Prostitutas não são personagens raras no mundo da música, seja lá qual for o gênero e a época. Elas sempre aparecem, ora discretas, ora explicitamente vulgares; ora donas da situação, ora meros objetos de prazer em troca de algum dinheiro pelo corpo alugado. Algumas até que se dão bem, mas muitas outras pagam o preço – da solidão à morte. Incomum é elas darem título a um disco. E não é um disco qualquer.
O álbum das Garotas Malvadas (Bad Girls) foi lançado em 25.04.1979, coincidentemente na data em que completei 15 anos. Mal sabia eu que esse seria o primeiro disco que eu compraria com o dinheiro do meu primeiro salário de office-boy, em um escritório que se situava bem pertinho da – ora vejam! – zona, em meados de fevereiro de 1980. Custou caro o bolachão, tanto que foi assunto lá em casa por vários dias. O álbum era duplo e estava no topo das paradas de sucesso no mundo inteiro, tendo a faixa Bad Girls em destaque, ao lado de Dim All the Lights, Lucky, On My Honor, Sunset People, Our Love, Walk Away (a minha favorita), enfim, quase os dois discos inteiros. Bad Girls foi uma conquista e tanto para o garoto pobre em seu primeiro emprego, algo comparável a uma ou duas horas de prazeres proibidos com a prostituta mais bonita do bordel, e, se possível, que ela fosse parecida com a moça metida em um provocativo vestido preto, como a da capa do disco.
A moça na capa do álbum é uma mulher por volta dos 30 anos, negra, de voz poderosa e sedutora, dona de um par de pernas espetaculares. É onipresente nas discotecas, nas rádios AM e FM, nas revistas, no cinema, nas festinhas e nas festanças, na televisão, nas praias, no espaço sideral e, nos pensamentos e secretos desejos lascivos de homens de qualquer idade. A moça atende pelo nome de Donna Summer, e ostenta o título de Rainha das Discotecas.
Donna Summer foi apresentada a mim cerca de quatro antes, pelas ondas da então única rádio FM estéreo de Manaus, através do megahit Love To Love You Baby, de 1975, que ocupa todo o lado A do álbum do mesmo nome. A rádio tocava a música inteira(!), algo totalmente impensável nos dias hoje. Ingênuo, eu não fazia a menor ideia do significado daqueles gemidos presentes ao longo da música, algo que levou muito tempo para eu descobrir. Mas, foi nesse ponto que se instalou em meu subconsciente o meu fraco por cantoras. Ao longo dos anos outras divas mais expressivas foram surgindo na minha vida audiófila. Contudo, a Rainha nunca foi deposta, contradizendo – excepcionalmente apenas neste caso, diga-se – a minha oposição a títulos nobiliárquicos concedidos a artistas – Rei do Rock, Rainha do Punk, Rei da Guitarra, Rei da Voz, Rei da Juventude, Rainha do Rock, Rei do Pop, etc.
Afinal de contas, o que há de tão especial no disco das Garotas Malvadas que o torna merecedor deste texto?
A princípio, trata-se de um disco de dance music, banal e até mesmo descartável, como tantos outros do fenômeno denominado Febre das Discotecas. No entanto, há nele coisas também presentes no blues, no soul, no pop, no R&B, no rock e em outros gêneros: dores de amores, desejo, frustrações, sexo, diversão, tristeza e hedonismo. A diferença está na forma como essas historietas musicais são contadas e cantadas. Bad Girls é perceptivelmente cafona e piegas em certos aspectos, todavia, esses detalhes são insuficientes para depreciá-lo, tal a alta qualidade da produção (muitos álbuns de rock também são cafonas, mesmo aqueles considerados clássicos, mas há quem não admita essa pecha). Donna Summer junta todos esses pontos em algo simples e, ao mesmo tempo, sofisticado. É óbvio que a Rainha não faz isso sozinha. Existem dois produtores movimentando a máquina: Pete Bellote e Giorgio Moroder (este, dispensa apresentações), considerados os “construtores” da diva. O mais é desnecessário dizer.
Embora não seja um álbum conceitual, todas as faixas conversam entre si. Há quem não acredite, mas há algo de rock em Bad Girls. E há também soul, R&B e música eletrônica, tudo na mais perfeita harmonia. Bellote e Moroder dispensam os intervalos entre as faixas, de maneira a manter o ouvinte em estado permanente interesse, mesmo que ele tenha que fazer quatro mudanças de lado.
Bad Girls vendeu milhões de cópias, seja na forma de álbuns, fitas cassete ou singles, que eram as modalidades de mídias disponíveis na época. Em consequência, o álbum conquistou os mais cobiçados prêmios da indústria da música e, logicamente, a aclamação e o desprezo da crítica especializada.
Passados 40 anos, o primeiro álbum comprado com o meu dinheiro ainda está comigo. Sobreviveu à substituição da minha coleção de LPs por CDs. Bad Girls é a minha Moeda Número 1 do Tio Patinhas. O disco das Garotas Malvadas foi iniciador da minha cara mania de colecionar discos, sem o menor sinal de que isso vai acabar, ao menos em um futuro imediato. O melhor de tudo isso, é que meu sentimento em relação a esse símbolo de uma época muito especial em todos os sentidos, não mudou no decorrer dessas quatro décadas. Acho que as Garotas Malvadas envelheceram bem.
A pioneira das minhas divas morreu em 17.05.2012, aos 63 anos, vitimada por um câncer. Apesar desse infortúnio, a Rainha nunca perderá a majestade.
Bad Girls
Donna Summer
Lançamento: 25 de Abril de 1979
Gravação: Dezembro 1978 / Março 1979
Estúdio: Rusk Sound Studios (Los Angeles, California)
Gravadora: Casablanca
Produtor: Giorgio Moroder / Pete Bellotte
Faixas:
Lado Um
1. “Hot Stuff” 5:14
2. “Bad Girls” 4:55
3. “Love Will Always Find You” 3:59
4. “Walk Away” 4:27
Lado Dois
5. “Dim All the Lights” 4:40
6. “Journey to the Center of Your Heart” 4:36
7. “One Night in a Lifetime” 4:12
8. “Can’t Get to Sleep At Night” 4:45
Side three
Lado Três
9. “On My Honor” 3:34
10. “There Will Always Be a You” 5:07
11. “All Through the Night” 6:01
12. “My Baby Understands” 4:03
Lado Quatro
13. “Our Love” 4:51
14. “Lucky” 4:37
15. “Sunset People” 6:27
Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

45 anos depois, o álbum é até mais rock do que muito álbum ” de rock”.
Boas lembranças ele me traz.
Concordo. Quando estava editando seu texto coloquei o álbum para tocar no YouTube, e te garanto que fiquei surpreso. Aliás, falando em surpresas, amanhã, ou melhor, hoje ainda, mais tarde, terei surpresas.