Arte: Vinícius Pereira

O Evangelho Segundo José

Um detalhe que preciso declinar sobre o conto “O Evangelho Segundo José”, o Vinícius tinha me pedido algumas sugestões sobre temas. Sugeri que ele fizesse algo que envolvesse “Western Spaghetti”, e partindo desse princípio, coloquei a ideia baseada em que o último “Bang bang italiano” saiu em 1987, e era “Django 2”. Na trama, após isso, Baratex seria convidado para estrelar “Django 3”, mas na verdade era uma cilada para capturarem José Cat. Pensei aí em incluir um encontro (seria uma homenagem) com o Tex ou com seu criador, fazendo uma espécie de crossover. Vinícius foi muito além e colocou, além do próprio Bonelli, a presença de Tex Willer, em carne e osso (ou seria em tinta e papel?). Todo esse enredo, com certeza, é uma homenagem ao meu amigo Eduardo Schloesser, e é altamente emocionante. Um daqueles em que quase (é… quase…rs) me arrancaram lágrimas. Esse conto foi publicado no BarataVerso no dia do aniversário do Schloesser, 5 de Dezembro, e, de longe, o que mais me deixou emocionado. 
BC, 05/12/2025

Em 1999, após um ano de retiro espiritual em Jaboatão dos Guararapes, o felino antropomórfico José Cat é chamado de volta ao caos: Baratex, seu amigo e poeta errante, desapareceu. O alerta vem do Doutor Sócrates, que revela que Baratex foi levado a Roma por produtores italianos para estrelar um suposto “Spaghetti do Novo Milênio” — e, desde então, silenciou.

Movido por fé, lealdade e um amor fraternal que carrega ecos de Davi e Jônatas, José cruza o Brasil e aceita a ajuda financeira do Doutor. Já em Roma, decide convocar uma força improvável: Tex Willer, o ranger mítico que inspirou Baratex. A aparição de Tex na Ponte Cestio sela o pacto heroico.

Juntos, José Cat e Tex seguem o rastro do produtor Alessandro Doria, mergulhando num estúdio clandestino nos arredores de Cinecittà, onde acreditam que Baratex está sendo usado como matéria-prima para uma tragédia maior do que qualquer western. É o início de uma missão que mistura fé, pólvora, poesia e lealdade absoluta.

O ar era uma toalha quente e úmida, pesando nos ombros de quem ousava respirar. Em Jaboatão dos Guararapes, 1999, o calor não vinha do asfalto, mas da alma. Era o cheiro de maresia e resina, de peixe frito e do conceito de Ordem que José Cat, o felino antropomórfico, tentava construir tijolo por tijolo no interior de sua alma nobre.

Havia um ano que ele não via Baratex. Um ano de sabatical espiritual.

O ateliê de José Cat ficava nos fundos de um casarão antigo, perto da praia de Piedade. Embora fosse um ateliê de arte e uma gráfica de pequeno porte, a área era um refúgio para o felino. As máquinas roncavam em ritmo lento: a impressora offset parecia tossir a cada rodada de tinta, e a mesa de luz exalava um calor abafado. José Cat, de macacão azul e um lápis atrás da orelha pontuda, estava debruçado sobre um manual de desenho, revisando ilustrações de anatomia humana. Seus músculos podiam ter sido forjados em um ringue, mas sua mente buscava a paz do trabalho artístico.

“Preciso de um retiro, meu amigo,” José Cat havia dito ao caubói filosófico, antes de pegar o ônibus rumo ao Nordeste. “Devo me conectar mais com o Senhor.”

Baratex, à beira da rodovia, apenas exibiu o sorriso torto e fumacento que precedia todas as tragédias. “Você precisa de um ano para sentir falta da poesia ruim, Zé. Mas te entendo, meu irmão. Vá na fé. Até breve.”

José Cat acenou em concordância, com um sorriso sereno. Ele se isolou em Jaboatão, no refúgio para a busca por estabilidade interna, que incluíam a fé, a arte, o ensino e a labuta longe do centrão. Ele passou a cozinhar, se aperfeiçoando em inúmeras receitas, além de ler a Bíblia e orar rigorosamente todos os dias. Sua Bíblia de capa de couro puída era sua companhia constante.

Em um belo dia, enquanto o ronco da offset era ritmado, o cheiro de tinta e papel estava impregnado em sua pelagem cinza. José Cat sentiu uma pontada de orgulho. Finalmente, ele se sentia mais leve, mais pertencido. Não. Parte de sua alma sabia que era uma mentira. Havia um vão, uma fissura, um oco… Baratex, o lado oposto da moeda.

