Em Dunastra, Baratex, um velho caubói cínico, e José Cat, seu amigo felino guiado pela fé, fogem de uma Terra em colapso moral, social e espiritual durante a quarentena de 2020. Após um confronto com a polícia no deserto do Arizona, os dois são misteriosamente resgatados por uma nave intergaláctica e convidados a integrar a Ordem dos Xerifes Intergalácticos. Entre tiroteios, poesia, memória afetiva e dilemas existenciais, Baratex encontra em um planeta distante a chance de recomeçar, onde ainda é possível distinguir o verso da vingança e dar novo sentido à própria vida.
Último Episódio da 1ª. Temporada
Arizona, 2020. O sol castigava o asfalto, e o calor entrava pela janela do Chevrolet Impala 1968, um sedã grande e imponente, pintado de um verde escuro desbotado, que parecia ter sobrevivido a todos os apocalipses.
Ao volante, estava José Cat. O felino antropomórfico, mesmo quase nos seus sessenta, dirigia com a mesma precisão calma de um monge, os pelos grisalhos começando a aparecer em sua barba e nas laterais do físico de ginasta.
No painel, o rádio tocava “Walk on the Wild Side”, de Lou Reed, misturando o cinismo cool de Nova York com a poeira sufocante do deserto.
Baratex, aos 62 anos, estava com o chapéu surrado na cabeça, as linhas da famosa barba branca mais profundas, refletindo o peso de suas aventuras ao longo das décadas. Ele não fumava dessa vez, por incrível que pudesse parecer. Em vez disso, mordiscava um panino de salamella generoso, feito por José Cat. O lanche típico da Itália consistia em linguiça grelhada, cebolas e um toque de mostarda, uma homenagem simples ao caos delicioso.
Diferente de seus hábitos, Baratex estava silencioso naquele momento. Não havia piadas secas nem comentários irônicos. A sociedade moderna, com seus ritmos frenéticos e sua nova obsessão por telas e futilidades, havia finalmente esgotado o último verso de seu cinismo. Ele parecia um fóssil, um caubói filosófico, deslocado no meio daquele ano de incertezas e ansiedade global.
José Cat o observou de relance, de canto de olho, sem desfocar da direção.
“Você está muito quieto para um homem que acabou de comer metade do meu panino de salamella, Barata”, José Cat começou buscando um caminho suave para o coração do amigo. “O lanche não está bom?”
Baratex limpou a boca com as costas da mão, guardando a metade restante do sanduíche no embrulho de papel.
“Está excelente, Zé. Como sempre. O problema não é o panino”, Baratex disse, a voz rouca. Ele olhou para fora, onde as vastas paisagens do deserto se misturavam à miragem do calor. “O problema é o mundo lá fora. Ele ficou… raso.”
Ele suspirou, um som de desgaste. “Nada é como era antes. Lembra quando éramos jovens, e o perigo era algum mafioso filho da puta ou até mesmo algo atípico, como um robô ou uma planta mutante? Era tudo muito claro. Agora, o perigo é invisível, a desculpa é invisível, e tudo é superficial. A vida virou uma timeline onde todos falam rápido, mas não dizem nada. A profundidade foi substituída pela velocidade, e eu sou muito velho para essa dança.”
José Cat assentiu. “O mundo é uma construção humana, Barata, e sim, ela falha. Mas existe uma fundação que não muda, nem com pandemia, nem com o tempo.”
José Cat apertou levemente o volante e começou a pregar com a convicção tranquila que Baratex tanto apreciava, mas nunca aceitava.
“O mundo pode mudar, mas a promessa de Jesus Cristo permanece. A Palavra de Deus e o Evangelho são a única âncora que nos protege dessa superficialidade que você odeia, Barata. É a única coisa que não é falsa e não envelhece.”
Baratex sorriu de canto, um sorriso genuíno, mas cansado. “Você nunca muda, Zé. Nunca. É por isso que você é meu melhor amigo. Você é a minha última certeza, o bom e velho José Cat, daquele jeito. O mundo pode ser uma confusão moderna, mas você é o único pedaço de clássico que me resta.”
“Eu me preocupo com o meu amigo, Barata. O tempo está passando para ambos, e já não somos aqueles jovens idealistas. Estou preocupado com o destino da sua alma quando a aventura finalmente acabar.”
