Arte: Montagem: Barata

O Vício Nosso de Cada Dia – Ou: O Dia Em Que a Terra (Não) Parou

Deixei para escrever este texto no final da noite do dia 15 de Janeiro de 2021, data “estabelecida” por um grupo como sendo de protesto contra a censura das redes, e a ação nefasta das chamadas “Big Techs”, denominado “#SilenceDay”.

Está sendo escrito no final do dia, apenas como forma, já que seu conteúdo foi rascunhado mentalmente desde a meia noite e um (segundo), logo depois de eu seguir a orientação dos organizadores, e largando uma postagem no Facebook falando sobre o protesto.

Confesso que eu mesmo tenho sérias dúvidas com relação à eficácia disso, e percebi muita gente contra, achando que estaríamos justamente dando o que o “outro lado” quer. Muita discussão em postagens sobre isso no dia de ontem, algumas até um tanto furiosas já dão a quase certeza que, enquanto muita gente aguentou a ansiedade de abrir o “F” e postar, xingar, defender, acusar, e ficou quietinho (depois de tomar ansiolíticos de toda sorte) no canto, esperando dar meia noite e um (segundo), para se conectar, com os olhos cheios de lágrimas ou ódio, e saber quem foi o “traidor” que andou postando, curtindo e comentando, e dando toda sorte de explicações sobre por que não aderiu a um lado ou ao outro. Um “racha no movimento”.

Não acredito mesmo que isso tenha algum impacto, mas como frisei na minha gloriosa última postagem da noite, faço aquilo que minha consciência pede. E… Ah, ficar um dia sem Facebook, sem Instagram… Fácil. Ou nem tanto.

Uso a rede social do moleque Zuckinho, bem mais que maluquinho, mas ditadorzinho, o futuro imperador da terra devastada num Mad Max fortuito e tecnológico, para expor minhas idéias, vender meus serviços como produtor de sites e editor, além de tentar vender meus tão mal afamados e não comprados livros. Outro motivo é poder manter contato com amigos à distância. Excluí minha conta no início de 2019, e fiquei três meses, até perceber que não conseguia falar com mais ninguém, que ninguém respondia a emails, coisas assim. Uma armadilha providencial do próprio Facebook, com um link ao meu email, me fez retornar aos braços da donzela azul.

Estamos sempre deparando com críticas ao dono do Facebook, gente xingando, e até ofendendo, não sei se na ingenuidade de que o Todopoderosochefão do tráfico de almas possa estar lendo, ou se puro desabafo, mesmo.

Muitas das pessoas que se colocaram do lado do Silêncio, indicavam leituras, filmes e outros afazeres, como se estivessem receitando remédios milagrosos para a cura do câncer, davam conselhos psicológicos e outras sutilezas, como daquelas antigas mamães que fazer um rol de cuidados antes do seu menino ou menina irem à escola. “Leve a blusa”, “Leve o guarda-chuvas”… Ah, certo, tudo isso para que as pessoas aguentassem bravamente… Um dia sem Facebook.

Como trabalho na frente de um computador o dia inteiro, é fácil manter a tela da “Pílula Azul” (ou seria Vermelha?) em outra aba do navegador e volta e meia dar uma espiada, uma espetada de Agulha, nas coisas que acontecem. E isso funciona como uma espécie de catarse quase, para aguentar códigos de programação que não dão certo, artes que não ficam como o esperado… Tem gente que fuma maconha, cheira cocaína… Tem gente que bebe cachaça… E tem gente que usa Facebook.

Sou de um tempo em que publicávamos poesia em mimeógrafo, então não está no meu cerne o uso de redes sociais. Uso todas até por lidar com arte e tecnologia, mas ainda sou daqueles que não ficam num churrasco e até mesmo numa orgia sexual com o celular na mão e postando até foto de palito de dente, enquanto a carne esfria e a cerveja esquenta. Ainda prefiro a velha conversa com a boca, e no meu caso, com as mãos.

Ademais, se querem mesmo saber, passei o dia tranquilo, longe do Facebook, pensando apenas o que estaria ocorrendo. Teriam sido travadas verdadeiras batalhas pela Vachina? Teriam sido ditos muitas ofensas ao Governaditador de São Paulo? Muito xingamento ao Presidente? O que estaria acontecendo? Ó, céus, como pode isso? Abstinência de Facebook é o mal do século.

Agora imaginem se acontecesse (uma mera especulação, já que isso jamais irá acontecer) com o Facebook o que aconteceu com o Parler? Se um belo dia a gente acordasse e … Não houvesse mais Facebook. Decerto aconteceria uma revolução mundial. Passeatas nas ruas, com as pessoas dando uma banana pra Fraudemia, arrancando as máscaras e derrubando estátuas. Seria comoção internacional. Até as senhoras católicas, as putas, as crianças e todos os seiscentos e sessenta e seis gêneros inventados pelos politicamente corretos se uniriam pela causa comum: “Queremos Facebook! Queremos Facebook!” E isso seria gritado em português, mandarim, russo, árabe e até em línguas mortas e as dos anjos. O mundo pararia de fato!

Mas, enfim, é quase meia noite do glorioso dia em que… Nada demais aconteceu. A liberdade no mundo continua correndo sério risco, as leis continuam sendo tratadas ao bel prazer dos mandantes, e a fraudemia continua sendo usada para impor terror às pessoas, e com isso mergulhá-las num pântano de dor.

Nada demais aconteceu, apenas ficamos um dia longe do vício nosso de cada dia. Amém!

15/01/2021… 23h58minh.

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

COMPARTILHE O CONTEÚDO DO BARATAVERSO!
Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Mais Recente
Mais Antigo Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Conteúdo Protegido.
Plágio é Crime!

×