Nisso, o telefone tocou. Era um toque estridente, vindo de uma linha analógica, um som que quebrava o silêncio de seu momento de redenção como um tijolo atirado pela janela de um templo. José Cat limpou as mãos cheias de grafite na calça e atendeu, com o pressentimento pesando mais que o ar quente de Pernambuco.
“Alô.”

A voz do outro lado era inconfundível. Grave, calma, mas com uma nota de preocupação que era mais rara que um milagre.
“Zé Cat. Sou eu. Sócrates.”

José Cat cerrou os dentes afiados. O Doutor Sócrates. O próprio. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Aquele que, quinze anos antes, em Florença, quando vestia a camisa da Fiorentina, os ajudou em um caso envolvendo uma sedutora sergipana que havia fisgado o coração de Baratex.
“Doutor Sócrates. Pensei que estivesse em algum campo de batalha filosófico,” José Cat respondeu, mantendo a voz uniforme.
“Estou em Cabo Frio, Zé. Rio de Janeiro. Cá estou tentando mais uma vez aplicar a democracia ao futebol, só que, dessa vez, na beira do campo,” Sócrates replicou, a ironia sutil de sempre. “Mas o campo de batalha, desta vez, é outro. É sobre nosso bom e velho poeta, e um tipo de desordem que nem mesmo eu consigo entender.”

O coração de José Cat deu um salto que nem sua anatomia felina conseguia justificar.
“Baratex. O que aconteceu?”
“Ele não liga há dois meses. E isso é ruim, José. Baratex pode ser um caubói sujo e melancólico, mas ele é fiel à reticência. Ele sempre volta ou manda um verso.” A pausa de Sócrates foi longa, quase dolorosa. “Preciso que você venha para o Rio de Janeiro. Para Cabo Frio, se possível. Tem algo muito errado na poesia dele.”
“Estou indo,” José Cat disse, antes que Sócrates pudesse terminar a frase.

Ele desligou, olhando para o ateliê, para os manuais de desenho, para a mesa de luz onde tentava projetar sua alma. Era uma vida perfeita. Uma vida que ele não podia sustentar.

Ele pegou a mochila surrada, colocando sua Bíblia num forro falso da malha. O felino sempre soube que a fé era seu escudo, mas que às vezes, seu instinto o traía. “Senhor, eu não sou violento. Mas sei que procuro ser justo em meio a um mundo repleto de ímpios,” o felino sussurrou consigo mesmo.

Dois dias depois, José Cat estava num ônibus de longa distância, atravessando a BR-101. A viagem de Jaboatão para o Rio de Janeiro era uma penitência de mais de quarenta horas. A paisagem do Nordeste úmido e depois do Espírito Santo verde e montanhoso passava em slides borrados pela janela suja.

O balanço constante do veículo era a melodia perfeita para a reflexão moral. Ele pensava em Baratex, o poeta que odiava a certeza.
“Por que você se importa com ele, José?” A sua voz interior, a voz da fé, sussurrava. “Ele te arrasta para o inferno a cada copo de vinho e a cada mulher errada.”

José Cat fitou o cenário na estrada, os olhos âmbar fixos no horizonte incerto.
“Eu amo meu irmão, assim como Jônatas amou Davi. Essa é a resposta, uma verdade tão óbvia quanto o sol. Baratex não é apenas meu amigo. Ele é minha provação. Ele é o pecador que a mim foi dado para provar que a verdadeira fé resiste ao caos.”

A distância de um ano havia sido uma mentira para si mesmo. José Cat conseguiu se descobrir cada vez mais em seu retiro, mas também percebera que sua peregrinação só tinha sentido no campo de batalha, nas aventuras ao lado de Baratex. Ele era o pastor do poeta, mesmo que o poeta fosse, em tese, a ovelha mais suja do rebanho.

Ao anoitecer, quando o ônibus parou numa cidadezinha qualquer no Espírito Santo, ele desceu. Os músculos felinos estavam tensos. Ele comeu um pão com manteiga, rezou uma oração breve e encarou o reflexo no vidro da lanchonete: um felino com a alma de um monge e o físico de um pugilista, voltando para o caos que lhe era o único lar possível. Ele estava de volta à jornada.