Antes que Baratex pudesse rebater o sermão com uma nova linha cínica, José Cat observou pelo retrovisor.
“Temos companhia”, o felino murmurou.
Uma viatura da polícia americana, com as luzes de LED frias e modernas piscando, se aproximava rapidamente. O contraste entre o Impala de 68 e o carro da lei era gritante: o passado contra o presente.
José Cat logo percebeu a razão. Eles estavam em uma área remota, sim, mas ainda sob uma rigorosa quarentena contra a recente epidemia.
O felino encostou o carro na lateral da estrada. José Cat resmungou: “Deveríamos ter ficado no Brasil.”
“Iria ser a mesma merda, ou até pior”, Baratex rebateu a afirmação do amigo.
A viatura parou logo atrás. Dois policiais saíram. Um deles, com uma máscara cobrindo o rosto, se dirigiu a José Cat e pediu a habilitação, que o felino exibiu tranquilamente.
“Não precisamos dizer que os dois estão rompendo a quarentena e circulando sem motivo essencial. Pra piorar, ainda estão sem máscaras”, disse o policial.
José Cat tentou uma justificativa criativa. “Ora, estamos apenas dentro de um carro, em uma estrada, apreciando as obras de Deus.”
O outro policial, grande e ostensivo, que estava no lado de Baratex, ignorou a justificativa. “Saia do carro, senhor. Mãos onde eu possa ver.”
“Minhas juntas doem, policial”, Baratex disse, com a ironia gasta. “Acho que vou ficar aqui mesmo, se não se importa.”
O policial cerrou os dentes, ameaçando. “Não vou solicitar de novo.”
Contrariado, Baratex abriu a porta, saindo devagar. Ele olhou para o policial com uma expressão de total desinteresse.
“Você gostaria de um panino de salamella? Ajuda a acalmar os nervos”, Baratex ofereceu.
O policial ignorou o sanduíche e começou a revistar Baratex. A mão do agente parou no coldre improvisado. “O que é isso?”
“Meu bom e velho revólver. Para acalmar os bandidos”, Baratex respondeu.
Em um movimento que desmentia suas “juntas doloridas”, Baratex golpeou o policial no rosto com o panino de salamella. A força do pão e da linguiça, somada ao choque da surpresa, fez o agente cambalear atordoado.
O policial que estava ao lado de José Cat sacou uma pistola. Baratex foi mais rápido. Ele sacou seu revólver e atirou de forma precisa, não no policial, mas na pistola, que voou da mão do agente.
“Não nos sigam”, Baratex disse, a voz agora fria e séria, sem ironia. Ele entrou novamente no veículo.
José Cat acelerou o Impala, fazendo o carro clássico cantar pneus na poeira do Arizona.
“Barata! Por que diabos você atacou a polícia?!” José Cat resmungou, observando os policiais atordoados no retrovisor.
“Calma, Zé! Eu jamais mataria policiais”, Baratex disse, recarregando seu revólver com a calma de um relojoeiro. “Mas também não serei preso por uma porra de ‘fraudemia’. Eu estou cansado, Zé. Estou cansado da sociedade me dizer o que é certo e o que é errado, quando o certo e o errado deles é apenas conveniência.”
Ele guardou a arma. A desilusão havia virado anarquia. “Seremos caçados pelos quatro cantos dos Estados Unidos, homem! Atacamos agentes da lei!” José Cat estava tenso.
José Cat dirigiu o Impala 68 por mais vinte minutos, ziguezagueando por estradas secundárias até encontrar um motel decadente, com o neon piscando em vermelho e azul, chamado The Last Stop. Eles alugaram um quarto no andar térreo e se trancaram.
O Impala estava escondido atrás de um arbusto murcho. A atmosfera no quarto, com o cheiro de cloro e tapete sujo, era sufocante e contrastava com a vastidão do deserto lá fora.
José Cat andava de um lado para o outro, passando as mãos felpudas no rosto com frustração.
“Você está satisfeito, Barata? Extremamente satisfeito, imagino!” José Cat esbravejou, a calma monástica quebrada. “Eu não estou preocupado com a sua alma agora, estou preocupado com a sua liberdade. Aliás, a nossa. Atacamos agentes da lei e estamos sob quarentena. Vamos ser presos! Vamos apodrecer em uma prisão federal por causa de sua impulsividade!”
