“Eu fui visitado pelo poder e pela glória
Fui visitado pelo hino majestoso
Grandes relâmpagos iluminaram os céus
Eletricidade flutua sobre minhas veias.”
Power And Glory – Lou Reed
Desde que Raul Seixas deixou de compor coisas inteligentes e sucumbiu á pancreatite, depois que a Legião Urbana (embora nunca tenha sido uma real banda de Rock, porque uma banda de Rock não o é apenas porque usa Guitarra, Baixo e Bateria, pois esses instrumentos qualquer conjunto Breganojo-Pseudo-Caipira usa!) também sucumbiu perante a AIDS de Renato Russo, que o Rock brasileiro não compõe uma única letra interessante. Bandas pensam em tudo: capa, divulgação pela Internet, arte bonitinha, qualidade de gravação, produção… Tudo. Ou quase. Porque as letras sempre são deixadas de canto… E um canto bem escuro e obscuro. Historicamente o “Rock” e a “Boa Letra”, quando falamos em Rock Brasileiro, sempre foi uma relação digamos infiel. Existiram alguns poucos bons exemplos, como a fase em que os “Titãs” lançaram “Cabeça Dinossauro” e “Jesus Não Tem Dentes…” mas ai Arnaldo Antunes decidiu ser “MPB”… Mas isso é outra história.
Ainda nos Sessenta, a maioria das letras de Rock Brasileiro eram apenas traduções de músicas do Rock Estrangeiro particularmente Inglês. Nos 70, com o “boom” do “Progressivo” as letras passaram a ser uma piada. Piadas engraçadinhas como no caso dos Mutantes, ou nem um pouco, puro non-sense e piadas de mau gosto pela falta de cultura e imaginação: “Verteu-se o verde em vertente” cantou Guilheme Arantes em sua banda, o Moto Perpétuo, por exemplo. Mesmo as grandes bandas da época, como a Patrulha do Espaço e o Made In Brazil, nunca conseguiram compor uma letra interessante. Poucos e isolados exemplos, poucas e isoladas tentativas de se dar um recado por intermédio de uma letra de forma bem construída e poética, nessa época. Uma ou outra letra do Som Nosso ou do Casa das Máquinas, o resto era totalmente sem sentido, fracas, sem rimas ou com rimas forçadas, construção poética sem pé nem cabeça (principalmente sem cabeça). Secos e Molhados, embora não fosse também uma banda de Rock no sentido tradicional por não usar a base Guitarra-Baixo-Bateria (porque uma banda de Rock não o é apenas porque usa Guitarra, Baixo e Bateria, pois esses instrumentos qualquer…), era uma banda de Rock na essência e no que trouxe ao movimento de Rock no Brasil e se constituiu na única exceção importante, com autênticas poesias musicais de autoria de João Ricardo usando ainda o componente teatral que também praticamente nunca foi usado no Brasil.
Rock e Letras, um Casamento Impossível? Lou Reed disse que as letras de Rock deveriam ser em um língua que ninguém entendesse. Mas é uma frase que por si só não se sustenta, principalmente no caso dele próprio, dono de uma voz ruim, músico medíocre, mas que se mantém como um dos maiores Roqueiros do mundo por suas atitudes e letras. Temos na Europa e na Terra de Sam ótimos exemplos de bandas com boas letras casada com boa música: Jethro Tull, Iron Maiden, Dio, Sisters Of Mercy e mais recentemente System Of a Down, são exemplos de que quando existem competência e conhecimento, as letras podem manter um casamento fiel e produtivo entre o “Rock” e a “Boa Letra”.
Alguém ai já leu a letra de “Thick as a Brick” do Jethro? “Alexander The Great” do Iron? … “Last In Line” do Dio??? Alguém ai sabia que o King Crimson, que tinha a frente um dos mais completos guitarristas que o mundo conheceu, Robert Fripp, tinha um elemento cuja atribuição era “Letrista”? Que a banda “Dead Can’t Dance” musicou o poema “Spleen e Ideal” de Charles Baudelaire?
Um dos maiores exemplos de casamento perfeito, cujos frutos extrapolam o ambiente doméstico, entenda-se aí, como frutos que penetram em cabeças criativas e daí podem procriar e render uma geração inteira de filhos pródigos: “Realmente não me importo se você agüentará até o fim. / Minhas palavras, um sussurro , sua surdez, um grito. / Eu posso fazê-lo sentir mas não consigo fazê-lo pensar. / Seu esperma na sarjeta , seu amor no esgoto. / A assim vocês cavalgam pelos campos e / vocês fazem todos seus negócios bestiais e / seus sábios não sabem como é se sentir cabeça dura.” – “Thick as a Brick” – Jethro Tull . Este é apenas o trecho de uma letra quilométrica que conta uma saga. Como em The School Of Rock”, que tal a “molecada” do Rock Brasileiro começar a ter aulas de Rock, escutando diariamente uma banda dessas?