Longas horas depois, José Cat desceu do ônibus na rodoviária de Cabo Frio. Os músculos estavam duros pela jornada de dois dias, e o cheiro de diesel e pneu queimado era um insulto ao ar fresco do litoral fluminense. O calor, embora intenso, era menos opressor que o mormaço de Jaboatão, mas o felino sentia a pressão da cidade grande: o Rio, em 1999, ainda era uma selva de concreto.

Ele pegou um táxi surrado, dando o endereço do Estádio Alair Corrêa, o popular “Correão”. O motorista, um homem de meia-idade com a camisa desbotada do Fluminense, apreciava tagarelar de maneira eufórica. José Cat mantinha um sorriso simpático, mesmo não desejando prosa naquele momento.

O estádio em si era modesto, com arquibancadas de cimento e a placa do Cabo Frio Futebol Clube (futura Cabofriense). José Cat viu a cena que buscava.

Na beira do gramado verde-amarelado, sob o sol forte, o Doutor Sócrates estava descalço, vestindo calções e uma camiseta branca manchada de suor. Ele não gritava. Estava cercado por um grupo de jogadores jovens, alguns visivelmente confusos, e outros tentando esconder a incredulidade. Ele parecia menos um treinador de futebol e mais um professor de ética no meio de uma praça grega.
“O que é o passe, meus amigos?” Sócrates perguntava, gesticulando com seus longos dedos. “Não é só o toque na bola. O passe é a fé compartilhada. O passe é a solidariedade, jamais deve ser negado ao companheiro, especialmente àqueles que estão em melhor condição de fazer o gol.”

José Cat sorriu de canto. O felino se aproximou, andando com a calma e o peso de um guerreiro que volta da guerra.
“O bom e velho Doutor Sócrates,” José Cat disse, a voz grave cortando o ar.

Sócrates se virou, e seus olhos fundos, sábios e cansados, brilharam em reconhecimento.
“José Cat! O felino de fé! Sabia que viria,” Sócrates se inclinou, abraçando o felino com sinceridade. “Você está mais magro. A vida de eremita em Jaboatão te fez bem, mas te roubou a graça.”
“Pelo contrário, meu amigo. Eu me encontrei na arte,” José Cat cumprimentou o Doutor, sentindo o elo de amizade que vinha desde a Itália. “Saudades da bola, Doutor?”

Sócrates chutou uma pedra solta no campo. “Saudades da certeza. Já que não posso mais fazer a poesia em campo, agora busco tentar ensinar os meninos a fazerem o mesmo,” ele suspirou. “Mas o que te trouxe até aqui não fui eu, mas sim o Baratex.”

Em seguida, Sócrates convidou José Cat para se sentar em um banco de madeira, debaixo de uma pequena marquise. O Doutor acendeu um cigarro, um gesto que Baratex certamente invejaria.
“Há dois meses, Baratex me procurou aqui. Veio beber, rir da minha tentativa de revolucionar o futebol e falar de poesia que ninguém mais lê. Ele parecia bem, Zé. Feliz, até.”
“A felicidade de Baratex é sempre o prelúdio da desgraça,” José Cat observou, os olhos âmbar fixos no Doutor.
“Exatamente. Estávamos em um boteco sujo perto da Lagoa de Araruama. Entraram dois homens. Italianos. Engravatados, mas com o cheiro de máfia velha.” Sócrates tragou profundamente. “Eles fizeram um convite. Disseram que estavam produzindo o que seria o terceiro filme de Django, o que eles denominaram como o ‘Spaghetti do Novo Milênio’.”

José Cat bufou, a pelagem eriçada. “Baratex em um filme. Que imbecilidade.”
“Não, José. A imbecilidade é o convite. Eles queriam que Baratex estrelasse como ele mesmo: o caubói sujo, o poeta melancólico, o homem que transforma a desgraça em estética. Disseram que ele era a personificação da alma do western italiano.”
“E o idiota aceitou.”
“Aceitou. No mesmo dia. Ele viu nisso o último grande verso que ele poderia escrever. A chance de transformar a vida dele, a desordem dele, em arte imortal. Ele partiu com eles para Roma no dia seguinte. Prometeu ligar assim que chegasse.” Sócrates apagou o cigarro no chão. “Dois meses. Silêncio absoluto. Isso não é reticência, Zé. Isso é apagamento.”

