Contrapágina – Os Demônios Não Pedem Senha

Dostoiévski escreveu Os Demônios depois de um assassinato político cometido por jovens revolucionários que acreditavam estar fazendo história. Um crime pequeno, quase irrelevante em escala, mas imenso em significado. Não pelo sangue derramado, mas pela frieza com que foi justificado. Não houve ódio. Houve método.

No romance, Piotr Verkhoviénski organiza uma célula que não acredita em nada além da necessidade de destruir. Não se trata de tomar o poder, mas de provar que tudo pode ruir. A cidade russa que ele contamina não entra em colapso por bombas ou batalhas, mas por boatos, intrigas, suspeitas, pequenas humilhações públicas e uma sensação crescente de que ninguém é confiável. É terrorismo em estado embrionário, ainda sem nome, mas já perfeitamente funcional.

Hoje, no Brasil, os demônios não se reúnem em porões. Eles se conectam.

A lógica é idêntica. Apenas mais rápida.

O terrorismo digital não precisa matar para funcionar. Ele precisa cansar. Exaurir. Convencer o cidadão comum de que pensar dá trabalho demais e escolher um lado é suficiente. Dostoiévski já sabia: quando a ideia vira instrumento, a moral vira estorvo.

Stávrôguin, o personagem mais inquietante do livro, não lidera nada. Ele não grita palavras de ordem nem redige manifestos. Ele observa. Seduz. Paira acima do bem e do mal com um tédio elegante. No século XIX, ele era um aristocrata vazio. No Brasil de hoje, ele tem perfil verificado, ironia afiada e um discurso cuidadosamente neutro. Não acredita em nada, mas ajuda tudo a circular. Seu poder não está no que diz, mas no que torna aceitável.

Verkhoviénski, por sua vez, entenderia perfeitamente o funcionamento das redes sociais. Ele não quer convencer o adversário. Quer desorganizar o ambiente. Quer transformar qualquer debate em conflito, qualquer conflito em espetáculo e qualquer espetáculo em medo difuso. No romance, ele diz algo essencial: é preciso espalhar o caos de modo que ninguém saiba mais onde pisa. No feed brasileiro, isso se chama engajamento.

O terrorismo digital opera sem bandeira fixa. Ele muda de lado conforme o algoritmo. Hoje defende a moral, amanhã a transgressão. Hoje clama por ordem, amanhã por ruptura. Não há contradição quando não há convicção. Há apenas fluxo.

Dostoiévski também foi cruel com os intelectuais. Stiepán Trofímovitch, o liberal bem-intencionado, acreditava estar brincando com ideias inofensivas. Achava-se moderno, esclarecido, acima das paixões vulgares. Quando a violência surge, ele se espanta. Não se reconhece como parte do problema. Mas o romance é implacável: ideias têm consequências, mesmo quando ditas com voz mansa e pose civilizada.

No Brasil, esse personagem reaparece no comentarista que relativiza tudo, no analista que explica o ódio sem jamais nomeá-lo como tal, no acadêmico que chama barbárie de “fenômeno social complexo”. Eles não apertam o gatilho, mas ajudam a limpar a cena do crime.

E há a massa. Sempre a massa. Dostoiévski não a despreza; ele a descreve. Ela não pensa mal, pensa pouco. Reage. Repete. Ecoa. No romance, bastam alguns boatos bem colocados para que a cidade inteira se transforme num organismo nervoso. Hoje, bastam alguns prints fora de contexto.

Os demônios brasileiros não são indivíduos específicos. São funções. São papéis que se revezam. O justiceiro digital, o profeta do apocalipse político, o humorista que chama crueldade de piada, o cético que debocha de tudo para não se comprometer com nada. Todos convencidos de que estão combatendo um mal maior, enquanto alimentam exatamente o terreno onde ele prospera.

Os Demônios não é um romance sobre o passado russo. É um livro sobre o que acontece quando a verdade deixa de importar e a destruição passa a ser vista como virtude. Dostoiévski não previu a internet, mas descreveu com precisão assustadora o espírito que hoje a governa.

No fim, talvez a pergunta não seja quem está errado, nem quem tem razão. Dostoiévski era mais cruel do que isso. A pergunta é outra, bem mais incômoda: em que momento deixamos de pensar — e passamos apenas a compartilhar?

14/12/2025

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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