Mas Não Se Mata Cavalo?
Barata Cichetto
Agora é o momento de deixar que sangue, lama e pus escorreram
É nunca ou agora o momento de deixar que sentimentos morram
Não podemos correr sem ter aonde ir, sem destino não há partida
E não existe uma porta de entrada quando não existe uma saída.
Tanta tolice escrita, musica perdida e tantos sonhos quebrados
Somos tolos por lutarmos, pois a guerra é apenas dos soldados
O momento certo de deixar tudo para trás sem olhos nas costas
Pois os cavalos não ganham a corrida, mas os donos das apostas.
A corrida acabou, o cavalo tropeçou, quebrou a pata o pobre infeliz
E o que lhe resta é um tiro de misericórdia e uma morte doce e feliz
Não se mata cavalos – ainda perguntam – é preciso aliviar a sua dor
E quem aperta o gatilho é a mesma mão firme do próprio tratador.
Cavalos não descem escadas, não rimam, nem sabem voar sem asas
Alados cavalos, Pegasus calados, que voam de volta para suas casas
Até cavalos tem destinos, e nós não sabemos onde queremos chegar
E até cavalos, alados ou não, enxergam o que não podem enxergar.
28/01/2013
Prompt: Baseado no poema a segui escreva um conto dramático e erótico. Como a inspiração dele foi o livro de Horace McCoy”, A Noite dos Desesperados”, coloque no conto elementos referentes nele, e até no filme subsequente. Use de 1.000 a 1.500 palavras. Acrescente elementos filosóficos do poema.
Mas Não Se Matam Cavalos?
A música repetia-se como um mantra cruel, uma cadência mecânica que negava qualquer vestígio de humanidade. O ginásio estava abafado, o cheiro de suor e desespero impregnando cada canto. Era uma maratona de dança, mas ninguém ali estava dançando de verdade. Eram corpos em movimento, engrenagens de uma máquina que triturava sonhos, uma dança macabra em busca de um prêmio que parecia mais distante a cada hora.
Rose sentia o tecido úmido do vestido grudado à pele. Sua maquiagem, um campo de batalha borrado, escorria por sua face enquanto seus pés latejavam dentro dos sapatos de salto que já haviam deixado de ser elegantes para se tornarem instrumentos de tortura. Ao seu lado, Johnny, seu parceiro, estava na mesma condição, o rosto afundado em sombras de exaustão, os olhos fixos em algum ponto além da pista.
“Você quer desistir?” ele perguntou, a voz um sussurro áspero.
Rose balançou a cabeça. “Desistir pra quê? Lá fora, não há nada. Pelo menos aqui… temos uma chance.”
A chance era um prêmio em dinheiro. Não muito, mas o suficiente para apagar dívidas ou comprar um começo. Ou talvez fosse só uma desculpa para evitar a realidade fora das paredes daquele inferno iluminado por holofotes. A questão não era ganhar; era sobreviver.
No canto do ginásio, Rocky, o mestre de cerimônias, observava tudo com uma satisfação quase lasciva. Seu microfone era uma extensão de sua crueldade, amplificando piadas sádicas e comentários humilhantes para manter a audiência entretida. Eles pagavam para assistir o sofrimento alheio, para apostar em quem cairia primeiro. A cada tropeço, um murmúrio de antecipação percorria as arquibancadas.
“Vamos lá, Rose!” Rocky provocou, apontando o feixe de luz sobre ela. “Não me diga que você é tão frágil quanto parece.”
Ela sorriu, um sorriso de pura ironia, e continuou movendo os pés como uma marionete bem treinada.
Na terceira noite, Rose começou a ouvir os sussurros. Não dos outros participantes, mas de dentro de si. Uma voz que questionava o porquê de continuar, que repetia que ninguém nunca ganhava de verdade. Era a mesma voz que, em outra vida, a teria impedido de entrar naquela maratona, mas ela havia aprendido a ignorá-la.
Foi quando conheceu Ethan.
Ele era um dos ajudantes do evento, encarregado de cuidar dos participantes caídos. Sua presença era uma distração inesperada, uma fagulha de algo proibido. Ele a ajudou a amarrar os sapatos quando seus dedos não conseguiam mais, sua mão roçando de leve contra a dela, como um segredo partilhado. Quando ele falava, sua voz parecia dissolver o ruído incessante da música.
