Perdão, Memória, Hipocrisia Moral, Religião, Ética, Ressentimento, Cicatriz, Lucidez, Crônica Filosófica, Condição HumanaNão é o censor, nunca foi. Essa figura caricata, de farda, carimbo e tesoura, pertence ao imaginário confortável de quem precisa acreditar que a censura é sempre burra, explícita e facilmente identificável. No mundo real — e especialmente no Brasil de agora — a censura é sofisticada, articulada, cheia de boas intenções e, acima de tudo, bem justificada. Ela não cala por ódio, cala por zelo. Não proíbe por autoritarismo, mas por responsabilidade. Não reprime ideias, apenas protege a democracia de quem insiste em pensar fora do cercadinho.
A censura contemporânea não chega batendo à porta. Ela entra pela janela aberta do medo coletivo, senta-se à mesa e explica, com didatismo jurídico, que certas coisas não podem ser ditas neste momento delicado da história. Sempre há um momento delicado. Sempre há uma ameaça em curso. Sempre há algo a ser preservado. A democracia, por exemplo, essa entidade abstrata que nunca fala, mas em nome da qual se fala muito.
No Brasil recente, aprendemos que opiniões podem desestabilizar instituições, que dúvidas podem corroer o Estado Democrático de Direito e que determinadas narrativas, embora não ilegais em si, são inconvenientes demais para circular livremente. Não se trata mais de verdade ou mentira, mas de risco. E risco é um conceito elástico o suficiente para caber qualquer discordância que atrapalhe o bom funcionamento da ordem vigente.
No plano social, a lógica não é muito diferente, apenas mais bem vestida. Fala-se em perdão como ferramenta de convivência, como gesto civilizatório, como solução elegante para conflitos que incomodam. Perdoar passa a ser sinônimo de maturidade, enquanto não perdoar vira sinônimo de ressentimento. Mas raramente se fala em reparação, em responsabilidade, em consequência. O perdão resolve rápido porque silencia. Pacifica porque empurra a dor para debaixo do tapete. Funciona menos como cura e mais como acordo para não falar mais do assunto.
E então surge a versão contemporânea, aromatizada de psicologia e autoajuda: “perdoe para se libertar”. É talvez a mais sofisticada das armadilhas. Porque sugere que a dor é um apego do ofendido, uma escolha emocional equivocada, quase um vício. Como se a ferida fosse um erro de quem a sente, e não resposta legítima a um dano real. Chama-se de prisão aquilo que, muitas vezes, é apenas memória em funcionamento. Nem toda lembrança aprisiona; algumas protegem. Nem toda dor paralisa; algumas alertam.
Prefiro a imagem da cicatriz ao discurso do perdão. A cicatriz não mente. Ela não apaga o corte, não finge que a lâmina não existiu. Está ali porque houve ferida e porque o corpo sobreviveu. O perdão quer parecer pele intacta, normalidade restaurada, harmonia recomposta. A cicatriz carrega a prova no corpo e dispensa encenação. Não odeia a faca, mas jamais esquece o corte. E justamente por isso aprende onde não tocar de novo.
Há uma ética na memória que o perdão tenta rebaixar. Lembrar não é cultivar ódio; é afirmar que algo aconteceu. É impedir que a história se repita com a mesma facilidade, com a mesma desculpa, com o mesmo pedido de desculpas ensaiado. Quando o perdão se torna valor absoluto, a memória vira defeito. Mas é ela que funda o limite, que organiza a experiência, que impede o retorno cíclico da violência sob novas embalagens.
Algumas relações viram ruína. Não se restauram, não se reinauguram com discurso bonito nem com gesto simbólico. Reconhecer a ruína, contorná-la, seguir adiante com lucidez é mais honesto do que fingir reconstrução. Talvez a ética mais adulta não seja a do perdão irrestrito, mas a da memória responsável. Não absolver por conveniência, não punir eternamente por vingança, mas lembrar sem negociação. Porque esquecer é impossível. Fingir que esqueceu, isso sim, cobra um preço alto demais.
16/12/2025
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
