Enquanto a atenção do público consumidor de música está fixa no Lollapalooza 2015, no qual 90% das atrações não possuem a menor relevância, seja lá qual for o sentido dela, um fato histórico da maior importância completa 50 anos em agosto próximo vindouro: a Revolta de Watts, um subúrbio de Los Angeles cuja população, majoritariamente negra, pobre, desempregada, pouco escolarizada e com mínimas chances de acesso ao American Dream, saiu às ruas para, literalmente, botar pra quebrar, queimar, saquear.
Os moradores de Watts, a exemplo dos milhares de guetos existentes, sobretudo nas grandes cidades norte-americanas, estavam excluídos do tal Sonho Americano. As leis segregacionistas ainda tinham muita força quando, uma ação da já famosamente truculenta polícia de LA contra um motorista negro preso por supostamente estar dirigindo bêbado — foi o estopim para um latente estado de guerra, o qual só estava esperando o momento apropriado para eclodir. A América ferveu nos sixties. Os dez dias de distúrbios naquele agosto de 1965 em Watts produziram mais de trinta mortos, milhares de feridos e de prisões, além de um grande prejuízo financeiro. O recado estava dado: mudanças eram para ontem.
O recado também foi espertamente entendido pelo staff da Stax Records, a lendária gravadora baseada em Memphis, fundada em 1957 pelos irmãos Jim Stewart e Stelle Axton com o nome Satellite Records, depois mudado para Stax em 1961 (ST, de Stewart + AX, de Axton – sacaram a sacada?) O empreendimento entrou para a História como uma das mais respeitáveis disseminadoras da black music, ao lado da respeitável rival Motown, de Detroit. Aquele foi um tempo de luta e de música. Música que tinha muito a dizer. E muitos a ouviram.
Ao contrário dos excluídos do American Dream, Jim e Stelle – brancos — eram beneficiários dele. Todavia, os irmãos possuíam uma ampla visão do poder e do alcance da black music. A Stax Records cresceu de forma gradual até virar sinônimo de música de qualidade. A soul music, o blues, o funk, o R&B, o gospel e outros gêneros moravam na casa certa.
Em 1972 , ano do sétimo aniversário dos acontecimentos de 1965, um grande festival foi pensado e posto em prática, em homenagem àquele fato histórico, um dos marcos da luta pelos direitos civis nos EUA. Em 20 de agosto, o gigantesco Los Angeles Memorial Coliseum serviu de cenário para o Wattsstax (desnecessário explicar o nome, né?) onde o cast da Stax compareceu com o que melhor podiam fazer, cada um dando sua contribuição em forma de música e de atitude. Nem Woodstock fez melhor.
O Woodstock Negro foi assistido por mais de cem m i l p e s s o a s , a 1 d ó l a r o i n g r e s s o . E m aproximadamente sete horas pesos-pesados da gravadora, como The Bar-Keys, Staple Singers, The Emotions, Albert King, Rufus Thomas, Luther Ingram, Johnnie Taylor, entre outros, fizerem de Wattstax exceder o sentido de um festival de música em algo irrepetível e incopiável. O melhor de tudo foi que o cinema eternizou a festa em um dos mais fantásticos documentários do gênero já produzidos, justo em Los Angeles, capital do cinema. Hollywood, para simplificar.
Cinema não é só dinheiro, também é uma questão de sorte. Mel Stuart o famoso diretor de A Fantástica Fábrica de Chocolate foi o escolhido para juntar, em aproximadamente 90 minutos, não apenas o festival propriamente dito, mas a vida dos personagens anônimos de Watts.
O Documentário impressiona, como se não bastasse os shows, na forma de abordagem de temas complexos, como a sexualidade, a política, a religião, as relações pessoais, amor, a família, o racismo e, claro, a influência dos distúrbios de sete anos antes nas vidas daquela gente simples, ainda esperançosa de tempos melhores. Evidentemente, as contradições eclodem aqui e ali, deixando claro que todos, independentemente de cor, credo, posições ideológicas, são passíveis de fraquezas essencialmente humanas.
Mel Stuart foi bastante hábil nas abordagens. Os entrevistados estavam completamente à vontade em suas visões de mundo. Percebe-se claramente que Mel (branco) conquistou a confiança dos entrevistados, interferindo minimamente nos temas, limitando-se a apenas propô-los e a conduzir as entrevistas de maneira a tirar o melhor proveito delas. O resultado é a riqueza de detalhes, nos dando a impressão de que quem realmente produziu o documentário foram os entrevistados.
Embora o tema envolvendo conflitos raciais sugira declarações carregadas de ódio, sentimentos revanchistas e vigarices ideológicas tão comuns desde sempre, a princípio, o documentário aponta para outro caminho. O diretor fez a coisa certa ao não inserir sociólogos e outros especialistas, que tornariam Wattstax algo modorrento e extremamente cabeça. Penso que o comando da situação ficou a cargo dos principais interessados. Fica evidente que a espontaneidade é a regra.
Visto sob os olhares atuais, dificilmente Wattstax teria a espontaneidade que lhe é característica. As patrulhas politicamente corretas — verdadeiras pragas nos tempos atuais – dificilmente aceitariam as colocações feitas pelos entrevistados, ou seja, negros falando sobre negros e brancos. As contradições são embaladas em humor, entre as entrevistas e os shows, apimentadas pelo comediante Richard Pryor, no melhor estilo stand up comedy. Pryor usa e abusa de expressões e situações que, se ditas por um comediante branco, causariam comoção. De todo modo, a comédia também faz pensar.
O documentário foi levado às telas em 1973, ganhando o Globo de Ouro como melhor documentário em 1974. Em 2003 foi lançado, inclusive no Brasil, o DVD comemorativo do 30º. aniversário, restaurado e com cenas adicionais. Embora seja possível assisti-lo no You Tube, o impacto do DVD é muito melhor, já que Wattstax merece ser visto tantas vezes sejam necessárias, em alto e bom som.
Texto publicado na 5ª edição da revista “Gatos & Alfaces“, Março 2015
Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.