“Você não precisa disso”, ele disse uma noite, enquanto ela se apoiava contra a parede nos minutos de intervalo. “Há outras maneiras.”
Ela riu, amarga. “Outras maneiras? Como o quê? Roubar? Vender o pouco que resta de mim?”
Ethan a olhou, uma intensidade silenciosa queimando em seus olhos. “Você já está se vendendo aqui. A diferença é que isso é disfarçado de espetáculo.”
Rose sentiu algo se remexer dentro dela, um calor que não era de exaustão. Naquele momento, a pista de dança parecia mais cruel do que nunca, um palco para a lenta desintegração de quem ela havia sido.
Na quinta noite, a linha entre resistência e desejo começou a se desfazer. Ethan encontrou Rose nos bastidores, onde as sombras ofereciam um breve refúgio. Ele segurou seu rosto entre as mãos, os polegares limpando os rastros de maquiagem borrada.
“Você é mais forte do que isso”, ele murmurou, e a beijou.
O beijo foi um alívio, uma explosão de vida em um lugar que se alimentava de morte lenta. Rose sentiu o peso do mundo dissolver-se por um instante, o gosto de Ethan misturando-se ao sal de suas lágrimas. O corpo dela, tenso pela dança interminável, relaxou sob o toque dele, e pela primeira vez em dias, ela sentiu algo próximo de liberdade.
Mas a liberdade era uma ilusão.
De volta à pista, Rose viu Gloria cair. A mulher, com quem havia trocado algumas palavras de conforto ao longo das noites, simplesmente desabou, o corpo finalmente cedendo à exaustão. Os espectadores aplaudiram. Um espetáculo dentro do espetáculo. Gloria foi arrastada para fora, e ninguém perguntou se ela estava bem.
Rose olhou para Johnny, que parecia mais um cadáver do que um parceiro. “Você ainda acha que podemos ganhar?” ela perguntou.
Ele riu, uma risada seca. “Ganhar o quê? Isso é só uma desculpa pra nos manter dançando até morrer.”
Na última noite, tudo desabou.
Rose e Johnny estavam entre os últimos pares restantes, mas a vitória parecia tão vazia quanto o ginásio depois que as luzes se apagavam. O prêmio era um fantasma; o verdadeiro objetivo era ver quem suportava mais.
Rocky se aproximou de Rose enquanto ela tropeçava na pista, o sorriso de lobo ainda em seu rosto. “Você sabe que não vai durar muito mais. Por que não facilita pra gente?”
“Facilitar?” Rose repetiu, sua voz carregada de veneno. “Isso é tudo o que vocês querem, não é? Nos ver quebrar.”
Ele deu de ombros. “Você entrou nisso por escolha própria. Ninguém te obrigou.”
E então ela entendeu. Ninguém a obrigara, mas todos estavam prontos para explorá-la até o fim.
Quando o tiro ecoou no ginásio, a música parou. A plateia ofegou, chocada e animada ao mesmo tempo. Johnny havia caído, mas foi Rose quem segurou o revólver.
“Não se mata cavalos”, ela disse, para ninguém em particular, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto. “Mas o que fazemos com aqueles que não conseguem mais correr?”
Rocky ficou em silêncio, pela primeira vez sem palavras, enquanto os seguranças a arrastavam para fora. A plateia aplaudia, uma ovação que soava mais como um epitáfio do que um louvor.
Ethan a encontrou horas depois, em um pequeno quarto dos fundos. Seus olhos estavam injetados, mas sua voz era firme. “Rose, nós podemos sair daqui. Juntos.”
Ela olhou para ele, seu corpo exausto, sua mente um campo de ruínas. Mas dentro dela, uma faísca ainda queimava.
“Sim”, ela respondeu, sem saber se acreditava ou não.
E pela primeira vez em dias, ela se levantou, não para dançar, mas para caminhar para fora.
01/12/2024


Versos Reescritos Pela Máquina (ou Merda d’Artista)
Barata Cichetto e ChatGPT
Prefácio: Santo Xavier
Gênero: Poesia / Conto
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 192
Tamanho: 16 × 23 × 1,20 cm
Peso: 0,400
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