Baratex, recostado na única poltrona do quarto, acendeu um paieiro. Ele estava calmo, mas o olhar era de desinteresse total pelo destino.
“Você não parece mais o jovem felino idealista e otimista, Zé”, Baratex rebateu, soltando a fumaça lentamente. “Aonde foi parar a sua fé inabalável de que tudo daria certo?”
José Cat parou, as garras retraídas, o raciocínio afiado retornando.
“Você é incoerente, Barata! Você me cobra otimismo enquanto está visivelmente desconectado, esgotado com o mundo! Você se tornou um velho ainda mais rabugento que reclama da novidade, mas não oferece solução. É fácil ser otimista quando se acredita que a humanidade tem salvação. O meu otimismo não é para a Terra, mas para a minha próxima morada: o Céu.”
A acusação acertou Baratex. Ele se levantou, caminhando até a janela e olhando para a piscina vazia do motel. A sua desilusão era um buraco negro de raiva silenciosa.
“Eu sou rabugento? Você está sempre sério, Zé! Tu não move um mísero músculo para sorrir, Frajola, e vem me falar que eu sou o rabugento?”
“Acha que a vida é um filme de comédia, Barata? Acha que é uma brincadeira de criança?” José Cat cruzou os braços.
“Acho, sim. É tudo uma porra de comédia. Aliás, é tudo uma piada de péssimo gosto. O problema é que não há mais profundidade, Zé. É tudo plástico, rápido e estúpido. As redes sociais viraram um antro de futilidade, onde jovens consomem dancinhas e memes esdrúxulos”, Baratex esbravejou. “Onde está o interesse na leitura para a expansão do senso crítico? No desenvolvimento de uma cultura coesa? Não há! Há apenas consumo e imbecilidade.”
Ele apontou para o Impala escondido. “E enquanto o gado está entretido com a própria imagem, os poderosos definem os rumos da humanidade, controlando o medo, ditando a narrativa. Essa ‘fraudemia’, por exemplo, é apenas o álibi perfeito para o controle total, para definir quem é essencial e quem é descartável.”
José Cat suspirou, pegando sua Bíblia. Ele havia antecipado esse sermão por décadas.
“Você está certo sobre a superficialidade, Barata. Mas é aí que está o seu erro. Eu sempre estive tranquilo em relação a tudo isso, porque a Bíblia previu esses fatos. O Apocalipse não é uma surpresa, é uma garantia. O foco de um cristão é o galardão no Céu, não a felicidade terrena. Uma mudança na civilização é impossível, Barata. Estamos fadados a perecer em decorrência de nossa natureza pecaminosa.”
Baratex ia responder, pronto para refutar a predestinação fatalista de seu amigo com uma explosão de anarquia libertária, mas o debate foi brutalmente interrompido.
Um som grave, que parecia vir de dentro da terra, começou a crescer.
WHOMP-WHOMP-WHOMP-WHOMP!
O som de um helicóptero de patrulha. Não era um helicóptero de notícias, mas de caça. Junto ao som aéreo, veio o uivo agudo e crescente de sirenes vindo de ambas as direções da estrada. A vibração do helicóptero era tão forte que a vidraça da janela do motel começou a tremer. Baratex e José Cat se entreolharam. O debate sobre a superficialidade e o destino da alma havia acabado. Eles estavam cercados.
O som dos helicópteros e das sirenes transformava o quarto de motel em uma gaiola de metal. A luz vermelha e azul que entrava pelas frestas da janela dançava no rosto da dupla, pintando um cenário de derrota.
Baratex, no entanto, agia com a calma de quem já aceitou o fracasso. Ele abriu o tambor de seu velho revólver e conferiu mais uma vez as munições, girando-o com cuidado de ourives.
José Cat o encarou, a testa franzida.
“Você vai fazer o quê, Barata? Ficar aí, parecendo Tex Willer, enquanto somos levados presos? Olhe para fora! Somos dois veteranos em um quarto barato, cercados por um batalhão que foi ofendido por um lanche italiano. Ironizar a própria prisão já é demais, até para você.”
Baratex fuzilou José Cat com o olhar.