Retornando ao nosso Roquezinho doméstico e que ainda tem muito que caminhar em termos de cultura, não só musical, mas principalmente em termos de cultura geral mesmo, a maioria das letras são totalmente idiotas. Sexistas-machistas, a maioria delas nunca consegue ir além do trinômio “Mulher”, “Bebida”, “Balada”. Como se existência humana girasse apenas em torno dessas coisas. Legal, também gosto dessas três coisas, mas não consigo conceber alguém que viva 24 horas por dia transando, enchendo a cara e se divertindo. Não existe, né?! A realidade é que os músicos do Rock Brasileiro são extremamente preguiçosos no que tange a cultura. Na maioria das vezes livro serve apenas para escorar o pé da bateria, botar copo em cima ou mesmo para ser rasgado, enrolado e virar baseado.
Um outro fator a ser questionado é o de bandas que fazem apenas letras em inglês. Nada contra a língua, o que eu questiono são os objetivos. Na maioria da vezes as letras não são uma opção estética ou cultural, mas mercadológicas. Ou seja: compõe em inglês apenas para conseguir penetração nos mercados internacionais., mas também esta é uma discussão que entraremos em outra oportunidade.
Música e letra são um casal perfeito. O conceito seria o de canção (“Composição escrita para musicar um poema ou trecho literário em prosa, destinado ao canto”) porque o temos sempre são canções. E numa canção, se a música é o corpo a letra é alma. Ou vice-versa, mas que não subsistem divorciadas. O problema é que a maioria dos músicos de Rock Brasileiros igual a grande maioria da população é totalmente inculta e preguiçosa. No caso dos músicos não é falta de acesso á cultura, é preguiça mesmo. Dá trabalho! Pensar dói. Ou será que músico de Rock Brasileiro não conseguem andar e mascar chiclete ao mesmo tempo?
A maioria quer apenas o “Glamour” do Rock, do palco. Pensam apenas em “descolar um troco” tocando em um boteco cheio de bêbados e depois “traçar” uma “bucetinha” depois do “show”. Como não existe compromisso com mais nada, além disso, nenhum outro tema irá aparecer em uma letra. Qualquer verso com mais de 10 ou 12 sílabas, qualquer coisa mais longa que não se enquadre no ‘4 por 4’ é descartada. Lembrem bem das letras que escutou em bandas de Rock brasileiro (se é que você também prestou atenção na letra) e diga se estou errado. Em quase 100 por cento delas irá aparecer mais de uma vez palavras como “rolar”, “transar”, “gata”, “cerveja”, “balada”, “divertir”, “beber” e, é claro a própria palavra “Rock”. Além das menos usadas, mas que torram a paciência de tanto que repetem: “Guitarra”, “Carro”, “Moto”, “Blusão-de-Couro” etc. É duro encarar a falta de criatividade, vocabulário e cultura.
É claro que existem exceções e elas têm que ser destacadas: alguém ai conhece a banda Norman Bates de Belém, que há uns quatro anos musicou “A Esperança” de Augusto dos Anjos? Alguém ai escutou a banda potiguar “Seu Zé” cuja letra de “Retrato de Um Traidor Quando Jovem” é uma poesia absoluta? Difícil, né?! Escutem um pouco mais de Jethro Tull, Iron Maiden, Sisters, System, Dio e muitos outros exemplos. Mas não prestem apenas atenção ao acorde da guitarra, á marcação do baixo e ao solo de batera. Aprendam inglês e prestem atenção também nas letras. Se não quiserem aprender inglês, leiam um pouco de poesia ou mesmo escutem um pouco da chamada MPB que também tem letras muito interessantes.
Agora perguntem a alguém por que na periferia a galera não curte Rock, mas sim o Rap. Porque as letras de Rap falam de problemas sócio-econômicos de sua comunidade, buscam seu lugar dentro do contexto de uma sociedade que os exclui. Protestam contra a mídia que não consegue lhes espremer e não a aceitam. E quanto ao Rock Brasileiro? Ah, o Rock brasileiro tem lutas bem maiores e mais importantes: tem que transar, beber, rolar…
9/8/2006
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
