos porcos. Simplesmente isso!
E antes que pedras cheguem à minha cabeça, me acusando de fascista, dizendo que estou discriminando aos pobres com essa colocação, devo dizer o seguinte: claro que os pobres, até porque são a maioria no mundo e os que mais se proliferam são os maiores responsáveis pelo crescimento da idiotização da espécie humana. E são idiotas não porque são pobres, mas porque vêm por gerações sendo idiotizados. Claro que nem todos os pobres são idiotas e contribuem para a Idiocracia… Apenas a maioria… Mas por outro lado, ser rico também não é sinônimo de inteligência. Aliás, muito pelo contrário. Ricos podem ser espertos, esse lixo que domina a cultura mundial e particularmente a brasileira, mas não necessariamente menos idiotas, até porque boa parte da idiotia básica e perene é praticada por eles. Em resumo, não é a classe social ou a cor da pele que fazem com que idiotas sejam idiotas. Os idiotas são de todas as cores e raças e classes sociais. Aliás, pertencem apenas a única classe predominante: a dos idiotas.
E os mentores da Idiocracia também tem outros métodos, como as religiões, que são a forma mais simples e eficiente de se promover a idiotização das pessoas. Usando de artimanhas sórdidas, esse braço potente completa aquilo que o Estado deixa de lado. É simples também o resumo do papel das igrejas: seja um idiota e o reino dos céus lhe pertencerá. E sob qualquer dogma, qualquer dominação, a conclusão será apenas esta. E é claro que também a elas, as religiões, interessam grandemente a proliferação de idiotas sobre a face da Terra, pois ao contrário do que pregam os escritos religiosos, não serão os justos que herdarão a Terra, mas os idiotas.
Mas, nem apenas de religião e igrejas se alimenta a Idiocracia. Dos esportes e das artes também. Não delas propriamente ditas, mas do mesmo fator covarde usado pela religião: o fanatismo. Esporte em si seria uma coisa saudável, claro. Mas quando se transforma esportes em competições acirradas que terão como premio o dinheiro e a fama, dando assim à vaidade o lugar de destaque ao transformarem esportistas como símbolos míticos, acabam com o que existe de bom neles. As fanáticas torcidas de futebol são o melhor exemplo disso. E o mesmo vale para as artes, quando criam a competição, os mitos, os ídolos. Enfim, quando os esportes e as artes são tratados como fenômenos de mídia, perdem suas essências e se transformam em apenas mais um item de manipulação, não os diferenciamos mais das religiões. Experimente falar mal de um clube de futebol que não é o mesmo do seu interlocutor, ou falar que um determinado astro da musica não é o gênio absoluto que a maioria acredita. O fanatismo cega, obstrui, embota o cérebro e, enfim, o fanatismo, seja ele de cunho religioso ou até artístico é segregador, e, portanto burro. E não existe nada mais idiota do que o fanatismo. Fanáticos em sua essência são idiotas! O pior e mais perigoso tipo de idiotas, porque além de outras coisas, fanáticos sempre andam em bandos, pois apenas assim se sentem fortes. E isso os que os torna muito mais temíveis.
Ademais, os teóricos e construtores da Idiocracia, conhecem armas muito poderosas de controle e principalmente de disseminação de suas idéias. Atualmente, disseminada mundo afora rapidamente por intermédio das chamadas redes sociais, o Marketing Social, filho do Politicamente Correto e neto do Patrulhamento Ideológico, tomou de assalto as mentes das pessoas, implantando códigos secretos de conduta que embotam e degeneram qualquer capacidade de raciocínio, qualquer resquício de inteligência. Ao pregar uma igualdade que não existe e nunca existirá; ao transformar a aberração, a promiscuidade e o desvio sexual em modalidade e normalidade, enfim, ao despertar e estabelecer conceitos éticos e morais com base apenas na vaidade e no consumo fácil, geram o que é preciso para criar uma classe de pessoas que no futuro bem próximo, comporá uma sociedade dominada por egoístas, narcisistas e hipócritas. Uma sociedade altamente doente formada por idiotas e controlada por idiotas.
Com o passar do tempo, as pessoas necessitarão mais e mais de ídolos, de mitos, de tutores, pois quanto menor é nosso grau de raciocínio, maior é a nossa dependência. E quanto menos palavras conhecemos, menor é nossa capacidade de raciocinar, como bem colocou Orwell quando falou da Novilingua. Estão simplificando as línguas, reduzindo palavras, criando vocábulos e simplificações absurdas nas formas de falar e principalmente de escrever. E o cérebro acompanha isso, atrofia, empedra e passa apenas a responder por funções vitais como comer, beber e dormir. E esse atrofiamento do cérebro decerto se tornará um fator genético, transmitido através dos cromossomos às gerações futuras, causando assim a involução da espécie. Será este o apregoado fim da espécie humana? Não por catástrofes naturais, doenças, fenômenos estelares e outros, mas simplesmente por uma atrofia no cérebro que transformará o ser humano em uma ameba gigantesca?
Mas, retornando ao inicio, quando falei sobre o filme “Idiocracia”, não concordo apenas com uma coisa que o criador do filme coloca: a idiotização geral. Aliás, uma coisa passa despercebida num primeiro momento: todos ali, das pessoas mais simples ao Presidente da República são perfeitos idiotas. Todos? Nem todos, pois na história existe a corporação que domina a quase tudo e todos através de produtos que são colocados como absolutamente essenciais, como por exemplo, o tal energético. As corporações dominam tudo. E são eles também idiotas? Mike Judge não toca nesse ponto propositalmente? Quer deixar isso nas entrelinhas, para que apenas espectadores não idiotas percebam? Ou isso é algo nem ele mesmo pensou? E então faço a mim mesmo a pergunta: Mike Judge é um idiota ou um gênio? “Idiocracia” é um dos filmes mais inteligentes do mundo, ou apenas o mais idiota deles, feito apenas para que idiotas assistam? E para que outros idiotas feito eu tentem entende-lo e mostrar a outros idiotas que não se acham idiotas…
Mas, por fim, estamos chegando a uma linha de limite da sobrevivência da espécie humana, como ser pensante e dominante do planeta. Ou acordamos agora e passamos a aceitar menos as imposições dos dominantes, e começamos a pensar com nossas próprias cabeças, agindo de acordo e com base no pensamento critico, ou estaremos todos assistindo o fim de nossa própria espécie. A consciência critica, baseada na informação e na cultura livres, é a única coisa que poderá nos salvar da extinção.
Deixo a seguir, uma adaptação minha do texto do discurso de posse do Presidente “Não Sei” dos EUA, 2.505 DC, no final do filme.
3/9/2012
“Houve uma época neste planeta, em que pessoas inteligentes eram consideradas legais. Nem todas as pessoas inteligentes eram legais, mas pessoas inteligentes fizeram coisas como navios, pirâmides e até foram ao espaço. E houve uma época nesse planeta em que ler não era coisa de gente esquisita. E muito menos escrever. E que pessoas escreviam livros e filmes e tinham histórias. E não importava de quem era a bunda e porque estava peidando. E acredito que essa época vai voltar.”
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