José Cat sentiu o peso da verdade. Baratex não era ingênuo com o perigo, mas era fatalmente atraído pelo “vício do verso”, pela chance de ser a tragédia que ele tanto pregava.
“É uma armadilha, Doutor. Uma conspiração. Baratex virou a matéria-prima de alguém.”
“O produtor se chama Alessandro Doria,” Sócrates acrescentou, a voz grave. “Isso foi tudo o que disseram a respeito de quem encabeçava tudo isso.”

José Cat levantou-se, seus olhos fixos no horizonte do campo.
“Tenho que ir. É minha provação. Mas o retiro em Jaboatão foi bom para a alma, não para o bolso. Não tenho recursos para uma passagem aérea para Roma.”

Sócrates sorriu, um sorriso filosófico que parecia entender a pobreza inerente à busca pela justiça.
“O que eu estava dizendo sobre o passe, José? A solidariedade?” O Doutor acendeu outro cigarro, olhando para o time. “Não se preocupe com o dinheiro. Eu não ligo para formalidades, mas com a oportunidade de treinar o Cabo Frio, estão me pagando bem o suficiente para um idealista poder ajudar um amigo.”

Sócrates pegou um talão de cheques do bolso de seu calção.
“Vou arcar com os custos. Passagens, estadia inicial, o que precisar. Não é um empréstimo, é um passe de solidariedade. Você está indo resgatar um poeta e, acima de tudo, um grande amigo. Isso vale mais do que qualquer vaga na primeira divisão do Campeonato Carioca.”

José Cat observou o Doutor, o homem que tentava aplicar a pureza da democracia num ambiente corrupto. Aceitou o cheque com um aceno solene.
“Obrigado, Doutor. E que o Senhor abençoe sua busca por certeza no futebol.”
“E que você possa trazer o nosso velho caubói filosófico de volta, Zé. Porque sem a poesia ruim, só sobra a burocracia do mundo,” Sócrates replicou.

Dois dias depois, em meio à agitação do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, José Cat trocou o cheque por uma passagem para Roma. O suporte de Sócrates havia fornecido os meios; agora cabia à fé de José Cat guiar a missão.

Ele embarcou no voo noturno, com a Bíblia no forro da mochila e o rosto determinado. O Boeing 747 da Alitalia rasgava a escuridão sobre o Atlântico. José Cat, acomodado num assento da classe econômica, não conseguia dormir. A cabine fedia a café fraco e tédio, e o ronco dos motores era o som da burocracia do mundo levando-o de volta ao caos.

A mochila estava sob o assento. Dentro do forro falso, a Bíblia permanecia. Ele a tirou, abrindo-a na seção que o acompanhava desde o encontro com Sócrates.

Ele lia o Livro de Samuel (1 Samuel 20:17): “E Jônatas fez jurar a Davi de novo, porquanto o amava; porque o amava com todo o amor da sua alma.”

José Cat acariciou as páginas, os olhos âmbar fixos nas letras miúdas. Jaboatão dos Guararapes fora seu retiro, sua tentativa de provar que a fé podia ser solitária. Mas o voo noturno e o vazio da ausência de Baratex provavam o contrário. A fé, ele percebeu, só era forte quando compartilhada, quando exigia ação e lealdade.

Baratex era o sujo e pecador, sempre mergulhando na loucura do mundo, sempre beijando a desgraça. José Cat era o justo, que traía a própria cômoda tranquilidade para resgatar o amigo destinado à tragédia. Não era meramente sobre o resgate em si, era sobre vínculo. Não era sobre justiça, era sobre laços.

A passagem de avião paga pela cortesia do Doutor Sócrates era apenas a ferramenta. A missão era a prova de amor fraternal. Ao fechar a Bíblia, ele olhou pela janela. Abaixo, a Europa se acendia em pontos de luz que pareciam tão distantes quanto as promessas do caubói filosófico. A Itália o aguardava. E o felino sabia que não poderia entrar naquele Spaghetti Western sozinho.

A aterrissagem no Aeroporto Fiumicino, em Roma, foi pontual. O aroma de café forte, pedra antiga e cigarro se misturava no ar da manhã. José Cat pegou um táxi e se dirigiu à periferia da cidade, onde havia reservado um quarto barato em uma pensão que cheirava a água sanitária e a pecado velho.

Sua primeira e mais crucial ação não era buscar Baratex, mas sim buscar um auxílio inusitado.

De um telefone público na rua, ele discou um número que ele memorizara há anos: o da Sergio Bonelli Editore, a casa que dava vida a Tex Willer. Sim, o ranger que inspirava Baratex.

