Sem Despedida, Apenas Saudade (Meu Irmão de Rock e Filosofia)

Ainda nos tempos do telefone residencial fixo, João K. me liga. Reconheço a voz e digo: “Fala, João!”. Do outro lado da linha, parecendo não ter percebido, ele responde: “É o Juão!”. Assim era meu melhor amigo, meu irmão, não de sangue, mas de coração e mente, de alma, como alguns preferem.

Essa distração do meu amigo JK acabou se tornando piada entre nossos amigos, que passaram, às gargalhadas, a repetir a história. Quando me ligavam, iam logo falando: “Barata… É o Juão!”.

Foi no começo de 1996, por intermédio de um primo e amigo falecido em 2011, que nos conhecemos. Esse primo, de nome Anselmo, trabalhava na mesma empresa que João e falava de mim para ele e vice-versa, dizendo que tínhamos muitas coisas em comum, como o gosto por Rock e Filosofia. Até que fui convidado para o aniversário da esposa dele.

Lá estavam João e a esposa, Solange, e foi uma coisa daquelas que a gente nem entende direito como acontece: parecia que nós éramos amigos há décadas, tal foi o entrosamento. Ali, convidei o casal K. para ir à minha casa. Eles chegaram no final da tarde, pedimos pizzas e ficamos até o amanhecer do domingo falando sobre muitas coisas, especialmente, claro, Rock e Filosofia.

Tanto quanto eu, João era aficionado pela Filosofia de Nietzsche e, a partir daí, passamos a falar muito sobre o filósofo alemão, tudo isso ao som de muito Rock Progressivo, como Magma, Triumvirat, Genesis e outros. Chegamos a fazer uma espécie de tratado filosófico juntando essas duas nossas paixões. Pena que isso nunca foi escrito, porque garanto que seria uma obra importante.

Não sei quantas tardes, noites e madrugadas ficávamos sentados, bebendo cerveja e conversando, mas, desde aquele sábado de 1996 até 2018, quando me mudei de São Paulo para Araraquara, estávamos sempre juntos.

João K., meu irmão, era a pessoa mais desligada que já conheci, mas, por outro lado, a mais culta e inteligente. E tudo isso, como eu mesmo, de forma autodidata e empírica. Sim, um sujeito desligado, mas com um coração gigantesco e uma disposição para apoiar e ajudar os amigos que em mais ninguém percebi ou senti.

Foram muitas e várias as oportunidades em que ele me ajudou, seja com seu apoio aos meus projetos artísticos, seja financeiramente, quando passei por situações caóticas, e especialmente por me acolher em sua casa quando eu não tinha onde morar.

A primeira vez que morei em sua casa, por três meses, ele vivia em um sobrado que tinha uma edícula onde eu ficava muito bem instalado, com uma cama e meu computador, onde eu trabalhava o dia todo. João, que era programador, trabalhava em uma empresa de informática (ah, sim, tínhamos outra paixão em comum: os códigos de programação e hardware de computadores) e, ao chegar no final da tarde, trazia sempre uma cerveja, que ele passava por cima do meu ombro. Era o sinal para que eu parasse o que estava fazendo e fôssemos conversar.

