Negação

Negação

Eu queria caminhar até o Inferno ou a outro lugar,
Mas não existe Inferno, nada aonde possa chegar.
E não existe destino, e nem saída: nenhum motivo,
Ou razão, para que eu possa querer continuar vivo.

Tudo foi destruído, tudo roubado e nada reconhecido,
E não tenho medo do nada ou receio do desconhecido.
E já que nenhum Satã ou Jeová existe pela Verdade,
Que eu faça com minhas próprias mãos sua vontade.

Derrubei muitas portas, mas nenhuma consegui abrir,
Muros na frente dos olhos, escadas que não pude subir.
Construí muitas pontes, mas nenhuma pude transpor:
Quebraram as minhas pernas com martelos de isopor.

Preciso agora correr, antes de ser tarde ou ainda manhã,
A noite chega rápido, e não quero chegar até o amanhã.
Não quero ser nada, quero ser o nada a que fui relegado,
Pois que nada me foi reconhecido e tudo me foi negado.

Não ouçam o que eu lhes disse nem leiam o que escrevi,
O que importa se estou vivo, ou que por muitos eu vivi?
Que não tenham o meu desespero e meu desejo secreto,
De ser o que era bom, esperando apenas por um decreto.

Crianças de pés sujos de sangue, andem sobre o meu pó,
Cuidem dos porcos, alimentem as feras, não tenham dó.
Deixem morrer o poeta, e coloquem um ditador no trono
Que liberdade é do que conquista, não do que tem dono.

E fiquem pois com o mundo que querem, e bem depressa,
Pois nesse planeta, nessa terra, nada mais a mim interessa.
E fiquem com tudo, cada pedaço da herança de maldição,
Contudo nunca esqueçam que esperança é a sua perdição.

Agora acabou, a responsabilidade sobre filhos comunistas,
Sobre as rochas, as pedras soltas e sobre orgasmos autistas.
Findou a vaidade do luar, e a indiferença crua do duvidoso,
E acabou a crueldade daquele que sempre foi um dadivoso.

Onde anda minha menina, perversa torpe de pés inchados,
Em que latrina jogastes o fruto da dúvida de seus pecados?
E onde anda, mãe do falso, o filho que nunca quis parir,
Um que nunca conheceu, um que sempre te pode servir?

Pobre planeta tomado por porcos, que o querem chiqueiro,
Triste terra, onde um assassino é chamado como guerreiro.
Por sorte deixo apenas farrapos e nenhuma propriedade,
Assim nada mais de mim terão a roubar, além da cidade.

Agora preciso ir, longe é perto demais àquele que sofre,
A minha poesia, a deixo livre, e sem o segredo do cofre.
Mas não ousem conspurca-la com suas ideias nojentas,
Já que eu sempre amaldiçoarei as ideologias magentas.

Não importa o fogo, a terra ou a água aos meus restos,
Quero mesmo é saber das tuas sujeiras e teus incestos.
E já que não presto, não te empresto meu pensamento,
Compre à prazo, ou espere até chegar o seu momento.

Jamais esperei sua compreensão do que é o sacrifício,
E já que não creio em deuses, o que fiz foi meu ofício.
Fiquem, portanto, com seus conceitos sobre paternidade,
Que julgarei apenas a mim, perante a minha autoridade.

O fruto do trabalho de um homem a si pertence apenas,
Pois esqueçam o furto de meus juros, crianças pequenas.
E se acaso algum dia herdarem minha indômita vontade,
Entenderão o que lhes digo, sem um centavo de vaidade.

Um pedido que lhes faço, e por último podem chamar:
Que olhem em meus olhos mortos fechados sem chorar,
E que alguém, com a coragem o suficiente para sofrer,
Leia o último poema escrito no dia antes de eu morrer.

Desculpem, tenho agora que tomar uma última decisão
Entre o cano do revólver, e o nó da corda com precisão.
E como não se pode chegar antes mesmo da saída,
Chego à morte, antes que a possa chamar por vida.

15/10/2018

Memórias Arrependidas de Um Poeta Sem Pudor
(Antologia Poética, de 1978 a 2025)
Barata Cichetto
Gênero: Poesia
Ano: 2025
Edição:
Editora: BarataVerso
Páginas: 876
Impressão: Papel Pólen 80g
Capa: Dura
Tamanho: 16 × 23 × 5,2 cm
Peso: 1,50

Brindes Incluídos:
2 Marca-páginas da BarataVerso;
1 Marca-página BarataVerso em Couro;
2 Adesivos do BarataVerso;
1 Sobrecapa

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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