Nota do Editor: Normalmente, procuro me utilizar de imagens criadas com IA, cheia de detalhes e cores, para ilustrar as capas das matérias. Isso se deve a devidos fatores, como estéticos, e também para não usar imagens alheias. Neste caso pensei que seria muito desumano, para usar a palavra certa, pois a crônica do Áureo fala justamente de nossa desumanização. Fui então em busca de imagens na Internet, mas também não queria usar imagens chocantes, pois o fato e a narrativa já o são o bastante. Encontrei a que ilustra, acima, e senti que este era o real sentido do que o autor coloca. Prestem bem atenção a ela. Infelizmente, como o site da FSP é bloqueado a não assinantes, não consegui o nome do fotógrafo, e apenas coloquei o link da matéria na legenda. Tampouco, como sempre procuro fazer nas edições, usei imagens ilustrativas no meio, e, claro, sem os vídeos que circulam na Internet com as imagens feitas no momento. Estou me sentindo muito mal há dois dias, quando os ví. A reflexão sobre o texto, é necessária, mas sei que poucos se darão de ficar indignados mais de um dia, com o assunto. Estamos num mundo de merda, esta é a realidade. Me desculpem o longo introdutório, mas o julguei necessário.
BC, 03/06/2025
Na minha idade poucas coisas deveriam me surpreender especialmente considerando que vivo num país que tirou um condenado da cadeia para colocá-lo na presidência quase ao mesmo tempo em que condenou um comediante a oito anos pelo teor de suas piadas.
Vivemos num país que está sendo destroçado um pouquinho a cada dia e não nos impressionamos muito com isso, como se absurdos fossem naturais ou até inevitáveis.
Apesar de passar meus dias nesse lugar em que a ficção não é páreo para a realidade cotidiana, esta semana tomei conhecimento, sem nenhum aviso, de um evento que me impressionou até o último fio de cabelo.
Por que eu precisaria de algum aviso pra me preparar para o que eu veria? Porque foi a cena mais aterrorizante e impactante que vi na vida e que, acredito, não perderá o status de líder no ranking dos horrores a menos que eu presencie o fim dos tempos ao vivo e em cores.
Um vídeo, feito com celular, mostrava um homem totalmente em chamas, ainda vivo, dentro de uma estação do Metrô em São Paulo. E o que foi que contribuiu pra que a imagem fosse ainda mais impactante?
Não, não foram as chamas de 3 metros de altura consumindo um corpo humano num ambiente público. O que contribuiu para o terror monstruoso da cena foi o fato de que o homem, já sendo brutalmente consumido pelo fogo, caminhou em linha reta – impassível – com absoluta calma e em absoluto silêncio – sem esboçar nenhum traço de dor, sem qualquer movimento brusco, sem cambalear, sem sequer um gemido… numa mensagem muda de horror extremo.
Qual mensagem? Nenhuma. Sim, nenhuma. Nenhuma que tenha sido absorvida pela sociedade ou que tenha gerado alguma reflexão minimamente duradoura.
Nenhuma reflexão que não tenha sido totalmente esquecida minutos depois, exceto talvez por um par de transeuntes que fizeram a filmagem e pelos bombeiros que apagaram as chamas do homem que, pasmem, permaneceu ereto e em silêncio até o final.
Reparem bem em que ponto estamos: Um homem ateia fogo ao próprio corpo num dos lugares mais movimentados do país enquanto caminha como qualquer outro passageiro e tudo o que temos como resultado são alguns comentários digitados com desleixo e leve ar de espanto em meio a admoestações para que ele procure por Jesus enquanto se pode achar.
Segundos depois, as pessoas estão colocando emojis de coraçõezinhos em um vídeo onde um gato cai depois de errar um salto ou num vídeo onde uma coreana pálida anuncia um novo tipo de blush. Talvez no dia seguinte algum matuto tenha comentado na porta de um botequim na Rua Boa Vista enquanto comia um ovo cor de rosa: “Taí uma coisa que não se vê todo dia”.
Nada consegue nos comover. Nada é capaz de nos abalar.
As chamas que consumiram um homem diante de todos sequer chamuscam a superfície polida da nossa impenetrável indiferença.
Nem mesmo a morte em sua forma mais brutal nos significa alguma coisa.
Mas talvez o homem anônimo em chamas no Metro que fica bem no coração do maior país do hemisfério sul tenha tido sim um significado para seus compatriotas: O de que nossa insensibilidade nos tornou capazes de sermos aniquilados em absoluto silêncio, impassíveis como ele, não importando o quão absurdo e aterrorizante possa parecer.
Áureo Alessandri é engenheiro, escritor e músico da banda La Societá, autor do livro “Conspiração Andron“. Um Livre Pensador.

O que se percebe é que, as pessoas se chocam mais com o divórcio/infidelidade/exposição sexual de uma sub-celebridade; ou, quem sabe, a Ferrari recém-adquirida de YouTuber bem sucedido, o destino de um elefante chamado Sandro, do que um homem em chamas, um policial assassinado e demais fatos do nosso cotidiano. Estamos mal na foto.
Texto excelente! Chegamos mesmo a esse ponto, total frieza em relação a algo tão chocante. Me espanta que não cheguei a ver nada disso nos telejornais policiais da TV aberta.
Outrora fatos desse nível ficaria gravado por meses na mente das pessoas e discussões a respeito poderiam talvez entender o que leva uma pessoa a fazer isso consigo mesma. Fim dos tempos.
Chocante ao extremo e ao mesmo tempo desprezível já que a grande mídia não noticiou e, se não noticiou, as pessoas não se importam.
Não estamos, nenhum de nós, ligando pra nada. Nem para o fim dos tempos.
Obrigado pelas palavras elogiosas.
O Áureo sempre nos presenteia com ótimas matérias, assim como suas músicas.
O texto acima é de uma sensibilidade ímpar e nos “chacoalha” com a realidade nua que as vezes negamos a ver.
Exatamente, Edu!
Eu fiquei abalado demais. Tenho ficado ultimamente, na verdade.
Mas nem isso arranha muito o verniz que criamos na pele e que nos faz indiferentes.
Tempos atrás li uma coluna antiga do Jabor em que ele dizia que a difernça entre os Talibãs e a turma do ocidente é que os primeiros amavam a morte e os demais amavam a vida.
Os brazucas estão chegando num terceiro ponto: somos indiferentes tanto à vida quanto à morte.
Saudades, Edu.