Uma secretária sonolenta atendeu em italiano. José Cat, que falava a língua com fluidez desde sua passagem certa vez em Florença, foi direto ao ponto.
“Eu preciso falar com o editor, per favore. É sobre um assunto… de extrema importância.”

A secretária hesitou, obviamente pensando em desligar.
“Diga que é José Cat. Diga que é sobre um caubói que trocou a bala pela caneta, e que esse caubói está em perigo.”

Dez minutos tensos se passaram. Então, a voz profunda de um editor atendeu. José Cat explicou a situação em termos pulp e concisos: o desaparecimento de Baratex, a conspiração Spaghetti Western, a suposta armadilha do vulgo Alessandro Doria.
“Eu sou o amigo dele. O felino. Baratex o conhece muito bem também. Por favor, é uma questão de honra e necessidade,” insistiu José Cat.

Houve um silêncio no telefone, um silêncio que pesava a tinta de milhões de páginas.
“Você quer que tiremos nosso ranger mais famoso de sua própria revista?” A voz do editor estava rouca de incredulidade.
“Não. Eu o invoco. A força do meu dever de amigo, a intensidade da minha fé na lealdade, é o que o traz. O ranger não é só papel, ele é um símbolo inquebrável. Diga a ele que o Baratex, o poeta, precisa da justiça de papel para sobreviver à tragédia do cinema.” 

O editor assentiu, mais por cansaço de debater o impossível do que por convicção. “Espere. Certo. Onde ele pode lhe encontrar?”
“Amanhã. Às nove da manhã. Na Ponte Cestio. Quero vê-lo no Rio Tibre.”

No dia seguinte, José Cat estava na Ponte Cestio, que ligava a Ilha Tiberina à margem oeste do Rio Tibre. O rio corria lento, com a água escura refletindo a história de Roma. O felino usava seu sobretudo, os olhos varrendo a multidão de romanos e turistas. Ele rezava, não para que seu contato especial viesse, mas para que sua lealdade fosse forte o suficiente para manifestá-lo.

Às nove em ponto, um silêncio estranho tomou conta da ponte. Turistas pararam de tirar fotos.

E então, ele apareceu.

Não havia fumaça, nem relâmpagos. Apenas a presença. Tex Willer estava ali, em pleno 1999 romano, trajando seu lenço preto, chapéu de abas largas, camisa amarela de ranger e o cinturão com as pistolas Colt. Ele parecia ter saído da tinta, mas tinha o peso e a rugosidade de quem conheceu a poeira de cem desertos. Seu olhar era azul-cobalto, direto, inabalável.

Tex estava, de forma hilária e solene, completamente deslocado. Ele se aproximou de José Cat, estendendo a mão grande e enrugada.
“Saudações, José Cat! O editor disse que era urgente. Disse que envolvia nosso velho amigo Baratex.”

José Cat apertou a mão do ranger com firmeza. “Tex! Gratidão, meu amigo! É sobre Baratex, sim. Ele sumiu em uma conspiração de cinema.”

José Cat explicou a história com a precisão de um manual de desenho. Tudo o que Sócrates havia lhe contado, Tex agora estava ciente.

O ranger ouviu, sem interromper, os olhos azuis fixos no rio. Quando José Cat terminou, Tex tragou o ar de Roma, que para ele devia cheirar a poeira de salão de Texas.
“Sei por onde começarmos. Alessandro Doria é uma figura conhecida daqui,” Tex bateu na fivela de seu cinturão. “Vamos, pard! Não há tempo a perder!”

Tex Willer não precisou de mapa. Assim que José Cat pronunciou o nome Alessandro Doria, o ranger apertou o chapéu na cabeça.
“Doria não é apenas um produtor, pard. Ele é um nome antigo. A família dele está na ponta de toda a sujeira sofisticada em Roma desde antes das Guerras,” Tex explicou, enquanto pegavam um carro alugado na periferia. “Ele usa os estúdios de sua família, nos arredores de Cinecittà. É um complexo velho, disfarçado de armazém de distribuição.”

O trajeto foi silencioso. A tranquilidade de Tex contrastava com a tensão contida de José Cat. O ranger não parecia incomodado com o fato de estar fora de sua revista, dirigindo um Fiat 1999 em vez de cavalgar seu cavalo. A honra era a mesma, não importava o cenário.

