O Que é Censura Mesmo?

Não é o censor, nunca foi. Essa figura caricata, de farda, carimbo e tesoura, pertence ao imaginário confortável de quem precisa acreditar que a censura é sempre burra, explícita e facilmente identificável. No mundo real — e especialmente no Brasil de agora — a censura é sofisticada, articulada, cheia de boas intenções e, acima de tudo, bem justificada. Ela não cala por ódio, cala por zelo. Não proíbe por autoritarismo, mas por responsabilidade. Não reprime ideias, apenas protege a democracia de quem insiste em pensar fora do cercadinho.

A censura contemporânea não chega batendo à porta. Ela entra pela janela aberta do medo coletivo, senta-se à mesa e explica, com didatismo jurídico, que certas coisas não podem ser ditas neste momento delicado da história. Sempre há um momento delicado. Sempre há uma ameaça em curso. Sempre há algo a ser preservado. A democracia, por exemplo, essa entidade abstrata que nunca fala, mas em nome da qual se fala muito.

No Brasil recente, aprendemos que opiniões podem desestabilizar instituições, que dúvidas podem corroer o Estado Democrático de Direito e que determinadas narrativas, embora não ilegais em si, são inconvenientes demais para circular livremente. Não se trata mais de verdade ou mentira, mas de risco. E risco é um conceito elástico o suficiente para caber qualquer discordância que atrapalhe o bom funcionamento da ordem vigente.

Não se corta mais verso de música nem se apreende livro. Isso seria tosco. Hoje remove-se conteúdo, suspende-se conta, bloqueia-se perfil, responsabiliza-se a plataforma e, se necessário, cria-se um novo entendimento jurídico para justificar tudo depois. O procedimento é técnico, a linguagem é asséptica, e o efeito é o mesmo de sempre: menos gente falando, mais gente pensando duas vezes antes de falar. A censura moderna não precisa silenciar ninguém à força; basta deixar claro que quem insiste em dizer o que não deve pode enfrentar consequências. A autocensura faz o resto, agradecida.

Tudo vem embalado em palavras virtuosas. Proteção, segurança, combate à desinformação, defesa do bem comum, manutenção da ordem — e, acima de todas, a defesa da democracia. Um conceito tão amplo que permite enquadrar qualquer incômodo como ameaça. Afinal, se discordar enfraquece a democracia, então discordar é antidemocrático. Simples assim. O debate vira suspeita. A crítica vira risco. A ironia vira quase crime.

. curioso é que a democracia, quando realmente existe, sempre foi barulhenta, conflituosa, imperfeita e profundamente incômoda. Mas isso dá trabalho. Dá desgaste. Dá imprevisibilidade. É muito mais eficiente administrar o discurso do que suportar o dissenso. Regular a fala em nome da democracia é o truque mais elegante já inventado para limitar a própria democracia sem precisar admitir o gesto.

Então, o que censura mesmo? Não é a lei escrita, mas a interpretação criativa. Não é o veto explícito, mas o aviso implícito. Não é o silêncio imposto, mas o medo distribuído com racionalidade técnica. Censura é quando o Estado decide que pensar alto demais virou perigo institucional. É quando o Judiciário, convencido de sua missão histórica, passa de guardião da Constituição a tutor do debate público. É quando falar continua permitido — desde que não atrapalhe.

E esse “desde que” é o coração da censura moderna. Porque ela não precisa mais se esconder. Basta se apresentar como virtude.

14/12/2025

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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