Esse quarto escuro, meu refúgio, meu claustro, meu inferno.
O breu e um ar abafado e carregado de nada, sufoca-me.
Uma insegurança surda a queimar a pele
se eu pudesse ao menos, arrancá-la.
A dor, me levaria à sentir o infortúnio de mais um dia, que sobrevivi.
Sombras dançam à janela, convidando-me a um delírio qualquer
E, nem a isso me presto, juntar-me a elas,
me masturbar diante da ideia jocosa de que amanhã, possivelmente, estarei vivo.
Meus hilários arremedos de medo,
Talvez me empurrem o cigarro, acendam o fogo diante do álcool
Da próxima garrafa aberta, do lixo, que se acumula nos cantos
Da vida ordinária que levo.
Largo-me à cama e, ao vazio
O sonoro silêncio arrastado das horas
Outra noite de insônia, do barbitúrico tarjado de placebo
Da angústia da boca seca,
Da garganta arranhada da poeira dessas esquinas.
Nenhum grito de socorro sendo ouvido, pelo vizinho.
Os fantasmas que vivem dentro
Não se calam, só sabem zombar de mim
Me trazem a faca, de gume bem afiado
Dizem querer sangue,
O meu, ou o de outro qualquer,
Só lhes interessam o vermelho, o quente, o escorrer.
18.01.20