Ao chegarem ao local, um muro de concreto alto e sem janelas se estendia. Câmeras e cercas elétricas indicavam que aquilo não era um simples estúdio.
“Está vendo a porta de serviço, José?” Tex perguntou, apontando para uma abertura camuflada. “Podemos tentar a maneira inteligente. Um pequeno suborno, uma distração…”

José Cat balançou a cabeça, a pelagem cinza arrepiada pela proximidade do perigo.
“Não. Baratex está lá dentro sendo transformado em metáfora para o lucro. A essa altura, a sutileza falhou. Vamos na convicção.”

Ele se virou para o ranger, os olhos âmbar brilhando.
“Há uma passagem que diz: ‘Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele.’ (Mateus 11:12). O Reino de Baratex não é o céu, mas a sua alma. E vamos tomá-la à força.”

Tex Willer sorriu, algo raro e perigoso.
“O felino citando a Bíblia para justificar uma briga. Eu senti falta disso, pard. Vamos lá, então. Um pouco de ação nunca fez mal a um ranger velho.”

Sem aviso, José Cat e Tex pularam o muro. Eles aterrissaram na rampa de carregamento, chamando atenção propositalmente com o barulho metálico de suas botas.

Dois seguranças com uniformes de couro e walkie-talkies vieram correndo. O primeiro não viu o cotovelo de José Cat atingir seu queixo; o segundo viu apenas o chapéu de Tex Willer girar antes de sentir a coronha do ranger contra sua testa. Ambos caíram em um monte de caixas de plástico.
“Limpo,” Tex resmungou, ajeitando o lenço preto.

José Cat seguiu na frente, localizando a porta mais barulhenta. Arrombaram-na com um chute coordenado e correram por corredores que pareciam mais um set de bunker militar do que de cinema.

Eles encontraram o estúdio principal. Era um set gigantesco, frio e escuro, com refletores apontados para uma única cena: Baratex estava de pé, trajando o sobretudo sujo e familiar, parado no meio de um cenário de deserto de papelão.

Ele estava de costas, declamando um verso melancólico para uma câmera vintage.
“O vazio não me assusta, diretor. Ele é apenas a reticência que o mundo esqueceu de escrever.”
“CORTA!” O diretor, um homem pequeno e histérico, gritou em italiano.

Nesse exato momento, José Cat invadiu o set.
“BARATEX!”

O poeta parou, virando-se lentamente. Seu rosto barbado parecia mais magro sob a luz artificial, mas seus olhos, ao verem José Cat e Tex Willer, se arregalaram.
“Zé! Mas… o que é essa poesia ruim?”

O diretor, enfurecido pela interrupção, correu até eles. “Quem são vocês? Via! Estamos gravando o clímax da metáfora!”

José Cat ignorou-o. O felino correu e abraçou Baratex com a força de um ano de saudade e medo.
“Eu vim te tirar daqui. É uma armadilha, Baratex. Um Spaghetti Western que quer roubar sua alma,” José Cat disse, a voz abafada na roupa do amigo.

Baratex se afastou, confuso, acendendo um cigarro que parecia ter acendido sozinho com a fricção do ar.
“Armadilha? De quem? Eu estou me divertindo, Zé! O diretor é um idiota, mas o vinho aqui é aceitável, e a tragédia é chique!”
“Sócrates ligou. Você não deu notícias! Ele disse que você sumiu por dois meses. Por que você não ligou para ele, Baratex?” José Cat argumentou, a convicção vacilando pela primeira vez.

O caubói filosófico tragou o cigarro, olhando para o teto, constrangido.
“Ah. O Doutor… Pois é, Zé. Eu bebi um pouco demais naquele avião com os produtores, sabe? Devo ter esquecido. Eu ia ligar. Juro. É o caos da vida.”

José Cat olhou para Tex, sentindo o peso da humilhação. Tinha invadido a Itália e invocado uma lenda do western por causa de um poeta bêbado e desorganizado.
“Parabéns, Baratex,” Tex Willer disse, fitando o velho caubói filosófico, os olhos azuis apertados. “Típico de seu feitio.”

De repente, o chão do estúdio começou a vibrar. Com um ruído metálico ensurdecedor, placas de aço maciço desceram dos quatro lados, lacrando o set e prendendo-os num cubo de metal. A luz natural sumiu, substituída por holofotes vermelhos e azuis.
“Cheiro de encrenca no ar, pards,” Tex disse, sacando suas Colts com a rapidez do deserto.

