Sempre que volto a A Invenção de Hugo Cabret, seja ao livro silencioso, seja ao filme grandioso de Scorsese, tenho a sensação de adentrar novamente uma estação que existe menos em Paris e mais em mim. Uma estação onde o tempo range, a infância se esconde atrás de engrenagens empoeiradas e o cinema respira como um velho autômato que teima em não morrer. O menino Hugo — órfão, relojoeiro improvisado, clandestino do tempo — caminha como quem tenta ajustar o próprio mundo, apertando parafusos na esperança de que alguma coisa finalmente faça sentido.
No livro de Brian Selznick, tudo parece desenhado a lápis com mãos de criança: um híbrido de romance e storyboard, como se a literatura tentasse imitar a mecânica da imagem. Já o filme de Scorsese faz o movimento inverso: transforma imagens em lembranças, luz em afeto, e a história vira uma espécie de abraço tardio ao cinema que formou o próprio diretor. Selznick nos dá o esboço; Scorsese, a sala escura onde o esboço ganha alma.
Revendo o filme, percebo que Scorsese não filmou apenas a jornada de um menino, mas sua própria saudade — aquela saudade que só quem respira cinema desde o berço consegue traduzir em 3D sem soar artificial. Cada engrenagem da Gare Montparnasse é filmada como um batimento cardíaco velho, insistente. Cada sombra parece ter pertencido um dia a Méliès, antes que o mundo se esquecesse de que a imaginação já foi uma força revolucionária. E é Hugo, paradoxalmente o mais frágil de todos, quem decide que ninguém deveria terminar enferrujado no depósito da história.
Comparado ao filme, o texto de Selznick é mais contemplativo, mais silencioso — como se as páginas fossem degraus de madeira rangendo sob nossos pés. Já Scorsese transforma a mesma história numa celebração do ofício: máquinas, magos, truques, feridas, tudo é matéria viva. Mas em ambas as versões, há sempre essa pergunta pairando como vapor de trem: qual é o nosso propósito quando o mundo parece seguir sem precisar de nós?
Hugo acha que máquinas ficam tristes quando não cumprem seu propósito. Talvez por isso eu pense que esse garoto é, no fundo, uma engrenagem que insiste em girar num sistema que não o deseja — como tantos de nós, tentando desesperadamente não sermos peças sobrando.
E então vem Méliès, quebrado, esquecido, dono de um passado que o cinema moderno quase deixou para trás. A aparição dele tanto no livro quanto no filme é o lembrete de que até os maiores inventores de sonhos precisam ser resgatados. E que a memória, quando relegada ao sótão, não é apenas poeira: é uma forma de morte.
Penso em tudo isso e percebo o quanto o Brasil de hoje também vive de máquinas que deixamos parar — não de latão, mas de instituições. Nossa democracia, esse relógio sempre perto de atrasar, parece mantida por crianças invisíveis que, como Hugo, apertam parafusos enquanto os adultos fingem que está tudo funcionando. Vivemos sob uma ditadura de togas em que ministros investigam, julgam, acusam e punem, acumulando funções como se fossem autômatos programados por si mesmos. Basta lembrar o episódio em que o mesmo ministro do STF abriu investigação de ofício para apurar “fake news”, atuando como vítima, investigador e julgador em causa própria. Méliès teve seus filmes queimados; nós temos princípios inteiros sendo derretidos para alimentar o trem que nunca para. E, ainda assim, seguimos — talvez por teimosia, talvez por esperança — tentando descobrir qual engrenagem ainda falta para que a história volte a andar sem ranger.
24/11/2025
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