“O mundo está tão oco, Zé…”, Baratex disse, com a voz baixa e carregada de decepção, “que até mesmo o bom e velho José Cat, o felino que se atirava em cima de robôs gigantes, não acredita mais que somos capazes de sair dessa situação como nos velhos tempos.”
“Os tempos mudaram, Barata! Agora é hora de ser honesto, não filosófico. O certo é nos entregarmos e pagarmos pelo que fizemos”, José Cat disse, apontando para a janela.
Baratex fechou o tambor do revólver com um clique final. A decisão estava tomada.
“Não. Você não tem nada com isso. Quem atacou os policiais fui eu. Se tem que haver rendição, eu a farei sozinho. Você pega o Impala, e me esquece. Você merece o seu ‘Céu’.”
Antes que Baratex pudesse avançar, a luz da sirene no quarto foi engolida por uma luz azulada e intensa, que irrompeu do teto e das paredes do cômodo. Não era uma lanterna, mas uma energia silenciosa, total, que fez a pele de ambos formigar. A luz se tornou um casulo, um vácuo de cor.
O helicóptero no ar silenciou. As sirenes pararam. Baratex e José Cat desapareceram do quarto de motel.
Quando os policiais arrombaram a porta, o quarto estava vazio, exceto pelo cheiro de fumo de rolo e um sanduíche de linguiça no chão.
A cena mudou para um breu absoluto. Um total vazio, escuro e sem som ambiente.
Nesse vácuo, a mente de Baratex começou a tocar a sua própria canção de funeral. “A Balada do Perdedor”, de Marcelo Nova, ecoava no ar, grave e melancólica. Não era apenas a música em si, mas a voz da sua alma, celebrando anos de peripécias, fugas, ironias e amores perdidos.
Baratex se sentiu cair, não no espaço, mas no seu próprio passado. De repente, a escuridão foi rasgada. Baratex sentiu a textura áspera da grama sob suas mãos. Ele abriu os olhos. Ele estava em um campo florido, vasto e pacífico, sob um belo céu azul que parecia mais limpo do que qualquer céu terrestre. O ar era puro. Ele se levantou, cambaleando. José Cat não estava ali. Ele estava sozinho.
A poucos metros, ele avistou uma casinha humilde, de madeira branca, com janelas de onde emanava uma luz quente, convidativa. O aroma de café fresco adentrou suas narinas, um cheiro tão específico de conforto e segurança que era quase uma agressão.
Baratex se aproximou devagar, desconfiado. Ele estava com seu coldre vazio.
Uma voz doce, quase divina, ecoou na mente de Baratex, como se fosse um pensamento que não era seu.
“Bem-vindo. Aqui ela reinventa o tempo e transforma lembrança em milagre. Senta, pega um café… e deixa ela te contar.”
“Ela? Não… Não é possível”, pensou Baratex, sentindo seu corpo inteiro arrepiar. A voz era familiar, mas pertencia a um tempo que era perene em sua alma. Seria possível?
O caubói filosófico, com o coração na garganta, abriu a porta de madeira da casinha lentamente.
No centro da sala, estava a fonte daquele cheiro e daquela luz. Sentada em uma cadeira de balanço, sorrindo e mexendo uma xícara, estava uma senhora: o rosto marcado pela sabedoria e pelo tempo, mas os olhos brilhando com uma vitalidade que só o amor pode sustentar. Ela usava um vestido simples e florido, e a sua presença era o conforto sólido que Baratex nunca permitiu ter.
Ela disse, com a voz que ele sonhava em esquecer: “Você demorou.”
“Vó Izaura?!” Baratex ficou pálido de perplexidade, a última barreira de seu cinismo desmoronando diante do maior milagre de sua vida.
O cheiro de café na casinha de Vó Izaura era o cheiro da infância, da verdade inegável. Baratex estava pálido, incrédulo diante da senhora que representava o único ponto final seguro em seu passado.
Vó Izaura o convidou a sentar-se na cadeira à sua frente.
“Sente-se, menino. Vai ficar em pé o tempo inteiro? Este cansaço que você carrega não é de velho, é de quem parou de escrever”, ela disse, sem perguntar sobre a perseguição no Arizona ou o vírus que assolava o mundo. Ela serviu o café forte e doce, do jeito que ele gostava quando era o pequeno Baratinha.