Então, do topo do estúdio blindado, Alessandro Doria surgiu. Ele não estava em um terno. Estava dentro de uma armadura futurista, feita de cromo escuro e fibra de carbono, que lembrava uma mistura grotesca de um cavaleiro medieval e um ciborgue de cinema B.
“José Cat! Você finalmente apareceu,” a voz de Doria soou, distorcida e amplificada pelo capacete.

O diretor correu para os pés de Doria, curvando-se. “Magnata! A armadilha funcionou perfeitamente!”
“Armadilha para mim?” José Cat perguntou, confuso.
“Sim, felino tolo! Você é o verdadeiro clímax. O poeta era apenas a isca mais suja e previsível que eu poderia usar. Ele me deu os detalhes de sua amizade, seu código de lealdade, a ligação com Sócrates… tudo o que eu precisava para saber que você viria!”

Doria desceu à frente deles, o peso da armadura rachando levemente o concreto do chão.
“Eu sou Alessandro Doria. Herdei todo o cinema italiano, mas sinto falta do ímpar. Não basta ter rios de dinheiro, é preciso ser fisicamente perfeito. O seu DNA é a próxima fase da evolução. E eu vou extraí-lo.”

Ele apontou a manopla da armadura para José Cat.
“Você veio para salvar Baratex. Mas, no fim, você veio para me salvar.”

O cubo de metal estava selado, banhado pela luz vermelha de alerta. Tex Willer, José Cat e Baratex eram o ímpar, o caótico e a honra, presos contra a armadura metálica de Alessandro Doria.
“O DNA de um felino? Que imbecilidade,” Baratex murmurou, largando o cigarro, agora totalmente sóbrio pelo choque.
“Não é imbecilidade, poeta. É a busca pelo equilíbrio perfeito,” Doria retrucou, sua voz metálica soando triunfante. “O felino é disciplinado, mas selvagem. Tem fé, mas age na sombra. Com o DNA dele, eu serei o poder absoluto sem a falha da dúvida humana!”

A manopla da armadura soltou um raio de energia que carbonizou o deserto de papelão ao lado de José Cat.
“A falha é que ele fala demais,” Tex Willer avisou, disparando rapidamente as duas Colts.

As balas atingiram o peito da armadura, ricocheteando com um estrondo. Tex bufou, a fumaça saindo das pistolas. “Cromo escuro e fibra de carbono. Tinha que ser chique e difícil.”
“Aço não resiste à convicção,” José Cat rebateu. O imponente felino avançou, usando sua velocidade para desviar dos pesados golpes de Doria. Seu objetivo não era a força, mas a agilidade: ele escalou a armadura, buscando pontos fracos nas juntas, tentando cegar o visor.

Doria, focado apenas em José Cat, tentava agarrar o felino para imobilizá-lo para a extração, ignorando Tex. A armadura era pesada, mas surpreendentemente rápida.
“O que fazemos, Zé?” Baratex gritou, escondido atrás de uma pilha de refletores.
“Faz o que você faz de melhor, Baratex!” José Cat respondeu, enquanto um laser de Doria cortava um pedaço de sua orelha. “Causa o caos!”

O poeta hesitou por um segundo. Olhou para o cenário, para o felino lutando por sua vida, e para a imbecilidade de sua própria bebedeira.

Baratex gritou: “Você quer o DNA de um artista, Doria? Comece com o pecado!”

Com um rugido filosófico, Baratex pegou o frasco de grappa (destilado italiano) que sempre guardava no sobretudo e atirou-o contra o visor de Doria. O líquido forte não quebrou o capacete, mas espalhou-se pela superfície, cegando Doria momentaneamente.

“Seu miserável!” Doria berrou, erguendo os braços, agora desorientado.
“Agora, pard!” Tex Willer gritou, aproveitando o momento em que Doria levantou a armadura, expondo o painel de controle no meio de suas costas, conectado por fios ao equipamento de extração.

Tex não atirou na armadura. Ele mirou no painel e disparou com precisão cirúrgica.

O impacto foi imediato. O painel explodiu em faíscas verdes e amarelas. A armadura travou, soltando fumaça e perdendo o equilíbrio. Doria gritou de dor e frustração, caindo de joelhos. O complexo sistema de hardware que sustentava sua perfeição artificial tinha falhado.
“Acabou, Doria!” José Cat bradou, descendo da armadura e estalando seus dedos.

