Fiat Lux em Terra de Apagões

Há pelo menos 25 anos caminho pelos bastidores, salões, calçadas e porões da arte brasileira. E, nesse tempo, vi mais talentos surgirem nesse país do que caberiam numa Bienal inteira — se a Bienal ainda fosse sobre arte e não sobre o catálogo das obsessões ideológicas da vez. E quando digo “talentos”, falo daqueles artistas que, se tivessem nascido sob o frio europeu ou sob a fumaça americana, estariam hoje recolhendo prêmios, contratos, convites para festivais, traduções e cheques suficientes para viver vida longa, próspera e sem pedir autorização ao Estado para comprar tinta.

Mas aqui? Aqui o rito é outro. Aqui o espetáculo é a destruição silenciosa das obras, o ostracismo sutil (e às vezes nem tão sutil) de quem ousa não ajoelhar para o altar do establishment cultural esquerdista. E o mais curioso — ou trágico — é que nessa ruptura ideológica onde gritam vencedores e vencidos, os ganhadores são sempre os mesmos que a criaram. Os donos da linguagem, das pautas, dos editais, dos palcos, das estantes. E eu, que escolhi — veja só a ousadia — ficar no lado oposto, acabo colaborando involuntariamente com a implosão geral: pois quando um lado censura e o outro silencia, quem perde? Todos, sem dúvidas.

É nesse cenário que surge Áureo Alessandri Neto — engenheiro ferroviário, guitarrista de bandas como Blues Riders, Delta Crucis e La Societá, e escritor. Um artista daqueles que, se tivesse nascido em Utah ou Barcelona, estaria agora rindo no topo do pódio, com seu nome ecoando entre críticos, livreiros e nerds apaixonados por ficção científica. Mas nasceu aqui, o que automaticamente rebaixa qualquer milagre artístico ao nível de “curiosidade regional”.

E basta mencionar que o romance dele — Conspiração Andron — é de ficção científica para ver um ou outro franzir o nariz como quem vê um boto cor-de-rosa tentando pilotar um foguete. Porque sejamos francos: quantos brasileiros realmente leem ficção científica nacional? Quantos nomes você consegue dizer sem consultar a Wikipédia? Eu espero sua resposta até o próximo ano. E já sei: será curta.

Áureo começa pelo prefácio, e já começa diferente: ele próprio escreve, recusando o elogio confortável e terceirizado que tantos autores mendigam a um amigo famoso ou a um crítico pago. Em vez disso, toma o touro pelos chifres e diz: o problema não é a ficção científica, é que o Brasil lê pouco — muito pouco. E, ainda assim, ele insiste. Movido por quê? Por paixão ao Rock, à literatura, ao universo. Por essa teimosia tão típica de artistas verdadeiros, que continuam criando mesmo sem plateia, mesmo sem aplauso, mesmo sem perspectiva de nada além da própria honestidade.

Conspiração Andron é uma obra que mistura Sci-Fi, drama, suspense, humor e aventura, costurando teorias da conspiração, geopolítica, segredos militares e mistério em uma narrativa cinematográfica, cheia de reviravoltas, capítulos curtos e ritmo afiado. É como ler Agatha Christie dentro de um laboratório subterrâneo no Novo México, enquanto um portal espaço-temporal ruge atrás da porta blindada.

Capa do Último Disco da Banda Blues Riders, 2017

E Áureo não brinca em serviço: citações em latim (“Fiat Lux Erga Omnes”), referências científicas rigorosas, explicações claras de conceitos como Bóson de Higgs e espaço-tempo, tudo narrado com elegância, sem a arrogância pedante tão comum entre quem decora palavras difíceis para esconder a ausência de conteúdo.

Mas o grande charme, para mim, está nos personagens: cientistas com dramas reais, conflitos humanos, fragilidades — gente de carne, não avatares de laboratório. Paul Judd, Robert Henderson, Archibald Taylor, Christine Murray… todos habitam essa fronteira da ficção que insiste em parecer realidade. E sim, alguém sempre reclamará que os nomes não são “brasileiros”. Eu pergunto: quem acreditaria num thriller científico protagonizado por Roberto da Silva em um bunker no subsolo da Caatinga? A verossimilhança tem suas exigências.

Terminei o livro com a sensação rara de ter assistido a um filme. E que filme! Daqueles que Christopher Nolan olharia com interesse. Não sei se Áureo pensou nisso ao escrever, mas a estrutura — capítulos curtos, ambientação precisa, tempo elástico, tensão crescente — grita “roteiro adaptável”.

Se fosse publicado em inglês, talvez já estivesse nas mãos certas. Talvez já teria seu caminho rumo a outros horizontes, daqueles onde as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá e onde arte é honra, não moeda política.

Porque aqui seguimos na sina de enterrar nossos melhores. Seguimos sabotando quem faz, enquanto premiamos quem se curva. Seguimos trocando Mérito por Militância, e Talento por Teses. E quando um país insiste em exilar seus artistas — pela indiferença, pelo partidarismo, ou pela simples burrice — ele cava a própria cova cultural.

Sonho com o dia, que não verei, em que artistas como Áureo Alessandri Neto e tantos outros possam ser celebrados além deste cemitério de promessas. Se não aqui, que seja em outras terras, onde a arte é tratada como patrimônio, não como ferramenta ideológica.

Foto: Facebook de Áureo Alessandri

Até lá, resta acender pequenas luzes.

Ou, como diria aquele latim que Áureo gosta tanto:

Fiat lux erga omnes.

Que haja luz sobre todos — inclusive sobre os que insistem em apagar as outras.

15/11/2025

Barata e Conspiração Andron

Conspiração Andron
Áureo Alessandri Neto
Chiado Editora; Maio 2017
Idioma ‏ : ‎ Português
308 Páginas
14 x 3 x 22 Cm
Comprar (Amazon)

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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