Criaturas

Trilha Sonora Incidental:
“Black Sabbath”
“What is this that stands before me?
Figure in black that points at me.
Turn around quick and start to run.
Find out I’m the chosen one.”


Que criatura é aquela, ali parada em minha frente? Trajada de uma espécie de terno marrom-avermelhado, olhando fixamente em algum ponto desconhecido trazendo à minha mente medos e lembranças que eu francamente não quero ter, neste momento.

Uma criatura de idade indefinida, monstruosas pernas e um cheiro medonho. Sim, o cheiro! Medonho quanto aqueles pesadelos que tenho nas poucas noites em que consigo dormir.

Aquela criatura, ali parada, fedendo e olhando a algum ponto do infinito que apenas a antiguidade de seu ser consegue compreender. E eu, eu ali olhando aquela criatura, tão fedorenta quanto escura. Escura quanto a noite sem sonhos, escura quanto um pesadelo que tenho em noites escuras e fedorentas.

– Oh, criatura monstruosa – grito em meu pensamento – por que não parte em direção ao infinito que miras, deixando sossegada minha alma, sobrecarregada de outros infinitos medos? Por que não desaparece, carregando consigo seu medonho fedor? Porque não vai, como se vão todos aqueles que amo? Sim, criatura nojenta – torno a gritar dentro do meu pensamento – por que não some do jeito que somem todos os meus sonhos? Por que permanece aí parada, cutucando minha alma igual a um pesadelo?

No entanto, por mais que eu grite mudamente, ela permanece ali, inerte, fitando o infinito com aqueles olhos escondidos , com aquela cabeça que carrega um cérebro que algum pensamento medonho e fedorendo naquele instante acomete.

“Big black shape with eyes of fire,
Telling people their desire,
Satan’s sitting there, he’s smiling,
Watches those flames get higher and higer.”

– Oh, Senhor, ajude! é meu clamor. – Sem saber ao certo a qual senhor ele é dedicado. – Oh, Senhor, ajude! Carregue aquele nojento ser, fatalmente sua criação arrependida, a outros campos!

Tento, entretanto, em mórbida curiosidade, enxergar aquele rosto que é portado por um corpo deformado e rústico, mas meus olhos, não encontram outros olhos, certamente porque foram eles arrancados, – penso eu tentando explicar meu medo.

– “Oh, No No No! Please God, Help Me”

Aquela criatura, aquele ser, permanece ali parado, sem falar coisa alguma, sem emitir um som sequer.O único som presente naquele momento é o do desespero dos batimentos do meu coração que bombeia furiosamente o sangue ao cérebro, que encharcado e bêbado, sente um pânico ainda maior. O sentimento de fugir, escapar daquela coisa é único. Então porque permaneço ali , grudado naquela cadeira fitando um ser que causa tanto desconforto em minha alma? Por que?

Tento argumentar com aquela criatura, mas sem conceber ao certo que estranha língua teria eu que falar. A língua dos anjos, do espírito santo ou dos demônios. Imagino que pensamento torpes , medonhos e fedorentos pululam por aquela mente e tento ao menos, formular algum som que lhe seja familiar. Silêncio entretanto. Um silêncio de morte. Um silêncio tão absoluto que escuto o ranger dos meus ossos dentro das minhas carnes, o borbulhar do meu sangue nas artérias quase entupidas, o grito desesperado e insano do medo dentro do meu cérebro.

Ergo então meu corpo empapado de frio e mortal suor, daquela cadeira onde por horas inteiras marcadas por um matraqueado surdo do relógio ficou prostrado; caminho em direção daquela monstruosidade a passos decididos. É mister que eu a enfrente, que mire seus olhos escondidos, que sinta seu calor. Que a mate! Sim, preciso matar aquele ser monstruoso que insiste em colocar medo absoluto em meu coração, que insiste em trazer a minha mente lembranças mórbidas sobre a inconsistência e pequenez do meu ser; que insiste em plantar e minha alma uma dor aguda e penetrante quanto aqueles pesadelos noturnos que acometem nas poucas noites em que consigo dormir.

“Is this the end my friend?
Satan’s come around the bend.
People running ’cause they’re scared.
People better go and beware.”

Caminho em sua direção e desfiro um único tapa, esmagando aquele ser monstruoso e nojento contra a parede. Uma gosma branca escorre e aquela monstruosa e fétida criatura agora é apenas uma monstruosa e fétida … Barata morta!

4/10/2001

Do Livro:
O Homem Que Fotografava Sonhos e Outros Contos

Barata Cichetto
Gênero: Contos
Ano: 2024
Edição: 
Editora: BarataVerso
Páginas: 416
Tamanho: 16 × 23 × 1,80 cm
Peso: 0,800

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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