Em uma pequena aldeia escondida entre montanhas, havia uma lenda que atravessava gerações. Dizia-se que as crianças nasciam com olhos especiais: olhos que podiam ver além do visível, que captavam o mundo mágico que os adultos haviam esquecido.
Uma menina de olhos grandes e curiosos, cresceu ouvindo essas histórias. Ela observava as árvores sussurrando segredos ao vento, os riachos dançando com as fadas invisíveis e as estrelas piscando mensagens nas noites escuras. Seus olhos, diziam os mais velhos, eram portais para outra dimensão.
Maria não falava sobre seus olhos com os adultos. Eles haviam perdido a capacidade de ver o extraordinário. Mas, quando encontrava outras crianças, compartilhava suas descobertas. Ela e seus amigos exploravam bosques, cavernas e campos, buscando pistas do mundo mágico que só eles podiam enxergar.
Um dia, ela conheceu um garoto com olhos tristes e cansados. Ele não acreditava na lenda dos olhos especiais. “São apenas histórias”, dizia ele. “Não passam de ilusões.”
Determinada, convidou ele para uma aventura. Levou-o até o topo da colina, onde o sol se punha em tons de laranja e rosa. “Olhe além do horizonte”, disse ela. “Veja com os olhos do coração.”
O garoto relutou, mas olhou. E então aconteceu: ele viu as fadas dançando, os espíritos das árvores e até mesmo um dragão adormecido nas nuvens. Seus olhos se abriram para o mundo mágico que ela conhecia tão bem.
A partir desse dia, O garoto e ela exploraram juntos. Eles desvendaram mistérios, ajudaram criaturas encantadas e aprenderam que os olhos da criança eram mais do que uma lenda. Eles eram uma dádiva, uma conexão com o divino.
Ela nunca revelou a garoto que ele também tinha olhos especiais. Ela queria que ele descobrisse por si mesmo. E, enquanto observavam o céu estrelado, Ele sussurrou: “Garota, vejo algo incrível.”
Ela sorriu. “Então, meu amigo, você finalmente aprendeu a ver com os olhos da criança.”
E assim, a lenda dos olhos da criança continuou, passando de geração em geração. Porque, às vezes, a verdade mais profunda está nos olhos de quem ainda acredita no impossível.
Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador. Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs.
