[Enquanto o corpo deserda sobre o outro corpo]

Enquanto o corpo deserda sobre o outro corpo, enquanto as poses e simulações exóticas, eróticas, despudoradamente cênicas são aplaudidas, enquanto os rostos incongruentes são exibidos, enquanto a histeria da plateia debruça-se ao chão, enquanto o telão mostra o close, enquanto a libido exposta, enquanto o sexo dissimulado escorre gozo e a língua invade a boca, invade a cena, invade a tela, invade a maldição da fala, a areia esmagada pelos pés pagãos, não se rendem ao mar.

Enquanto o corpo deserda sobre o outro corpo, enquanto a vida se esvai, enquanto se afogam as preces, enquanto se é levado, enquanto o rio inunda, enquanto o milagre desacontece, enquanto sobra o desespero, enquanto o fim se encontra, enquanto as águas misturam lama e morte, enquanto o último ato se desenrola em outro lugar distante, a cidade sucumbe, se rende ao fim.

Enquanto a noite quente se mostra ao descaso, enquanto a indiferença se estende, enquanto o bizarro é pago, enquanto essa gente desvairada roga a Madona e seus querubins, a noite fria e úmida marca a data, sepulta a inocência, arrasta o breu e o medo, a serpente e o cordeiro, arrasta o que se abandona, o que foi perdido, o que simplesmente não resiste ao amanhã.

Enquanto tudo se desenrola, meus olhos desacreditam e choram. Nossas dores deságuam entre as margens e as sarjetas.

O lodo se espalha sobre nós.

Lu Genez, Curitiba, PR, é poeta, escritora… E, claro, Livre Pensadora!

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