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Contrapágina – Thoreau, Skinner, Orwell e Huxley: Os Quatro Cavalheiros do Apocalipse Moderno

Em meados do século XIX, Henry David Thoreau publicou Walden (1854), relato de sua experiência vivendo por mais de dois anos às margens de um lago, em Concord, tentando reduzir a vida ao essencial para compreender o que realmente importava quando o ruído social era silenciado. Quase um século depois, em 1948, B. F. Skinner lançou Walden Two, um romance-utopia que propunha exatamente o inverso: uma comunidade planejada cientificamente, onde o comportamento humano seria moldado por reforços positivos para eliminar conflitos e maximizar o bem-estar coletivo. Entre esses dois polos surgem duas advertências decisivas do século XX: Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, que imagina uma sociedade controlada pelo prazer, e 1984 (1949), de George Orwell, que expõe o controle exercido pela vigilância, pela dor e pela manipulação da verdade. Quatro livros, quatro projetos de mundo, e uma mesma pergunta atravessando o tempo: até onde uma sociedade pode ir para funcionar antes de deixar de ser humana?

Eu nunca fui morar no lago Walden, embora já tenha sentido, mais de uma vez, a tentação de desaparecer da engrenagem social por alguns anos só para testar se ainda seria possível ouvir a própria voz sem o eco imediato da aprovação ou da indignação alheia. Thoreau foi ao mato porque desconfiava da civilização quando ela começa a se orgulhar demais da própria eficiência. Ele percebeu cedo que o excesso de ocupação não é sinal de vida plena, mas de fuga. Hoje, repetir esse gesto exigiria mais do que isolamento físico; exigiria renunciar à participação compulsória no debate público permanente, esse tribunal emocional que transforma qualquer pensamento em posicionamento e qualquer silêncio em culpa. No Brasil, então, isso equivale quase a um suicídio social: quem não opina não existe, e quem existe precisa escolher um lado antes mesmo de pensar.

Skinner olharia para isso com um sorriso técnico e diria que o problema nunca foi moral, mas operacional. A introspecção de Thoreau é bonita, porém ineficiente; não organiza massas, não reduz conflitos, não garante estabilidade. Walden Two nasce dessa impaciência com a liberdade como risco. É a utopia do ajuste fino: comportamento recompensado, desvios corrigidos, sofrimento tratado como falha de design. No Brasil contemporâneo, essa lógica não aparece com o nome de behaviorismo, mas com palavras mais simpáticas: engajamento, alcance, pertencimento, narrativa correta. Aprende-se rápido o que pode ser dito, o que deve ser dito e, principalmente, o que rende aplauso. Não é preciso censura quando o próprio ambiente ensina, por reforço positivo, qual comportamento garante sobrevivência simbólica.

Huxley entra como o grande cínico elegante da história. Em Admirável Mundo Novo, ele entende que o controle moderno não se sustenta pelo medo, mas pelo conforto. Ninguém precisa ser forçado quando aprende a amar aquilo que o domestica. A felicidade vira política pública, o prazer vira anestesia moral, e qualquer desconforto existencial passa a ser tratado como doença. No Brasil distópico de hoje, não precisamos de soma: temos entretenimento contínuo, escândalos em série, guerras morais diárias e uma indignação que se renova a cada manhã, sempre superficial o suficiente para não virar reflexão. Os livros continuam disponíveis, mas a atenção necessária para lê-los virou um privilégio raro. A tragédia, a ambiguidade e a dúvida profunda passaram a ser vistas como ameaças à saúde mental coletiva.

Orwell, por sua vez, jamais acreditou nessa suavidade eterna. Ele sabia que todo sistema de controle, quando pressionado, revela sua face coercitiva. 1984 não é uma distopia distante; é a descrição do momento em que o poder perde a paciência com a complexidade humana. Quando a linguagem começa a ser reduzida, quando a história passa a ser reescrita em tempo real, quando a verdade deixa de ser algo a ser buscado e passa a ser algo a ser administrado, o terreno está preparado. No Brasil, isso acontece de forma grotesca e simultaneamente banal: fatos viram opinião, opinião vira crime moral, e a memória coletiva é editada conforme a conveniência do dia. Não é preciso um Ministério da Verdade quando milhões fazem esse trabalho de graça, em nome da causa certa.

O ponto de colisão entre Thoreau, Skinner, Huxley e Orwell está aqui, e ele é desconfortável demais para virar slogan: o poder aprendeu a entrar na cabeça antes de precisar entrar na casa. A vigilância não é mais um aparato externo; é uma postura interior. As pessoas se autocorrigem, se autocensuram, se autopunem e se exibem com orgulho, acreditando que isso é consciência política. O Brasil distópico não é uma exceção atrasada; é um laboratório barulhento, emocionalmente instável, onde convivem o prazer de Huxley, o condicionamento de Skinner e o linchamento simbólico que Orwell reconheceria sem esforço.

E aqui não cabe redenção poética. Talvez Thoreau esteja definitivamente derrotado, não porque estava errado, mas porque a sociedade atual tornou sua proposta impraticável. Pensar exige tempo, silêncio e solidão — três coisas vistas hoje como suspeitas. Talvez a liberdade tenha se tornado incompatível com a necessidade contemporânea de pertencimento. Talvez o verdadeiro dissidente não seja o revolucionário profissional, mas o sujeito que se recusa a participar do teatro moral diário, que não transforma tudo em causa, que não confunde barulho com coragem. No Brasil de agora, ser humano no sentido pleno — contraditório, falho, ambíguo — é um risco real.

O futuro não será um campo de concentração nem uma comunidade utópica cercada de flores. Será algo pior: um país funcionando, cheio de gente certa, bem-ajustada, indignada na medida correta e incapaz de perceber que abriu mão da última coisa que não deveria ter terceirizado. Quando a liberdade vira problema, o sistema encontra a solução. E ela nunca passa por perguntar o que você pensa — apenas por garantir que você pense do jeito certo.

25/12/2025

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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