“Eu não perdi o verso, Vó Izaura. Eu perdi a fé de que ele importa. O mundo virou uma farsa, e a minha ironia não é mais suficiente”, Baratex confessou, a voz embargada pela emoção reprimida.
Vó Izaura sorriu, um sorriso que iluminava a sala humilde.
“O mundo é feito de ciclos, meu filho. O calor vem, a chuva lava e o deserto floresce de novo. A decadência da Terra não é o seu fracasso, é o convite para um novo começo. O seu cansaço é só o medo de que, desta vez, você tenha que escrever a história inteira, sem fugir no meio.”
Ela pegou a mão dele, sua pele macia e enrugada contra a dele, calejada.
“Lembre-se do que eu sempre te disse: o sangue seca, o vinho evapora, mas o verso… o verso nunca morre. A sua poesia é a sua bússola moral. Se a Terra perdeu o valor da sua luta, então você precisa encontrar um lugar onde o verso ainda valha a pena ser escrito. Não confunda cansaço com o fim, menino. Você está apenas trocando de palco.”
As palavras de Vó Izaura eram como um bálsamo. O medo e o cinismo que haviam consumido Baratex derreteram. Ele a abraçou com a força de um homem que se agarra ao único ponto de luz na escuridão. Sentiu a paz que ele havia rejeitado por décadas.
O abraço foi quebrado por um ruído estridente, um alarme ensurdecedor. O campo florido, a casinha, o cheiro de café — tudo começou a vibrar e a se desintegrar em partículas de luz brilhante. A memória estava sendo rasgada.
Baratex gritou, não de medo, mas de perda.
Ele acordou de volta ao breu. Ele estava em uma sala cilíndrica, de paredes metálicas escuras, mas iluminada por painéis de controle verdes e azuis que pareciam escritos em uma língua antiga e galáctica. José Cat estava ao seu lado, deitado em uma maca acolchoada, a respiração pesada, mas aliviada.
“Finalmente você acordou, Barata!” José Cat tentou se levantar.
Antes que Baratex pudesse responder, uma figura se materializou na sua frente, como uma assombração repentina.
Era Miquitex. O “Cão Xerife” era um Beagle antropomórfico de porte médio, com o pelo cor de caramelo e orelhas caídas, mas a postura era de autoridade. Ele usava um traje de xerife clássico: um chapéu de feltro de aba larga, um colete de couro e um distintivo que parecia esculpido em um meteoro. Ele era um caubói ambulante no meio de uma tecnologia de dobra espacial.
“Desculpe o susto, Baratex!” Miquitex então fitou José Cat. “E me desculpe, José Cat! Na verdade, eu pouco me lixo para gatos. Todo gato costuma ser mau caráter. Mas, como tu és parceiro do lendário Baratex, vou te dar um desconto.”
“Quem é você, criatura do demônio?” José Cat se ergueu, com os músculos pulsando.
“Alto lá, felino!” Miquitex pôs a mão em seu coldre. “Os gatos e sua mania feia de taxar os outros de coisa ruim…”
“Ei! O que está acontecendo aqui? Quem é você? Onde estamos? Como nos conhece?” Baratex interviu, encarando Miquitex.
“Eu sou Miquitex. Represento a Ordem dos Xerifes Intergalácticos. E esta nave, a Caminho do Verso, é nossa unidade de resgate e recrutamento”, Miquitex explicou, pegando um mapa estelar holográfico que pairou no ar.
“Nossa missão é manter a lei e a ordem em colônias de fronteira que valorizam a justiça. Onde a civilização falhou, nós criamos o nosso próprio western.”
Ele apontou para um ponto no mapa estelar. Dunastra.
“Sei que está cansado da Terra, Baratex. Acha que não sei? Mas fique tranquilo, pois Dunastra é um planeta onde as regras ainda são claras. A ordem é ameaçada por bandoleiros, tempestades de areia viva e pelo caos interdimensional que a decadência da velha galáxia insiste em mandar para nós.”
Miquitex olhou nos olhos de Baratex.
“Recentemente, perdemos nosso xerife para um criminoso local. E Dunastra precisa de um caubói à moda antiga, Baratex. Não de um intelectual cansado. Precisa de alguém que saiba a diferença entre o verso e a vingança, e que ainda acredite que a luta vale a pena. O que a Terra perdeu no seu cinismo, Dunastra precisa reencontrar na sua honestidade bruta.”
