Imagem Gerada Com Auxílio de IA (ChatGPT)

Festa de Final de Ano

Sentia-se deslocado com tudo aquilo: luzes, gritos, risadas, a musica alta que insistia em ferir seus tímpanos. Volte e meia, alguém oferecia uma bebida, acompanhado de um abraço onde o hálito impregnado de álcool e nicotina mesclava-se a suor e perfume. “Agora vai! Mãozinha pra cima! Agora, desce!” Não fazia sentido. As batidas primais acompanhadas de corpos movimentado- se em uníssono. Não era o Animal Planet. Não era um ritual de acasalamento. Eram apenas as pessoas que frequentavam o mesmo lugar durante todo o ano, colocando pra fora suas emoções regadas a muito álcool, tentando minimizar a frustração de trabalhar em uma empresa que os sugava, os explorava e, no final das contas, os convidava para “celebrar” sendo que as despesas eram todas descontadas dos funcionários.

Observava a tudo e a todos e suas eventuais mudanças de comportamento. Celia, a gerente do RH: totalmente isolada, com um copo na mão, tentando mexer o corpo no ritmo da batida eletro- funk-newhouse-putaria enquanto corria os olhos para tentar encontrar alguém que simpatizasse com ela. Mas ela sabia que isso não iria acontecer. Não tinha amigos, não tinha conhecidos. Apenas inimigos declarados cuja sentença era proferida através de advertências e descontos em folha.

Luiz, o chefe da contabilidade: seus óculos de armação grossa, seu terno antiquado (com golas altas, lembrando o estilo dos anos 70) e sua pele meio esverdeada ate que combinavam bem com os jogos de luzes. Não demorou muito para que o álcool fizesse efeito e ele começasse a dançar como se estivesse no filme “Embalos de sábado à noite”. O “John Travolta dos ativos e passivos”.

Do outro lado do salão de festas, estava a galera da TI: um bando de nerds, muito novos, muito parecidos uns com os outros. Assimilavam-se a filhotes assustados como se estivessem prontos para ser devorados. Todos com copos plásticos vermelhos e bebendo refrigerante.

As recepcionistas Marina, Patrícia e Maria Eduarda, animadas, dançando freneticamente, cantando e dando falsas esperanças aos homens na festa. Era apenas um jogo: com seus vestidos curtos, corpos esculturais, rostos angelicais, espalhando seu perfume e instigando o desejo em todos – menos no pessoal da TI! – quando, na verdade, estavam destinadas a terminar a noite em algum motel, satisfazendo o diretor, ou algum gerente, em troca de um benefício. Naturalmente, Celia tinha conhecimento de que as folhas de pagamento das três recebiam aumentos graduais enquanto que a maioria definhava.

No meio disso tudo, o pessoal operacional, a “peonada”, aproveitava a festa “gratuita”: bebiam, gritavam, pulavam, gargalhavam. Danças, selfies, vídeos para o Tik Tok. De repente algum daqueles seres barulhentos, olhava para o canto do salão, avistava o pessoal da TI e gritava “cuecão”! E avançavam sobre os nerds que, acuados e sem possibilidade de rota de fuga, era barbarizados sob os olhares do restante das pessoas. Nem bem o tumulto encerrava e lá estavam todos juntos cantado “Anna Julia” e implorando para que o DJ tocasse “alguma do Raça Negra”, o que foi prontamente atendido e rendeu um “campeonato de dança” que envolveu quase todos.

O diretor da empresa e seus asseclas, observavam a tudo de forma discreta. A garantia da satisfação era a festa. Os problemas, as críticas, os processos e os pedidos de aumento seriam esquecidos. Ou melhor: substituídos pela ressaca monstro no dia seguinte. Tudo estava definitivamente resolvido. Então, o melhor agora era aproveitar o uísque importado, o espumante sofisticado e o cardápio de frios especialmente servido e depois comer alguma das recepcionistas e voltar para casa, para os braços da esposa, felizes com a certeza de gordas gratificações e bônus por produtividade.

Alheio a tudo, ele sabia que sua presença não fazia o menor sentido e preparava-se para ir embora. Quando sentiu um toque em seu ombro. Era Valter, o gerente da unidade.

“- Tudo bem, meu amigo? O que esta achando da festa? Excelente, né? Você deveria estar dançando com o pessoal! Toma! Pega esse copo. Aqui tem uísque importado. Você vai gostar muito! Vai se divertir! Você e nosso homem de ouro!” Deixou que o executivo se afastasse para deixar o copo sobre a mesa sem tocar no conteúdo.

Valter seguiu rápido para a saída enquanto mexia em seu telefone. Acenou para todos e desapareceu. Coincidentemente, Maria Eduarda deixou a festa logo depois de verificar seu celular. Se despediu das amigas e disse que precisava descansar pois acordaria cedo, no outro dia. Luiz

Estava com o pessoal da Ti que agora, junto com o restante do grupo, estava abraçado e cantando “Evidências”.

Quanto a ele, sabia que o amanhã não reservava nenhuma surpresa ou milagre. Não sairia da festa acompanhado por Patrícia ou Marina (esta ultima desmaiada em uma cadeira devido à bebedeira, pernas abertas, calcinha a mostra), tampouco seria chamado na segunda feira e informado que ganharia um aumento ou promoção. Sua única certeza era de que precisaria pegar três conduções para chegar à sua casa aonde, provavelmente, sua mulher e filho pequeno o esperavam ainda acordados.

Sem que ninguém soubesse, recolheu alguns salgadinhos das mesas e colocou em uma sacola plástica e quando a colocava em um dos bolsos de sua jaqueta, foi flagrado por um garçom. O rapaz então fez um sinal para ele aguardasse e trouxe uma sacola maior, com mais salgados e frios que haviam sobrado da mesa da direção. Junto havia uma garrafa de espumante. “- Vai, leva para você!”. Ele agradeceu, escondeu a sacola sob a jaqueta e se encaminhou para a porta. Estava feliz. Foi uma surpresa, um milagre.

Naquela mesma noite, algumas horas depois, um casal e seu filho pequeno celebravam, felizes, um banquete improvisado regado à tubaína e espumante importado. Enquanto isso, em um salão de festas quase vazio, Celia continuava em pé, com o copo na mão mexendo seu corpo ao som de uma mistura de eletro-funk-newhouse-putaria a espera de um milagre.

Daniel Kobra Kaemmerer, de algum lugar do Rio Grande do Sul, é músico, escritor e Livre Pensador.

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