A armadura, agora inerte, esmagava o cenário de deserto de papelão. Baratex e Tex amarraram Doria, ainda bufando de fúria por baixo do capacete rachado. O diretor histérico tentou fugir assim que a porta metálica se abriu novamente, revelando a luz fraca da tarde romana. Baratex sacou seu revólver e atirou em uma das pernas dele. O diretor caiu gritando freneticamente.
“Não vai a lugar nenhum”, Baratex assoprou o cano de seu revólver.
“Belo tiro, pard!” Tex elogiou o amigo.

O velho caubói filosófico então se aproximou de José Cat, os olhos marejados, mas não de tristeza, e sim de uma estranha clareza.

“Zé…” Baratex coçou a barba. “Eu sou um idiota. Um completo e previsível idiota. Usei a sua lealdade como uma muleta, e quase custou a sua pele. Eu merecia virar metáfora barata nas mãos desse ciborgue.”

José Cat não falou. Apenas abraçou o amigo novamente, desta vez, não para salvá-lo, mas para aceitar a sua imperfeição.
“Eu sei. Mas eu preciso de você, Barata. Eu preciso da sua poesia ruim para me lembrar que a vida não é apenas um único tom, mas um grande contraste”, José Cat respondeu, com lágrimas nos olhos.

Tex Willer, que observava, sorriu com a troca. “A amizade é uma coisa estranha. Faz a gente pular muros e brigar com latas de lixo gigantes,” ele comentou, desamarrando Doria para a chegada iminente da polícia italiana. Quando os tiras chegaram, o lendário ranger da Bonelli explicou cada detalhe do incidente. O seu depoimento bastou, afinal, as autoridades italianas respeitavam e veneravam a figura de Tex Willer.

Mais tarde, em um bar sujo perto do Tibre, os três estavam sentados. José Cat tomava suco de laranja (sim, em um bar sujo), Tex bebia uísque de centeio, e Baratex, vinho tinto.
“Então, Tex. O que fará agora?” José Cat perguntou.

Tex deu de ombros, tomando um gole. “Volto para a minha revista. O mundo precisa de honra no papel. E vocês, pards, precisam de um bom descanso.”

Baratex ergueu seu copo.
“Ao caos que nos uniu, à lealdade de José Cat que nos salvou, e ao Doutor Sócrates, que estou devendo explicações”, o poeta brindou, os olhos brilhando com uma nova e perigosa inspiração.

José Cat sorriu. Ele tinha a certeza de que a aventura tinha sido bem-sucedida em dobro, pois resgatou o seu melhor amigo, além de ter reforçado seu vínculo com ele. A missão, de fato, estava cumprida.

Ele ergueu seu copo de suco e bateu nos copos de vinho e uísque.
“Amém.”

Um mês depois, em seu ateliê em Jaboatão dos Guararapes, José Cat terminava de desenhar a primeira edição de sua história em quadrinhos. Orgulhoso, ele juntou as páginas e as envelopou.
“Minha história começa a ser contada através desse personagem que criei”, o felino pensou.

Escrito no envelope, estava o título:
“A Saga de Schloesser, o Guerreiro da Arte”

Vinícius Pereira , Nova Iguaçú, RJ, já teve vários perfis em sites de fanfics. Após um longo hiato, por intermédio do destino (ou o que quer que prefira definir), ele retorna à escrita com a série de contos das aventuras do Baratex, figura que homenageia o grande Barata Cichetto.

Baratex – Lendas de Um Velho Caubói Filosófico (Temporada 1)
Autor: Vinícius Pereira
Editora: Selo Lâmina 44
Gênero: Contos
Ano: 2026
Páginas: 232
Tamanho: 15 X 21 X 1,25 cm.
Impressão: Papel Offset 90g
Impressão: PB
Capa Cartonada, Laminado Fosco
Arte de Capa: Eduardo Schloesser (Colorido por Louis Mello)
Posfácio: Adriana Avelino (Drigo)

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Eduardo Schloesser
Eduardo Schloesser
05/12/2025 2:03

Excelente! Tocante!
Os contos do Vinícius como metalinguagem a apontar uma arma para nossas cabeças, não permite pararmos até que cheguemos ao ponto final.
Um Felino cinzento antropomorfo, uma médico jogador de futebol, um cowboy do fumeti italiano e um poeta do caos, onde mais isso seria possível? Somente na arte.
Nem preciso dizer que a última frase me levou às lágrimas, e logo na madrugada do meu aniversário…..
Eu agradeço de coração!

Conteúdo Protegido.
Plágio é Crime!

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