“Que a celestial luz da poesia,
Arranque todas as dores de minha alma
E coloque no lugar o puro amor.”
Fabiane Braga Lima
A cair de alturas impossíveis, os pés de Luna, alcançaram suavemente o chão hirto. A semi-deusa, de olhos bem fechados, relutava em abri-los, não por medo de perder a única coisa, que era só dela e que raras vezes, ela se dava o direito de provar. Se sim, era algo mais profundo, um sentimento que era um misto de receio e terror, algo havia transmutado. E ao deixar a segurança tranquila, do mundo em vigília, foi uma opção desesperada, a única opção, aliás, e ir até a terra dos sonhos, era uma declaração de guerra. Pois enquanto reles sonhadores, somente acessam a terra dos sonhos, enquanto dormiam, Luna adensava a si mesma e sonhava acordada. E deixar o exílio e voltar para casa, teria lá o seu preço, mas Luna não sabia o quanto lhe custaria.
Ao abrir os olhos, Luna percebeu que tudo estava lá, ou quase tudo, com os olhos embaçados, ela viu o deserto ebúrneo da desolação sem fim, deserto de Calibor, a terra do poderoso deus soberano, o grande raptor de almas. Mesmo sabendo que seria inevitável, Luna não desejava fazer uma visita ao soberano onisciente e onipresente, pois já tinha problemas demais com o rei de amarelo, Hastur. Foi com desespero atroz, que Luna, percebeu as alterações no deserto desolado, que apesar dos pesares, era o Páramo tranquilo de Luna. Onde ela, a filha dileta de Hastur, ansiava andar de pés descalços, pelas finas areias e mergulhar os delicados pés nos pequenos lagos azuis das desesperanças. Aqueles pequenos oceanos mágicos, onde Luna Dark se fez mergulhar, nadar e a sonhar. Aqueles minúsculos salgados oceanos mágicos, de lágrimas choradas, por desterrados e prisioneiros de Calibor, eram pobres almas imortais dilaceradas, que em intermináveis desesperos abissais, choraram por tempos atemporais.
A sonhadora, em vigília, olhou para cima e viu uma solitária ave Mori, Luna Dark, bem sabia que essas aves negras, de pernas finas, de pequenos olhos rubros rasgados, só aparecem aos bandos. E quando elas aparecem eram presságios de grandes tragédias imaginais aos olhos dos mortais. A sonhadora, em vigília, foi ao Páramo a procura de paz e tranquilidade, por mais breves que fossem, mas nuvens negras se avizinhavam no longínquo horizonte carmesim. Era uma tempestade de dores e sofrimentos infindos, não tardaria a cair sobre ela Luna Dark, a afra rainha.
A sonhadora em vigília, olhou para dentro de si e notou que estava usando uma leve alva túnica núbia, sandálias grego egípcio de ébano, amarelados braceletes e brincos núbios incrustado de diamantes, rubis e safiras, um portentoso romano colar de ouro e um diadema amarelo incrustado de diamantes na cabeça. Os misteriosos olhos castanhos rasgados, deram lugar para intensos olhos azuis cetáceo e a pele amendoada ainda estava lá.
Luna respirou fundo, avançou, levitou a poucos metros do chão e adentrou no limiar do deserto, grasnares das aves Moris, forçaram a sonhadora em vigília, a olhar para cima e se deliciar com a revoada macabra, das aves agourentas. Em uma distância impossível, Luna Dark, vislumbrou o improvável, ela viu uma astronave, a lendária belonave batedora Queen Of Sorrow. O colossal vaso de guerra, se deteriorando em pleno deserto desolado, onde não era permitido qualquer aparato tecnológico, fosse o que fosse. As aves Moris, bailavam acima da nave batedora, os animais místicos balouçavam a poucos metros acima. Luna fechou os olhos, consultou no palácio da memória e confirmou que a astronave do povo Sitoe, fora dada como perdida em tempos imemoriais. Um pouco mais adiante, um cemitério de embarcações e veículos de transportes, eram drakares, naus portuguesas, galeões espanhóis, astronaves de ataque Dukhais, naves de transportes bekamas, bigas romanas e caças de combate Mikoyan MiG-35. E infinidades de veículos de transportes militares e cosmonaves interplanetárias exploradores, abandonadas à própria sorte. Pareciam no recanto mais obscuro da terra dos sonhos, no proibido ebúrneo deserto desolado de Calibor. Elevada a poucos metros do chão, a semi-deusa Luna dark, sentiu que o pesadelo estava só começando.
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.
