Contrapágina – Olavo de Carvalho Era Um Anarquista Conservador?

Há livros que não querem ser lidos. Querem ser atravessados. O Imbecil Coletivo é um deles. Não se abre como quem busca entendimento; abre-se como quem aceita um tapa. Olavo de Carvalho não pede licença, não oferece café, não ajeita a cadeira. Ele empurra o leitor para dentro de uma sala onde a conversa já está acontecendo — e todos ali parecem errados, acomodados, satisfeitos com a própria ignorância.

O livro não constrói pontes. Dinamita consensos. Não organiza soluções. Desorganiza certezas. Seu alvo nunca foi o povo, mas o ventrículo mole da inteligência nacional: a elite cultural que fala em nome da razão enquanto terceiriza o pensamento. Ali, a imbecilidade não é deficiência individual; é método coletivo. Um sistema que recompensa a repetição, pune o dissenso e confunde erudição com obediência.

Olavo escreve como quem não acredita mais na pedagogia do bom tom. Sua filosofia vem suja, arranhada, ferina. Não porque falte rigor, mas porque o rigor, para ele, não combina com delicadeza num ambiente já tomado pela fraude intelectual. A agressividade não é excesso: é linguagem adequada ao ambiente.

Em outro canto, longe das bibliotecas e mais próximo dos amplificadores, Marcelo Nova canta O Anarquista Conservador. Não ensina nada. Não explica nada. Apenas se apresenta como paradoxo. O personagem da música dança, zomba, escarnece. Ri do novo normal, da diversidade pasteurizada, da coragem comprada em bourbon e da virtude encenada em slogans. Ele não pede compreensão. Pede distância.

Enquanto Olavo acusa, Marcelo Nova debocha. Mas ambos falam da mesma coisa: a falência da autoridade simbólica. A música, assim como o livro, não propõe uma nova ordem — apenas se recusa a servir à ordem falsa que se apresenta como moralmente superior. O anarquismo aqui não é utopia social; é insolência ontológica. É negar legitimidade a quem não a merece.

Não porque sejam reacionários, mas porque não acreditam na ideia de progresso moral automático, nem veem o futuro como instância de redenção coletiva. Ambos reverenciam algo anterior à moda: a realidade. Aquilo que insiste em existir apesar da linguagem, das pautas e dos consensos. Quando Marcelo Nova aponta para a vaca e o boi, ele faz o mesmo gesto que Olavo repete à exaustão: lembrar que o mundo não se curva à retórica. A realidade não negocia.

Mas também não há conforto na tradição. Nenhum dos dois se ajoelha. A tradição é referência, não abrigo. É fonte, não escudo. Reverencia-se — e logo se esculhamba. Porque transformar tradição em identidade é apenas outro tipo de imbecilidade coletiva.

Há ainda a recusa da salvação. Nem Olavo acredita em redenção histórica, nem o anarquista conservador do rock aceita paraísos. Ambos desconfiam de quem promete paz, perdão e futuro luminoso. Toda promessa coletiva cheira a controle. Toda virtude anunciada em voz alta costuma esconder coerção.

O fio condutor entre o ensaio e a canção não é político no sentido partidário. É existencial. Trata-se da recusa em ser explicado, enquadrado, domesticado. É a rejeição do consenso como valor moral. É a escolha do isolamento consciente em vez da pertença confortável.

E então a pergunta se impõe, quase como provocação final: Olavo de Carvalho é um anarquista conservador?

Sim — se entendermos o anarquismo como destruição das autoridades falsas e o conservadorismo como fidelidade à realidade, à tradição intelectual e aos limites do mundo. Não — se tomarmos o termo como rótulo técnico, ideológico ou programático.

Olavo não quis fundar escola, partido ou seita. Quis incendiar um ambiente. Como todo anarquista, atacou o que se passava por autoridade. Como todo conservador, fez isso para salvar algo que julgava verdadeiro.

Talvez o erro esteja em tentar resolvê-lo. Assim como na música, o aviso permanece válido:

Não tente me decifrar.

Algumas obras não pedem interpretação. Pedem coragem.

16/12/2025

O Anarquista Conservador
Camisa de Vênus

Meu charme é irrecusável
E eu danço divinamente
Sua a risada tão irritante
Suas pernas tão atraentes
Vou lhe conduzir por salões
Que você não imaginou
Irei lhe devolver em dobro
O que você nunca emprestou.

Essa frescura de novo normal
Que você chama diversidade
Será por ignorância
Ou simplesmente ingenuidade.

Tudo que sempre existiu
Continua como sempre foi
Olhe nas tetas da vaca
E veja o membro do boi.

Não tente me decifrar
Ora faça-me o favor
Eu sou o seu paradoxo
O anarquista conservador.

O homem busca a sua coragem
No dinheiro e no bourbon
A mulher sempre a encontra
No salto alto e no batom
Pois amor é o nome dado.

Para a carência e apatia
É o medo de ir dormir
Sem nenhuma companhia.

Se me deparo com a tradição
Faço questão de reverenciar
Mas logo perco o interesse
Então só quero esculhambar.

Essa deve ser a trilha
Por onde seguirei sozinho
Os fracos herdaram a terra
Não me resta outro caminho.

Não tente me decifrar
Ora faça-me o favor
Eu sou o seu paradoxo
Um anarquista conservador.

Chorar, ajoelhar, rezar
Nada disso é preciso
É melhor reinar no inferno
Do que servir no paraíso.

Falar que luta pela paz
É a mais pura imbecilidade
É como dizer que quer foder
Em busca da virgindade.

O anjo do perdão
Perdeu as botas e as asas
Nossa cova com certeza
Será pra lá de cova rasa
Mas eu já sobrevivi
A duzentos funerais
Caindo de cima das torres
E dando saltos mortais.

Não tente me decifrar
Ora, faça-me o favor
Eu sou o seu paradoxo
O anarquista conservador.

Não, não
Não tente me decifrar
Ora, faça-me o favor
Eu sou o seu paradoxo
O anarquista conservador.

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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