Manifesto do Cagador Insubmisso

(Ou o velho que só queria cuidar da areia dos gatos)

Eu queria mesmo, do fundo do fígado, ser um otimista. Um desses venerados, abraçados, emoldurados nos salões progressistas, com um sorriso de esperança engomada e discurso pronto para o “Encontro Com Fátima Bernardes”. Queria acreditar, com toda minha ingenuidade apodrecida, que isso tudo aqui é só um pesadelo. Um surto coletivo com trilha sonora de jingle eleitoral e alucinação de urna eletrônica. Um daqueles sonhos ruins que fazem a gente acordar gritando “liberdade”, encharcado de suor e vergonha, até perceber que era só o inconsciente tentando avisar que o Brasil já virou distopia.

Mas não. Acordei mesmo. E a realidade é mais nojenta que o fundo da caixa de areia dos meus gatos. Queria só cuidar disso: dos gatos. Da cerveja do fim do dia. Do cheiro da comida no fogão. Dos boletos, que são nossas penitências mensais nesse purgatório tropical. Queria só poder cagar em paz, sem medo de estar sendo filmado, hackeado, vigiado, dublado, cancelado ou preso por crime de defecação ideológica. Entretanto, hoje nem isso se pode. Porque a merda, no Brasil, não pode sair só do cu. Tem que passar por autorização do STF.

Queria berrar num boteco, ou numa rede social — que no fundo viraram o mesmo esgoto, só que um serve gelada e o outro serve algoritmo — que o governo é uma bosta. Qualquer governo. Todos. Sempre foram. Sempre serão. Mas agora, dependendo da sigla, do pronome ou da bandeirinha no avatar, isso pode virar “golpe”, “ódio” ou “atentado à democracia”. E democracia virou isso aí: um balão inflado por meia dúzia de engravatados que só flutua enquanto a gente cala. Discordou, virou terrorista. Reclamou, é fascista. Duvidou, é negacionista. E se for velho e branco e heterossexual, então, nem precisa abrir a boca — já nasceu culpado.

Queria contar piada. Aquela mesmo, do português, do gay, da loira, do baiano e do político. Mas hoje só posso rir se for da piada certa, do lado certo, com a plateia certa. A liberdade agora vem com manual de uso, curadoria do Instagram e selo de aprovação do Sleeping Giants.

Desenhar uma piroca num banheiro? Perigoso. Vai que acham que é o retrato do Ditador? Ou de algum Ministro? Vai que ela é circuncidada demais e ofende alguma religião? Ou grossa demais e parece com um general? Hoje, até pinto precisa de legenda neutra.

Falar de político ladrão virou clichê. Mas clichê criminalizado. Porque hoje não se pode mais dizer que “todo político é ladrão”. Agora tem os “políticos de luta”, os “políticos de afeto”, os “ladrões do bem”. Uns que roubam, mas fazem. Outros que roubam, mas militam. E alguns que roubam, mas… não fazem nada além. Aí depende se é “roubo revolucionário” ou “roubo opressor”. Depende do verificador de fatos.

Eu só queria escrever poesia. Poesia canalha. Daquelas que falam de putaria, de mulher, de homem, de viado, de sapata, de tudo misturado, como sempre foi a vida. Mas hoje, se eu disser que uma cantora é ruim, serei tachado de machista, sexista. Se eu escrever que um homem trans não tem talento, vão dizer que sou homofóbico.

A liberdade de expressão virou refém da expressão da moda. A arte virou ré. E o artista… um mero pastiche amedrontado, ou um delator, que não se envergonha de berrar “Sem Anistia!”, muitos deles perseguidos e, posteriormente anistiados, em outra ditadura. É eles de fato nunca lutaram contra a Ditadura, mas de uma específica, já que o que defendem já teve outros nomes, como Ditadura do Proletariado, e hoje por… Bem, mas ler sites e jornais e saber os nomes que dão à Ditadura que por hora vivemos.

Hoje, um poema meu pode me levar pra cadeia. Uma frase torta pode me levar pra manchete. Um rascunho de erotismo com crítica social pode me levar pra uma cela ao lado de um estuprador ou de um assassino. Menos de um corrupto, claro. Corrupto não vai preso. Corrupto vai para Harvard, para a Presidência ou para algum Ministério na República da Brazuela. Aliás, corrupto hoje é patrimônio imaterial da República. Intocável, inatingível, eterno. Vide os que voltaram: aqueles que estavam na cadeia e agora estão no palco. Da tornozeleira à faixa presidencial, foi um pulo. Porque no Brasil a justiça não tarda: ela aluga.

Sou só um velho. Um velho poeta. Um velho pai, cujos filhos chamam o escroque de nove dedos de pai, e renegam até mesmo minha efetiva existência como tal. Um velho homem que viu a ditadura com os olhos, mas hoje vê essa nova ditadura com o fígado. Aquela era de farda e porrada. Esta é de toga e tweet. A de ontem nos proibia de falar. A de hoje nos obriga a aplaudir.

