A verba destinada ao Grupo Globo nos norteia ao excesso de conjunções adversativas, “nunca antes tão repetida na história deste país”, quando noticiados os atos do governo petista, Lula III, “De volta à cena do crime”, ou qualquer outro nome que nossa liberdade de expressão permita nomear.
Como acreditar na veracidade de informações de quem recebe valores milionários de publicidade oriunda dos cofres públicos?
O padrão primário do jornalismo sério é o compromisso com a verdade, sem brigar com imagens, afinal, não há mais espaço para achar que o povo é bobo, embora ainda ocorram distrações.
Em 1986, em palestra concedida pelo renomado e saudoso ator José Wilker, o artista relatou uma situação, no mínimo curiosa, ocorrida dentro da também renomada TV Globo:
“Eu lembro que num dia de reunião de diretores eu levei…porque eles pediram um relatório que respondesse na opinião de cada um que dirigia novelas o que era o Padrão Globo de Qualidade, eu escrevi umas cinquenta páginas do que me veio à cabeça, e entre as coisas que eu escrevi, copiei uma citação de um livro, a respeito de como deveria funcionar um veículo de informação, do tipo TV Globo, e quando eu acabei de ler este trecho eu perguntei para eles assim:
Vocês concordam com o que está dito aqui neste trecho? A resposta foi sim.
Vocês acham que é isso que nós estamos fazendo? Todos disseram, sim.
Pois é! Uma pena. Por que este trecho que acabei de ler eu copiei do livro Mein Kampf de Hitler.
Como? Como? (Perguntaram os diretores).
É verdade, isso que está dito aqui é o que ele sugere que se faça com o rádio, é o que ele sugere que se faça para se ter um rádio eficiente a serviço do partido nazista. A televisão faz isso também. (Aplausos da plateia).
Mas é um instrumento paradoxal, ela faz isso e ao mesmo tempo moderniza. Aí ocorre uma coisa maluca, porque ela se coloca constantemente em armadilhas que ela tem que ultrapassar e ao ultrapassar ela melhora”.
Eis o paradoxo e a moral elástica de quem possui o mecanismo poderosíssimo de comunicação social.
O Jornal Nacional da Rede Globo está no topo dos canais de comunicação que mais receberam verbas publicitárias do governo Lula em 2023. De acordo com dados da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, 24 milhões do pagador de impostos foram gastos em anúncio no telejornal. O programa Fantástico, da mesma emissora vem abaixo no ranking, recebendo R$11,7 milhões em anúncios até o ano passado. Ao todo, o Grupo Globo, incluindo TV, rádio e internet, faturaram aproximadamente R$118 milhões na volta de Lula ao Planalto. O número representa 1/3 do valor gasto que estão detalhados no portal da SECOM.
Relembrar também é mesmo viver. Durante a campanha presidencial em 2022, o âncora do Jornal Nacional, William Bonner, disse de maneira bem clara ao então candidato Lula: “O senhor não deve nada à justiça“.
O ministro Marco Aurélio Mello, conhecedor do Supremo Tribunal Federal, sendo um ministro à época, afirmou que não. Segundo o ministro, não ocorreu anulação judicial, houve o retorno dos processos à estaca zero, tudo por conta de uma questão de CEP. Embora ocorrida anulação da pena, Lula não estava absolvido.
Diante do exposto, não é difícil qualquer pessoa em boa-fé entender que o réu deveria responder pelo processo em outra esfera, comarca, instância, ainda que também demonstrasse um retrocesso dentro das quatro linhas da Constituição, a famosa manobra jurídica. Novamente entramos também no quadro claro e simples sobre a elasticidade moral dos locutores oficiais do descondenado.
A frase de Bonner foi sintomática. Coloca em xeque se realmente devemos chamar a mídia de quarto poder.
Em nota pessoal, penso e estudo o jornalismo em sua totalidade como um exercício diário e apuração a serviço do leitor, e não de uma ideia. Como já dizia Millôr Fernandes: “Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal”.
A verba destinada ao Grupo Globo nos norteia ao excesso de conjunções adversativas, “nunca antes tão repetida na história deste país”, quando noticiados os atos do governo petista, Lula III, “De volta à cena do crime”, ou qualquer outro nome que nossa liberdade de expressão permita nomear.
O protagonismo continua com o Grupo Globo, mas assim como acontece em partidos políticos, a métrica de asseclas parece copiada, basta perceber blogs amigos do PT que também receberam quantias volumosas. Por exemplo, o site 247 faturou até o ano anterior quase R$700 mil, curiosamente (ou nem tanto) superior ao valor recebido pela Folha de São Paulo, que recebeu em torno de R$650 mil, o jornal Estadão recebeu um pouco menos que R$600 mil. O blog autodeclarado de esquerda, o Diário do Centro do Mundo, faturou R$222 mil, enquanto a revista Fórum recebeu R$350 mil de dinheiro estatal. Dinheiro nosso!
A outrora grande imprensa pode até não fazer uma mentira contada mil se tornar verdade, mas a subversão da linguagem, imposta por estes jornalistas credenciados neste cartel do pavor amoroso, conduz clichês, nos moldes de “atos antidemocráticos”, minuta do golpe, “Lula é inocente”, “regulação das redes”, “vacina salva”, tornarem-se praticamente política pública.
O método não é das ciências sociais, pertence à ciência exata, não por acaso bem descrito pelo matemático Eric Weinstein: “O conceito de esquerda x direita está ultrapassado, ainda que a gente continue usando esses termos. A divisão que importa entre os intelectuais e comentaristas de hoje é outra: aqueles que seguem o roteiro e os que saem dele. Se você seguir o script, você estará sempre certo, ainda que esteja errado. Se você fugir do script, você jamais vai acertar, ainda que esteja certo.”
Existe uma redação e uma indústria, ambas trabalham para obedecer, e se pagar direitinho a verdade continuará monopolizada pelo padrão de qualidade.
19/03/2024
Dinho Ferrarezi, de Juiz de Fora, MG, é jornalista e Livre Pensador!
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Os dados comprovam.Concordo com o texto e torço para que o jornalismo volte a nos informar.
É exatamente assim! Apenas acrescento um coisa: Follow the money
Essa é a frase de sempre. Siga o dinheiro e encontrará todas as respostas.
Estamos vivendo um período muito rico em experiências ruins. Ao que parece, não há na história do Brasil nada tão assustadoramente avassalador como o que se vê hoje, em que a imprensa (isto é, parte considerável dela) se apresenta como força auxiliar na construção de um estado policial. Os avisos foram dados. Ainda é possível reverter o jogo, mas creio que o tempo já esteja curto demais.
Rico em experiências ruins, significa, na prática: estamos fodidos!
E de pensar que já dependemos muito desse noticioso eletrônico. É confortador saber que o JN é atualmente irrelevante.
Parabéns pelo texto.