“Entre as lágrimas, o silêncio e o amor…!
Que os ventos da natureza me levem…
Para onde eu possa repousar tranquilamente.
Que a celestial luz da poesia,
Arranque todas as dores de minha alma!
E coloque no lugar o puro amor.”
Fabiane Braga Lima
Um vislumbre apenas, entre os efêmeros e os abstratos e nada mais para o além das imensidões astrais, que separam as muitas realidades reinantes e os mundos imateriais. O veículo, estava a toda velocidade, estava na pista azul. Luna, estava com as mãos firmes ao volante, ela preferiu assim, pois ela gostava de dirigir, em vez de ligar ao piloto automático. Se bem que, a opção de usar o piloto automático, era mais que dispensável, pois Luna, tinha o controle total do veículo. Acima e nas laterais da autopista de rolagem, dois trens de monotrilho, simultâneos passaram a toda a velocidade, um ia para o norte e outro para o sul. Luna, não deveria ouvir os trens de monotrilho gritarem, pois ambos estavam envoltos em tubos de cristal líquido. Mas Luna ouvia bem, o que seria para ela, uma eufônica melodia, breve a bem da verdade.
A condutora do veículo automatizado, voltou para a realidade, quando um veículo militar batedor, emparelhou com o veículo de Luna, ela sabia que atrás do veículo militar, que a ladeava, vinha um comboio de enormes caminhões civis e militares. Apesar do vidro blindado e escuro, Luna notou no assento dianteiro do veículo batedor, um soldado fortemente armado, ele estava empunhando, uma arma de grosso calibre, apontada para o teto do veículo. Quando o militar de baixa patente fez menção de olhar para Luna, ela ergueu a mão esquerda e apontou para frente, impedindo que o homem de armas olhasse para ela. Luna, não queria ter o rosto escaneado, pelas lentes dos óculos do militar ou pela câmera embutida no uniforme dele. Imagens, que invariavelmente iriam parar em bancos de imagens de aparatos de segurança pública e na rede mundial de computadores. E ao invés de acelerar o veículo, Luna pensou e o carro dela diminuiu a velocidade, o veículo batedor acelerou e ultrapassou o veículo de Luna. E um comboio militar, composto por pesados veículos de transporte de carga, passaram e se perderam das vistas atentas da condutora.
A tempos, a mãe e a irmã mais nova, não aprovaram as longas viagens de Luna, pois ela vivia em uma cidade, trabalhava em outra cidade e pôr fim estudava em uma terceira cidade. As muitas idas e vindas, dirigindo em um carro de passeio, em uma autopista rápida, assustava a família de Luna. Os muitos porquês, da família de Luna, sempre tinham como respostas os silêncios, breves e às vezes longos hiatos. E a pergunta sempre frequente, de ela não usar o trem monotrilho, tinha uma resposta curta e direta. Entre um simples eu não quero e eu não gosto de me misturar com as multidões. Até uns, pelo menos não dirija, use o piloto automático, ela ouviu da família e até de pessoas mais próximas e não tão próximas. Aí ela mentia, ela dizia que sim, que usaria a ferramenta para tranquilizar todos e todas. Na verdade, ela precisava e ansiava, por momentos de solidão e quietudes, pelo menos em breves momentos. Luna pensava que as movimentações que dava, eram decisões que somente cabia a ela. E por mais próxima que fosse, da família e dos bons amigos e amigas, que a circundavam, a maioria pessoas boas e com vidas simples. Em alguns assuntos, Luna decidiu se fechar em si mesma.
Foi quando o painel do veículo, assobiou uma eufônica melodia inaudível aos ouvidos de muitos. Luna, escutou as notas musicais, desacelerou, pegou a rampa à esquerda, saiu do corredor azul, ela subiu para o corredor vermelho e tomou a rampa de novo e subiu até o corredor amarelo. E ali, no quase deserto corredor amarelo, geralmente usada por locais e gente sem pressa alguma de viver. E lá na tranquilidade, Luna diminuiu mais e mais, se deslocou até o acostamento e quase parou. Luna, pensou na caixa de entrada, nas mensagens, na interface digital do painel azul marinho do veículo e ela viu a mensagem do namorado. Ela pensou em que idioma, ela queria escutar a voz de Yendel, Luna pensou, a seta se deslocou até a opção francês. Era quase meio-dia e o sol ameno, brilhava pleno a leste, em um céu azul, de poucas nuvens, o portentoso oceano atlântico, verde esmeralda completava o cenário.
Luna, viu se abrir a mensagem, que estava somente escrita, na falta de um vídeo ou áudio, a mensagem foi traduzida para o francês, Luna intuiu que algo estava errado. Yendel, sempre mandava mensagens em vídeos ou mesmo mensagens faladas para ela. Luna, traduziu sem dificuldades a mensagem, ela parou o veículo, estava no meio da pista de rolagem, tinha se deslocado do acostamento sem perceber. Luna pensou e o veículo se deslocou novamente e lentamente para a segurança do acostamento.
Luna, não soube os muitos porquês, dela pensar naquela hora extrema, no lago de Hali, nas Híades e Aldebarã, no emblema amarelo, em Hastur o rei de amarelo, na máscara pálida da verdade, em Cassilda e Camila e pôr fim em Carcosa. Mas, nas profundezas abissais, no âmago mais profundo, ela sabia o que estava por vir. Luna então leu e releu novamente, o breve bilhete de Yendel. Um bilhete em fonte manuscrito, um texto enxuto, simples e direto, que em resumo dizia que tudo estava acabado entre eles, que ele bem tentava, mas nada dava certo na relação entre eles.
Luna, aos tropeços, saiu do veículo, uma onda magnética se formou ao redor dela e a onda se expandiu, expandiu de novo e explodiu, danificando os veículos que passavam lentos e sonolentos. As muitas câmeras de vigilância, postadas em pequenas torres, ao longo da via, explodiram e incendiaram dois pequenos drones, que sobrevoaram baixo. Os dois drones, que monitoravam o corredor amarelo, os aparelhos de vigilância, caíram em chamas. E os dois pequenos aparelhos alados, de vigilância, se espatifaram no chão, caíram nos acostamentos e explodiram. Ao longo das três pistas, todos os aparelhos e instrumentos elétricos, eletrônicos e mecânicos, param de funcionar. O corpo incorpóreo de Luna, ganhou o céu, foi rumo ao Páramo, deixando para trás um avatar dela.
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.