Os filhos dessa geração escolheram como heróis um homem que não tem um dedo e uma mulher que não tem cérebro. Dois extremos da mesma desgraça: um que fala de amor com a boca suja de “Mensalão”, outra que prega Democracia com o dedo no botão de censura. Ambos com o selo do Supremo, ambos morais — ou Moraes — anões, guiando uma pátria de cegos que não querem enxergar, surdos que não querem ouvir… E mudos por medo, covardia, ou em muitos casos, conveniência, mesmo.

A nova censura não vem com tanques. Vem com termos de uso. Com notificações extrajudiciais. Com ações no TSE, denúncias do MP, dancinhas no TikTok e campanhas educativas com dinheiro público. Eles não te torturam, te desmonetizam. Eles não te exilam, te desindexam. Eles não te matam, te apagam do “feed”.

É isso. Fracassamos. Como pátria. Como povo. Como idioma. Porque até a nossa língua virou suspeita. Agora tem que falar certo do jeito errado pra não ofender quem nem entendeu. O plural virou opressão. O singular virou microagressão. E a gramática virou cúmplice do colonialismo. E o povo, coitado, nem conseguiu entender o que é aglomeração. Só entendeu que tem que obedecer. E bater palma. E repetir. E repostar. E chamar de Democracia a mordaça colorida que nos enfiaram boca adentro.

Eu queria só isso: comprar areia pros gatos amanhã. Só isso. Mas preciso antes checar se isso não fere alguma pauta ambiental, se o nome “gato” não é ofensivo a alguém, se a areia é neutra em carbono, e se não há um projeto de lei que proíba a limpeza da caixa de areia de gatos em nome da justiça social.

Estamos condenados. Como país. Como projeto. Como idioma. Como bando. Como… gente. E mesmo assim, continuo escrevendo. Porque se for para ser preso, que seja por dizer o que penso. Porque se é para calar, que seja com a boca cheia de verdades. Porque se é para acabar, que acabe com poesia.

De preferência, sacana.

06/06/2025

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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Giorgio
Giorgio
13/06/2025 12:40

Passou da hora de pegar a areia dos gatos e derramar um caminhão cheio dela nesse pessoal que nos fez parar de sonhar desde a eleição do descondenado e da coroação do careca mais odiado do Brasil.

Eduardo Schloesser
Eduardo Schloesser
09/06/2025 11:21

Texto sensacional! Li duas vezes e lerei outras mais, certamente. Forte, afiado como um bisturi e que cala fundo no coração. Um dos melhores de sua safra.

Genecy
Genecy
08/06/2025 22:41

Eu gostaria de poder acrescentar algo a mais no seu texto, talvez uma frase de efeito, uma ironia. Ou quem sabe um chiste. Mas não precisa. Ele diz tudo. Cabe a mim apenas subscrevê-lo.

Vinnie Blues
Vinnie Blues
06/06/2025 23:23

Texto sensacional ,Barata !. Ri em alguns momentos. Mas ri pra não chorar. Parabéns

Prometeu
Prometeu
06/06/2025 22:44

Texto incrível de filosofia política, filosofia da arte e de ética num tom poético, satírico e altamente consciente da destruição do espírito humano e da sociedade. Concordo com tudo e compartilho os sentimentos também. A única ressalva que gostaria de dar é que, é possível uma esperança, diante dessa ditadura de esquerda que vivemos. Que seria uma oposição a tudo isso que foi construído ao longo de décadas que anulasse essas forças nefastas. O problema é que, a suposta oposição a isso não é, de fato, fundamentalmente oposta a tudo isso, apenas crítica certos aspectos, enquanto é igual em outros. Vários países conservadores da Europa estão em direção a ditaduras de “direita”, que na verdade é igual à esquerda, mas só troca o politicamente correto igualitário pelo politicamente correto religioso-nacionalista. E por isso que ela sempre, ou irá fracassar ou trazer outra bosta parecida, como foi o regime militar. O grande problema fundamental hoje é a concentração de poder na mão desses políticos, bandidos e elites e a diminuição da liberdade e do poder individual; e isso nada tem a ver com religião ou nacionalismo, mas com individualismo, soberania individual e enfraquecimento de qualquer cultura, instituição ou comportamento coletivista (que as igrejas e o exército estão inclusos e são inclusive braços dessa mesma galera que nos governa, seja a católicos ou as evangélicas ou islâmicas, sejam as Forças Armadas). A esperança seria uma cultura individualista que lutaria a longo prazo contra tudo isso e buscaria a liberdade individual a todo custo, mas infelizmente não é o que acontece. A resposta sempre é a tentativa de voltar para os velhos tempos perfeitos religiosos e nacionalistas (que também eram uma bosta, apenas uma bosta menos pior) ao invés de se construir algo novo e que realmente anule os males dos tempos atuais e a elite que nos controla.

Áureo Alessandri
Áureo Alessandri
06/06/2025 21:41

Brother!
Esse foi um dos melhores… e não, não fala de política. Fala de nós como povo – coisa que não somos (somos massa) e como nação – coisa que somos menos ainda (isso aqui é um aglomerado).

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Plágio é Crime!

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