Há quem diga que Fernando Pessoa inventou heterônimos porque era tímido. Besteira. Pessoa inventou heterônimos porque um único sujeito não dava conta do excesso de mundo que ele carregava nos ossos. Era como se o corpo lhe tivesse vindo de fábrica com menos cadeiras do que hóspedes. Cada novo pensamento precisava de um novo quarto — ou pelo menos de uma nova porta.
Eu o entendo.
Quando leio O Banqueiro Anarquista, parece que Alberto Caeiro está sentado ao lado, abanando a cabeça, achando graça daquela lógica toda. Caeiro, o pastor dos sentidos, certamente diria que o banqueiro é apenas um homem cansado de sentir, refugiado na matemática de si mesmo. E Ricardo Reis, sempre elegante, sorveria um gole de vinho lento antes de comentar que ordem e disciplina também são ilusões, e que “ser livre é um dever tão cansativo quanto ser escravo”. Álvaro de Campos, por sua vez, daria um murro na mesa e mandaria tudo ao inferno — o banqueiro, o sistema, e até a nossa mania de querer ser coerentes.
E é isso que me fascina: Pessoa não escreveu um personagem que justifica o injustificável. Ele escreveu um quarto inteiro de vozes discutindo dentro da mesma cabeça.
O banqueiro é a máscara que acredita ser o rosto.
Bernardo Soares é o rosto que teme ser apenas máscara.
Campos é o grito.
Reis é a renúncia.
Caeiro é o silêncio antes de qualquer pensamento.
Eu sei que antes de ser escritor, sou condomínio. E Pessoa me conforta e me inquieta por isso.
Quando abro o Livro do Desassossego, sinto como se Soares me puxasse pela gola da camisa e dissesse:
“Vem cá, Barata, não te finge de lúcido. Tu também acordas com uns vinte inquilinos dentro da cabeça.”
E eu acordo, sim.
Há dias em que o banqueiro me governa: calculo, raciocino, defendo minhas pequenas certezas com a elegância hipócrita de quem tenta convencer a si mesmo antes dos outros. Um dia desses, quase acreditei que minha teimosia era filosofia.
Há outros dias em que Bernardo Soares assume o comando e tudo desaba: a rotina pesa, o mundo me parece um teatro mal iluminado, e as palavras se arrastam como se pedissem desculpas por existirem.
Pessoa sabia que a mente humana é uma república instável.
Eu diria: é uma anarquia fracassada que finge ter um presidente.
O que me impressiona é que, no Banqueiro, a razão é usada como faca. No Desassossego, o sentimento é usado como ferida. E entre a faca e a ferida, está o próprio Pessoa — esse homem que escreveu como quem tenta sobreviver a si mesmo.
Talvez por isso ele precisasse ser muitos: um só não daria conta da autópsia.
E eu, que nunca tive heterônimos, percebo que talvez só falte formalizá-los. Já estão todos aqui: o cínico que argumenta, o sensível que desmorona, o poeta que ironiza, o cronista que observa, o menino que se assusta. Fernando Pessoa os batizou; eu apenas os suporto.
Às vezes penso que O Banqueiro Anarquista é o testemunho do Pessoa adulto, vestindo a máscara da lógica para conversar com o mundo; já o Desassossego é o Pessoa criança, falando baixinho consigo mesmo para não acordar os medos.
O banqueiro vence debates.
Soares perde noites.
E Pessoa? Pessoa é o intervalo entre um e outro — o silêncio que sabe que toda certeza é provisória.
O que mais me toca é imaginar aquele homem magro, sentado no Martinho da Arcada, criando personalidades como quem cria respiradouros. Não eram personagens: eram funções vitais. Caeiro para respirar, Campos para gritar, Reis para organizar a dor, Soares para confessar o que não podia ser confessado. E o Banqueiro? Ah, esse não tem heterônimo — porque é a parte de Pessoa que tenta controlar o caos.
No fundo, todos os heterônimos são tentativas de manter o caos habitável.
E eu, que não tenho o talento de Pessoa para incorporá-los em nomes e estilos, fico apenas com a sensação de que carrego uma assembleia permanente dentro do peito. Uns querem revolução, outros querem ordem, e alguns só querem dormir. E talvez meu erro seja o mesmo do banqueiro: achar que posso vencer essa assembleia com argumentos.
Pessoa sabia que não se vence. No máximo, negocia-se.
Eu termino a crônica, mas não termino a conversa interior. Porque, depois de ler Pessoa, qualquer homem começa a desconfiar da própria unidade. E isso é belo e incômodo. Talvez seja isso mesmo o desassossego: não saber se quem terminou o texto foi você… ou algum dos hóspedes que vivem silenciosamente dentro de você.
E, se for sincero, diria que não importa. O que importa é o que Pessoa me ensina: não existe liberdade sem aceitar que somos muitos — e nenhum deles suficiente.
07/12/2025
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
