Devastação e Eu (ou a Volta ao Papel Amarelado)

Comprei Devastação (ou a volta à Natureza) ainda em meados da década de 70, pelo Círculo do Livro. Quem viveu aquela época vai entender o ritual: o catálogo chegava pelo correio, um pequeno tesouro de papel brilhante, e a gente passava as tardes folheando suas páginas como quem planeja uma expedição literária. O Círculo do Livro era uma espécie de clube de leitores — algo entre uma livraria por correspondência e uma sociedade secreta para quem acreditava que o mundo ainda cabia dentro das palavras. Você fazia o pedido, esperava ansiosamente algumas semanas, e então o carteiro trazia, embalado em plástico opaco, o volume que transformaria mais um canto da sua estante e da sua cabeça.

Foi assim que Devastação, de René Barjavel, entrou na minha vida. A capa — típica daquelas edições do Círculo — era de um exagero que hoje me encanta: cores saturadas, traços dramáticos, um apelo quase cinematográfico que prometia o apocalipse em letras garrafais. E era exatamente isso que eu procurava. Na juventude, eu já tinha um fascínio confesso por catástrofes. Gostava de imaginar o colapso da civilização, os filmes em que o mundo acabava em fogo, gelo ou silêncio. Quando vi aquele título, soube que não havia volta.

Abri o livro sem saber direito o que me esperava, e encontrei algo muito maior do que um simples romance sobre o fim do mundo. Barjavel, em plena década de 1940, ousou desconfiar do mito do progresso. O enredo é simples: no ano de 2052, o planeta alcança um estágio de desenvolvimento tecnológico quase mágico — carne de laboratório, trens supersônicos, cidades elevadas sobre outras cidades. Até que, de repente, a eletricidade deixa de funcionar. Sem explicação. Sem aviso. O mundo apaga.

O que me impressionou não foi o colapso em si, mas o modo como ele foi descrito. Barjavel tinha o dom de transformar o desastre em beleza, como se a ruína também pudesse ser contemplada com uma certa reverência estética. Ele parecia dizer: “olhem, tudo isso que vocês chamam de civilização é apenas um piscar de luz.” Quando a energia cessa, a barbárie volta — e o homem, despido de suas máquinas e certezas, precisa reaprender a ser humano, ou o que quer que sobre disso.

O livro me marcou por esse olhar de desconfiança, essa crítica quase poética ao conforto tecnológico. E pensar que, quando o li, nem computador pessoal existia. O máximo que tínhamos era o barulho da televisão em preto e branco e o cheiro de ozônio do ventilador ligado nas noites quentes. Ainda assim, a intuição de Barjavel parecia ecoar: bastava cortar o fio invisível da energia, e tudo desabaria.

Anos depois, quando o mundo enfim se tornou parecido com aquele imaginado por ele — com imagens em 3D, cidades verticais e a promessa constante de progresso — percebi que o livro nunca deixou de ser atual. Hoje, com nossas telas e dependências elétricas multiplicadas, a simples ideia de um apagão total causa pânico. Barjavel apenas antecipou a verdade: não somos nada sem o brilho das tomadas.

O fim do romance, confesso, sempre me soou um tanto forçado — essa volta ao campo, esse retorno quase místico à terra. Mas talvez ele apenas estivesse cansado de prever ruínas. Talvez quisesse acreditar, mesmo que por um instante, que o homem ainda pudesse recomeçar do zero, sujo de barro e sem Wi-Fi.

Guardo Devastação até hoje, com suas páginas amareladas e aquele cheiro agridoce de livro antigo que só o tempo fabrica. Às vezes o retiro da estante, passo os dedos sobre o logotipo do Círculo do Livro e lembro daquele tempo em que esperávamos semanas para receber um livro — e, quando ele finalmente chegava, era como se o futuro tivesse batido à porta. Um futuro que, ironicamente, era sobre o fim de tudo.

25/10/2025

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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