Baratex jogou o chapéu de volta na cabeça. A memória de Vó Izaura e o cheiro do café haviam feito a sua escolha.
“Poesia e balas. Gosto disso”, Baratex disse, o sorriso voltando.
“Parece que suas preces foram ouvidas, Barata. Fomos salvos pelo gongo justamente com a oportunidade que você queria de dar um ‘reset’ em sua vida”, José Cat comentou.
“É conveniente demais? Ô, se é… Mas, Zé, veja bem… Todas as nossas aventuras até aqui foram versos insanos”, disse o velho caubói filosófico.
“Não vou com a cara desse cachorro, mas sinto que ele é sincero. É desagradável dizer isso, mas é a realidade”, José Cat cruzou os braços.
“O sentimento é recíproco, felino”, Miquitex ajustou seu chapéu e cuspiu no chão.
“Gostaram do teletransportador?” Miquitex perguntou à dupla, a voz calma, apontando para um painel vibrante. “Tive que usar o teletransporte quântico para tirá-los daquele motel no Arizona antes que o FBI assumisse a jurisdição do caso. Tive que violar uns cinco protocolos, mas valeu a pena.”
Baratex estava eufórico com a afirmação de Miquitex.
“Teletransporte quântico? Tipo Star Trek? Ha! ‘Beam me up, Scottie!’”, Baratex disse, citando a célebre frase do Capitão Kirk. “Você é um homem de cultura, Miquitex. Ou seria… um cão de cultura?”
José Cat, apesar de aliviado pela fuga, olhou para Miquitex com ceticismo cristão.
“Dunastra, hein? Vamos ver no que dá. Eu sou um sujeito desapegado. Todo esse universo é matéria e, logo, fadado à iminente inexistência. O Reino de Deus, minha futura morada, é eterno. Sendo assim, estarei ao lado do Barata nessa empreitada.”
“Opa! Voltou a se animar, Zé? Gostei de ver!” Baratex deu tapinhas no ombro largo do felino antropomórfico.
“Aceita ser o novo xerife de Dunastra, Baratex?” Miquitex então perguntou ao velho caubói filosófico.
“Preciso dizer que sim? Achei que já tinha notado minha reação óbvia, totó”, Baratex respondeu, irônico.
Miquitex deu de ombros caninos, sorrindo. “Ok então. Bem-vindo à Ordem dos Xerifes Intergalácticos!”
O trio, agora uma equipe improvável, sentou-se na área de comando. A Caminho do Verso acelerou, deixando o Sistema Solar para trás. Baratex olhou para a Terra, um ponto azul e insignificante, sentindo que, pela primeira vez em décadas, ele não estava fugindo, mas sim indo para casa.
“Que a Terra lhes sejas leve”, Baratex disse, olhando para o espaço infinito.
Vinícius Pereira , Nova Iguaçú, RJ, já teve vários perfis em sites de fanfics. Após um longo hiato, por intermédio do destino (ou o que quer que prefira definir), ele retorna à escrita com a série de contos das aventuras do Baratex, figura que homenageia o grande Barata Cichetto.


Baratex – Lendas de Um Velho Caubói Filosófico (Temporada 1)
Autor: Vinícius Pereira
Editora: Selo Lâmina 44
Gênero: Contos
Ano: 2026
Páginas: 232
Tamanho: 15 X 21 X 1,25 cm.
Impressão: Papel Offset 90g
Impressão: PB
Capa Cartonada, Laminado Fosco
Arte de Capa: Eduardo Schloesser (Colorido por Louis Mello)
Posfácio: Adriana Avelino (Drigo)











Sensacional e belamente escrito! Um final digno de primeira temporada sem esquecer o velho clichê que aponta para uma segunda fase. Nota 10. Mas a cereja do bolo foi a participação de da Vó Isaura, me emocionei pois aqui do meu lado eu imaginei minha mãe.
Que venha a segunda temporada para ver o que vão aprontar em Dunastra.
O Vinicius pegou no ar a participação da Vó. Nesse momento, não deu pra segurar. E tem vários ganchos soltos aí, preparando a segunda temporada.