A esperança sempre me pareceu uma palavra educada demais para a quantidade de estragos que provoca. Ela chega macia, como quem não quer nada, e se instala. Quando você percebe, já está morando no futuro, pagando aluguel no hoje e chamando isso de virtude. Talvez por isso eu tenha aprendido cedo a não aceitá-la sem exame.
A filosofia fez esse serviço sujo primeiro. Quando os gregos começaram a pensar seriamente, perceberam que a esperança era uma emoção jovem demais para ser confiável. Aristóteles associa a esperança aos jovens porque eles ainda não foram desmentidos pela vida. O velho, diz ele, já viu demais para esperar tanto. Não é cinismo — é estatística. Os estoicos, vivendo sob impérios imprevisíveis, entenderam rápido que esperar do mundo era apostar contra o mundo. Epicteto, escravo, sabia: quem condiciona sua paz ao que não controla escolhe sofrer por antecipação. Spinoza fecha o cerco com precisão cirúrgica ao definir esperança como alegria instável. Instável porque depende de fatores externos, e tudo que depende do externo já nasce frágil. Nietzsche, olhando o século XIX e suas promessas de progresso infinito, foi ainda mais longe: a esperança não cura a dor, apenas a prolonga. E basta olhar o século XX — duas guerras mundiais depois de tanto otimismo — para perceber que ele não estava exagerando.
A sociologia apenas confirmou o estrago em escala industrial. A esperança é o combustível preferido das estruturas que não entregam o que prometem. Povos inteiros foram mantidos dóceis com a ideia de que o sacrifício de hoje garantiria o amanhã. A Revolução Industrial se alimentou disso: jornadas desumanas justificadas pelo progresso que viria. Estados modernos fazem o mesmo, trocando políticas estruturais por discursos motivacionais. Em países profundamente desiguais, a esperança funciona como substituto de direitos. Não é coincidência que quanto maior a miséria, mais abundante o discurso esperançoso. Ele acalma, organiza a espera, transforma indignação em paciência. A esperança, aqui, não resolve o problema — ela administra o problema.
As religiões judaico-cristãs perceberam cedo o potencial dessa engenharia do adiamento. No judaísmo, a esperança se ancora na promessa messiânica: a história caminha para uma reparação final. Isso sustenta um povo por séculos de exílio, perseguição e espera. Funciona — mas cobra seu preço. O cristianismo radicaliza: o sofrimento deixa de ser acidente e vira caminho. “Bem-aventurados os que choram”, diz o texto. A esperança passa a ser transcendental: não se espera justiça aqui, mas depois. Na Idade Média, isso foi extremamente funcional. Camponeses aceitavam a miséria como passagem, não como falha do sistema. O espiritismo, por sua vez, oferece uma esperança parcelada em múltiplas vidas. Se não deu certo agora, a conta segue aberta. Nada se perde, tudo se educa. O problema é que, enquanto se aprende, a injustiça se repete com ótima consciência tranquila.
A psiquiatria entra nesse cenário como quem desliga a música e acende a luz. Para ela, esperança não é virtude nem engano — é ferramenta clínica. Estudos mostram que pacientes com alguma esperança aderem melhor a tratamentos, suportam mais dor, resistem mais à ideação suicida. Em hospitais oncológicos, isso é visível. Mas há um limite claro: quando a esperança vira negação da realidade, ela se torna patológica. O paciente que acredita cegamente na cura impossível sofre mais quando o corpo desmente a narrativa. A psiquiatria, diferente da religião, não promete sentido. Ela apenas tenta manter o sujeito funcional. Se a esperança ajuda, usa-se. Se atrapalha, corta-se. Frio, mas honesto.
Foi depois de percorrer tudo isso que eu fiz a pergunta errada à entidade certa: pedi a uma inteligência artificial que definisse esperança. E a resposta veio como um espelho sem rosto. Para a IA, esperança é um padrão linguístico associado a expectativas futuras desejáveis sob incerteza. Um conjunto de probabilidades emocionais aprendidas por repetição. Não há fé, não há medo, não há aposta existencial. Há correlação. A IA não espera nada — ela apenas reconhece que humanos precisam dessa palavra para continuar operando. E talvez isso diga mais sobre nós do que sobre ela.
É aí que minha visão se instala, desconfortável, mas lúcida. Minha esperança não é crença em finais felizes. É recusa em aceitar finais impostos. Não espero que o mundo melhore — espero que ele não consiga me convencer de que isso aqui é o melhor possível. Minha esperança não me consola, me mantém inquieto. Ela não aponta para o céu nem para a próxima encarnação. Aponta para a fissura. Para o erro no discurso. Para o momento em que alguém diz “sempre foi assim” e eu respondo, em silêncio ou em texto: não.
Se isso é esperança, ela não salva ninguém. Mas impede que eu durma enquanto me enganam.
E talvez seja justamente aí que minha esperança se torne menos nobre e mais necessária. Ela não se manifesta como crença, mas como atrito. Não nasce da confiança, nasce da suspeita. É a recusa em aceitar que o vocabulário disponível seja suficiente para explicar o mundo. Quando me oferecem esperança em forma de slogan, eu respondo com dúvida. Quando me pedem paciência, eu devolvo inquietação. Minha esperança não me promete abrigo — ela me expõe. Obriga-me a permanecer atento quando tudo conspira pelo conforto da repetição.
Se há algo de afirmativo nisso tudo, é o fato de que minha esperança não depende de vitória. Ela sobrevive mesmo quando perde. Não precisa de aplauso, nem de confirmação histórica. Basta-lhe a lucidez. Enquanto houver discurso demais e pensamento de menos, enquanto houver promessa substituindo ação, enquanto houver silêncio sendo vendido como maturidade, minha esperança seguirá existindo — não como expectativa de redenção, mas como insistência em não colaborar. E isso, no fundo, é o máximo que estou disposto a conceder ao futuro.
24/12/2025
A Esperança
Augusto dos Anjos
(1912)
A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.
Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?
Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro – avança!
E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!
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Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