Foi nessa época que nasceu uma definição dele sobre meu ateísmo: eu estava muito mal em função de uma separação, e um dia saí para caminhar. A intenção era ir à finada Led Slay, que ficava a uns três quilômetros da casa dele. Como estava completamente sem grana, fui a pé, da Vila Carrão até o Tatuapé, atravessando o Viaduto Antônio de Barros e continuando pela rua homônima. Quando cheguei ao cruzamento com a Avenida Celso Garcia, hesitei, mas decidi continuar por ela em direção à casa de Rock. Tinha andado uns cem metros quando escutei uma voz muito alta me chamar pelo nome. Virei-me, mas não havia ninguém atrás de mim naquela calçada, e nenhum carro passava pela avenida. Fiquei completamente arrepiado e resolvi voltar, dirigindo-me a uma padaria que havia naquela mesma via, que eu costumava frequentar, e, até por isso, tinha feito amizade com os dois irmãos que eram os donos. Entrei na padaria ainda assustado e me sentei no lado do balcão oposto aonde ficava o caixa, portanto de costas para o Paulo, que era o irmão que estava ali naquele dia. Pedi uma cerveja e estava ali matutando nas minhas desgraças quando escutei um berro que estremeceu o recinto, novamente chamando por meu nome. Dei um salto do banco e olhei ao redor. Não havia ninguém ali, apenas o caixa, que continuava de costas para mim, organizando as prateleiras de cigarro. “Paulinho, cê me chamou?”, perguntei. “Não, não chamei, não!”, ele respondeu. Achei que ele estava me zoando e ainda insisti, mas ele sempre negou. Larguei a cerveja, paguei e fui embora de volta à casa do João. Ao lá chegar, contei a ele o acontecido, e ele disse: “Cê é o ateu mais religioso que eu conheço”. Não preciso dizer que isso ficou marcado em mim.

A segunda vez que morei na casa deles, cerca de pouco mais de um ano depois, foi quando, expulso na noite do domingo de Carnaval da casa onde morava com minha ex-mulher e meus filhos, e sem ter para onde ir, liguei da rua, de um telefone público, e lhe contei o que estava acontecendo. Eu tinha até comprado Racumim para acabar de uma vez com minha merda de vida, mas não tive coragem na hora agá, e acabei passando a noite mais terrível da minha vida, dormindo na rua, porque, naquela época, não havia mais ônibus nem metrô. De manhã, tornei a ligar, e ele me disse para ir à sua casa, que poderia ficar lá até encontrar um lugar. Assim foi, mas, como na casa onde João agora morava com a esposa e a sogra não havia um quarto ou edícula disponível, eu dormia no chão. E sabem o que ele fazia? Como a esposa e a sogra ficavam até tarde da noite assistindo TV na sala, ele ficava comigo até que elas fossem dormir, porque dizia que não queria me deixar sozinho. Às vezes ele ficava “pescando”, cansado e com sono, e eu dizia para ele ir se deitar, mas ele sempre relutava e permanecia ali até que as mulheres fossem dormir e eu pudesse estender o colchão e dormir. Foram outros três meses que fiquei ali.

São tantas e tantas as histórias com meu irmão João, que, aliás, era apenas seis meses mais novo que eu, mas tinha a peculiaridade de ter nascido em primeiro de janeiro, e dizia que era um ano mais novo porque já era no ano seguinte.

E não posso deixar de lembrar uma de suas frases filosóficas: “Não espere agradecimento por ter feito algo a alguém que não lhe pediu.” Essa, tanto quanto sua definição sobre meu ateísmo, me marcaram para sempre, e, sempre que alguém age comigo sem reconhecer o que faço, lembro dela. Um sábio, meu amigo João K.

Ano passado, entretanto, sem que estivéssemos nos falando — não por briga ou coisa parecida, porque era impossível brigar com ele —, recebo a notícia de que tinha falecido. Assim, do nada, como fiquei sabendo posteriormente pela Solange. E se foi meu irmão, sem sequer se despedir, sem uma cerveja, sem definições filosóficas e sem Rock Progressivo tocando ao fundo. ‘É o Juão!”

18/11/2024

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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genecysouza@yahoo.com.br
22/11/2024 20:00

Simplesmente tocante. Certas amizades não são construídas: elas surgem de repente, de forma natural e descompromissada, sem cobranças, tampouco patrulhamentos, como se existissem desde sempre. E depois, sem mais nem menos, o amigo de todas as horas desaparece, mas a amizade-irmã fica gravada na alma, como uma tatuagem irreversível, e não morre nunca.

Celso Moraes F
Celso Moraes F
18/11/2024 11:39

Também tenho amigos que se foram sem que a gente soubesse que a última vez que nos falamos foi justamente isso: a última vez. Citando Drummond, falo sobre como me sinto com relação a eles: “Carrego meus mortos do lado esquerdo…por isso caminho meio de banda. “

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