Você me viveu no interminável dos dias e noites emendadas
Esteve em minhas entranhas, bebeu do sangue,
se agasalhou em todos os buracos escuros e úmidos do meu corpo
Conheceu meus sorrisos de ocasião e olhos de desassossego.
Me teve sua, no primeiro segundo da primeira hora.
Tínhamos fome.
Não haviam resistências aos moldes dos pelos
Nos encaixávamos perfeito, como peças sem arestas, sem cantos mortos.
No embaralhado das carícias
No assombro do coito,
Escorríamos inadvertidamente
Um sobre o outro,
Sem os pudores de um vento.
Nos tínhamos amantes.
Misturávamos nossos líquidos e sexos,
Latejávamos até que o orgasmo se transformasse em sopro, brisa, aceno, afago.
Tínhamos desejos, segredos,
Pecados, e inconfessáveis confissões
Nos vivíamos nas peles nuas
Nos vestígios de uma tarde de cio,
No olho profanado
Nas línguas apressadas
No silêncio e no verbo
No começo e no fim.