“Falas de amor, e eu ouço tudo e calo.” — Augusto dos Anjos
Sou frequentemente questionado: por que não falo de amor, tanto no meu dia a dia quanto na poesia? Talvez porque, como Augusto, eu tenha entendido cedo demais que o amor da humanidade é uma fraude metafísica, uma máscara perfumada que disfarça o hálito pútrido da solidão.
O amor esse conceito que Platão elevou ao ideal e que Schopenhauer reduziu a truque da natureza para perpetuar a espécie, sempre me pareceu uma negociação malfeita entre o desejo e a culpa.
Um dia, em minha ingenuidade poética, acreditei, como escrevi em “Moloque”:
“Um dia acreditamos que poesia nos traria melhor sorte,
E que seria ela e não o amor a compensação da morte.”
(Referência à frase de Schopenhauer: “O amor é a compensação da morte.”)
E foi poesia, de fato, quem me salvou mas com o tipo de salvação que não redime, apenas posterga o desespero. Enquanto o amor, esse teatro de mentiras e carências, sempre me soou como uma comédia encenada diante do abismo.
Não, não digo “te amo”. (Quase nunca disse, e quando o fiz, o resultado foi: dor.) Não por machismo — que é apenas uma caricatura do medo, nem por vergonha que é a covardia dos que ainda esperam perdão. Mas porque simplesmente não acredito.
A palavra “amor” carrega um peso litúrgico demais para um sentimento tão ordinário. No meu dicionário, “amor” é verbo suspeito: conjuga-se no pretérito e se apaga no futuro. Como escrevi em “Iniquidade”:
“Não creiam, amantes, em amores de ordem espiritual
Porque paixão é desordem e casamento apenas ritual.”
E ainda, em “A César o Que é de César e a Augusto o Que é dos Anjos”:
“Jamais poderei ter o entendimento a respeito da contradição
Da futilidade de amores abarrotados de incoerência e traição.”
Falo de amor, portanto, apenas para desmontá-lo. Para rir do que se tornou dogma. Para expor o erotismo disfarçado de pureza, o egoísmo vestido de entrega. O amor é pornográfico não pelo corpo que desnuda, mas pela alma que simula. Como escrevi em “Perdidos no Espaço”:
“Pois amores e mentiras morrem, mas putas e poesias — elas são eternas!”
Amo, talvez, apenas no sentido mais impraticável e impuro da palavra: o ágape — e ainda assim, apenas em relação aos gatos. Eles não exigem reciprocidade, não projetam eternidades, não chamam de amor aquilo que é posse. O gato é o Buda da ternura: aceita o carinho, mas não o mendiga. E nisso reside toda a diferença entre amar e depender.
Dos outros amores, já não me restam vestígios. O eros virou sarcasmo; o philia, um eco antigo; o storge, um epitáfio — porque, como aprendi com os meus: dizia eu a meus filhos: “não amem demais”, e em suma, provaram que eu estava certo, apagando-me de suas vidas.
Hoje compreendo Augusto dos Anjos — o mais lúcido dos desesperados — quando propôs, com ironia mórbida, que a única amizade verdadeira seria:
“Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!”
Pois só o pó não mente. Só o nada não promete eternidade. E talvez seja por isso que, na minha lira, de amores fúteis poucas vezes falo. Porque o amor, esse vício sublime, não passa de um poema pornográfico onde cada verso é um gemido, e cada rima, um engano.
06/11/2025
Idealismo
Augusto dos Anjos
Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.
O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!
Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro —
E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
