Imagem: Gerada com IA (Leonardo AI)

Filhos Passam, Livros Ficam

Minha mulher disse que morre antes de mim, porque não tem o apego que tenho às artes que ela cria. E então lhe pergunto: como não poderia, como não teria, por que não deveria? Se sem o que fiz, muito mais do que fui, eu não sobreviveria? E nem conto os trabalhos para ganhar o pão, de estafeta a guardador de buceta, mas de meus pensamentos, expressos em tormentos, sem quaisquer emolumentos. Falo das pilhas de textos e seus pretextos, das poesias e seus contextos. Falo da minha liberdade e da minha liberdade de expressão, das milhares de centenas de horas em que esmerilhei teclados de máquinas de escrever ou de computador, sem saber o que era viver, escrevendo não para, mas por sobreviver. Não para pagar a prestação, não porque era a estação, mas porque era assim que eu entendia ser, e assim pretendia crescer. Não por minha malícia, nem por minha delícia, ou por fictícia autocomiseração, nem por desejar plateia, maior atenção ou admiração. Era por sentir que minha respiração tinha um porquê, que minha audição tinha um motivo, e perceber que era a fala que me mantinha vivo.

Como não posso agora me apegar ao que foi por mim escrito, mesmo que proscrito e descrito como abjeto, um mero inseto, objeto de calúnias e injustiças? Um mero poeta tachado de vagabundo, mesmo tendo nas costas carregado o mundo? Um esmero filósofo de pés encardidos e olhos ardidos, que pisou em terra batida para comprar comida. Como espera, minha amada senhora, que eu parta sem sentir tristeza, sem pensar no destino do que criei, que de ninguém herdei, mas que ficará de herança legal, mas imoral, aos que me escorraçaram, e até ameaçaram esquecer de minha existência, e que apenas por ganância e pendência, ainda mantêm a filiação, porque mais vale dinheiro na mão, do que um pai no coração. A eles, a quem mais valeu um padrasto falso comunista do que um pai verdadeiro artista. Chamam de pai um falso que lhes explora, e negam o verdadeiro que apenas carinho implora.

Então, como espera agora, minha venerável senhora, que eu não tenha aos meus livros, os que escrevi, e aos dos outros, que além de ler eu vivi, apego muito intenso, e estar sempre propenso a querer continuar, ficar, não ir?

E agora me autocitando: filhos passam, livros ficam.

Escrito e Publicado em 24/06/2024

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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