Vômito de Metáforas | Sofrimento: Palavra Maldita

“Fale de sofrimento”, pediu ela. E eu disse: odeio sofrimento. Odeio essa palavra. Sofrimento é palavra maldita. Auto piedade. Auto comiseração. Coitadismo. Vitimismo. A culpada é minha mãe. Que na minha infância vivia repetindo que sofria mais que o personagem de uma novela. Justo ela. A manipuladora mor. Falar que sofre, que sofreu é uma forma de manipulação. “Eu sofri tanto, então mereço mais.” Qualquer um que fala em sofrimento é um manipulador. Feito minha mãe. e todo manipulador é um ditador. Feito meu pai. Sofrer não é morrer. Sofrer não é humilhação. Sofrer é cretino. Torpe. Maldoso. Malvado. Safado. Aquele que diz que sofreu demais de fato nunca passou por verdadeiros problemas, dificuldades. Personagem de uma novela sem televisão. O ser se imagina num palco, na frente de uma câmera. Um autêntico mau ator. Ou atriz. Feito minha mãe. Feito meu pai. Todos hipócritas, fingidos, cínicos no sentido pejorativo mesmo. Sofrimento não é dor, nem liquidificador, nem moedor. É de perdedor que não soube jogar. É de incompetente que não soube trabalhar. De repetente que não soube estudar. De quem não soube trepar, chupar, gozar. Sofrimento não é ter pena de si mesmo, é não ter pena dos outros. Sofrimento não é de momento, é da perenidade do dominador, da culpa do malfeitor e da desculpa do estuprador. Sofrimento, a palavra maldita. Sempre dita. Em tom de pesar. De azar. De quem promete casar. Antes de trepar. Sofrimento, sofrimento, sofrimento.. Ah, como eu sofro até para escrever a palavra. Mas tenho mesmo que sofrer para poder escrever. Se escrevo sofro. Se não escrevo sofro também. Então, está bem. Digo amém. E sofro também. Sofrer é morrer. Disse alguém. Que não lembro quem. Algum protagonista de novela. Minha mãe. Meu filho. Ou foi Cristo? Todos eles sofrem. E eu também. Eu também não. Que não sou personagem de novela. Nem pintor de tela. Igual aquela. Que pinta quadros com pincel enfiado na buceta. E que só tem uma teta. Tanta gente sofre no mundo. Assim diz o comunista, parente do artista, sobrinho do dentista, e pai de uma feminista. Que caga na rua e não raspa os pelos do sovaco, nem da buceta. Tanta gente sofre no mundo. Assim disse a mãe da puta, que é filha da mãe. E da puta. Que fode na esquina. No viaduto e na piscina. Tanta gente sofre neste mundo. Assim falou Zara, que é filho do alemão, neto do judeu e tio do príncipe das Astúrias. Todos sofrem no mundo. Assim disse eu. Filho de A e de B, pai de C e de D, neto de E e F, que já casou com R, C duas Is. Que não tem vergonha de ter sofrido, sido, ido, fodido. Mas nunca arrependido. Um anjo caído. Prostituído. Despedido. Por nunca ter lido o que era permitido. Por não se prostrar em posição de sentido. “Direita, volver!” Direita? Vou ver. Vou ver depois. Porque agora preciso sofrer. Correr e morrer. Quem corre também morre. Então, de que adianta correr?. Vou ali no canto sofrer. Feito um personagem de novela. Aquela que minha mãe assistia. E dizia que sofria mais. E feito eu. Que sofro mais por ter que falar em sofrimento. A palavra maldita!

29/03/2024, “Sexta-feira Santa”

Do Livro:
Vômito de Metáforas
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição:
Editora: BarataVerso
Páginas: 248
Tamanho: 20 × 20 × 1,50 cm
Peso: 0,500

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

COMPARTILHE O CONTEÚDO DO BARATAVERSO!
Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Mais Recente
Mais Antigo Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Conteúdo Protegido.
Plágio é Crime!

×