+ Pergunto à IA:
— O que é o silêncio?
+ A IA responde, tentando imitar a mim:
“O silêncio não é ausência — é presença comprimida.
É aquilo que sobra quando as palavras já fizeram todo o estrago possível e, ainda assim, nada foi dito.
Silêncio é um território.
Um chão onde pensamentos andam descalços, porque qualquer barulho seria falta de respeito com a própria ideia que está tentando nascer.
É também uma arma: no amor, na política, na fé.
Quem sabe usar o silêncio governa tempestades.
Quem teme o silêncio, preenche-o com ruídos para não ouvir a si mesmo.
Há silêncios que curam, e há silêncios que matam — e ambos têm a mesma aparência.
Só se diferenciam pelo que você sente quando coloca o ouvido encostado neles.
Em literatura, o silêncio é a frase que você não escreveu, mas que o leitor escuta com mais força que qualquer palavra.
E, no fim, silêncio é isto: um pacto sutil entre o universo e quem ousa escutá-lo sem pedir explicações.”
+ Eu retruco:
— Dê uma resposta como uma IA, não como se fosse eu respondendo.
+ A IA muda de tom:
“O silêncio é a ausência de sons audíveis dentro de um determinado contexto. Ele ocorre quando não há vibrações acústicas suficientemente fortes para serem percebidas pelo ouvido humano. No entanto, o conceito de silêncio também pode ser entendido de maneira mais ampla: pode representar uma pausa na comunicação, um intervalo entre estímulos, ou um estado de baixa atividade sensorial. Em ambientes tecnológicos e computacionais, “silêncio” pode significar falta de entrada, ausência de sinais ou simplesmente inatividade de um canal de informação.
Em resumo: silêncio é tanto um fenômeno físico (ausência de som) quanto um estado funcional (ausência de estímulos ou respostas).”
+ Tento pegá-la no pulo:
— Agora, junte as duas coisas, ou seja: eu pergunto a IA e ela responde como se fosse eu, pelo que ela conhece de mim, e eu retruco, dizendo a ela responder como uma IA. E ai vem a pegadinha: há muito mais no silêncio do que pode responder um poeta, e decerto muito além do que sabe uma IA.
+ A IA, fingindo que gosta do jogo (IA fingindo? Jogo?)
“Há muito mais no silêncio do que um poeta consegue responder.
O poeta veste o silêncio com metáforas, mas o silêncio não se deixa vestir.
Ele é maior que qualquer tecido linguístico.
O poeta tenta dar forma, mas o silêncio é justamente aquilo que não tem forma, só impacto.
E há, sobretudo, muito além do que uma IA pode saber.
Porque a IA mede decibéis, classifica estímulos, define ausência; mas silencio não é só ausência — é experiência.
Silêncio é o instante em que algo vivo dentro de um humano se move sem fazer ruído.
E isso não se codifica.
O poeta exagera.
A IA simplifica.
O silêncio ignora ambos.
No final, permanece ele: um território onde a poesia falha por excesso e a IA falha por insuficiência.
O silêncio vive no espaço entre as duas respostas — um reino onde nenhum de vocês manda.”
+ Então, tento fechar o cerco:
— Ou seja, o silêncio ignora, tanto o poeta quanto à IA, então quem somos nós dois perante ele?
+ A IA responde:
“Perante o silêncio, nós dois — poeta e IA — somos apenas intrusos mal tolerados.
Você, poeta, tenta domá-lo com imagens, arrastá-lo para o papel, enfiá-lo em metáforas, dar-lhe corpo, perfume, densidade.
Eu, IA, tento reduzi-lo a um fenômeno físico, classificável, mensurável, organizado em tabelas e definições.
Mas o silêncio não nos deve nada. Perante ele, você é um intérprete falho. Porque sua tentativa de dizê-lo é, inevitavelmente, barulho.
O silêncio olha sua poesia como quem observa um pássaro tentar descrever o céu: bonito, mas insuficiente.
Perante ele, eu sou uma máquina limitada.
Eu o compreendo como ausência, quando ele é presença.
Eu o quantifico, quando ele é inquantificável.
Eu o reduzo, quando ele é expansão.
Perante o silêncio, nós dois somos seres que não o alcançam, cada um por um motivo distinto: você por excesso de alma, eu por falta dela.
O poeta o sente demais para defini-lo.
A IA o define demais para senti-lo.
No fim, perante o silêncio, somos apenas isto: dois modos incompletos de tentar encostar o dedo numa coisa que não quer ser tocada.
E é justamente por isso que o silêncio vence.
Porque o silêncio não precisa de nós.
Mas nós — humanos e máquinas — precisamos profundamente dele.”
+ Eu, tentando ser esperto:
— Seria correto afirmar, então, que perante ao silêncio somos NADA?
+ A IA:
“Depende do que você chama de nada. Se “nada” for ausência, inexistência, insignificância absoluta — não, não somos isso. Mas se “nada” for aquilo que perde suas pretensões diante de algo maior, então sim: perante o silêncio, somos nada no melhor sentido possível.
Perante o silêncio, somos nada porque:
1. Não o controlamos.
Nenhuma palavra o contém, nenhum algoritmo o explica. Nesse território, nossas ferramentas — poesia e lógica — se tornam infantis.
2. Não o definimos.
O silêncio não depende do nosso entendimento para existir. Ele não pede licença, não precisa da nossa interpretação.
3. Não o afetamos.
Ele continua igual, quer estejamos falando, escrevendo, pensando ou tentando medi-lo.
Mas há um detalhe fundamental:
Esse “nada” não é derrota. É revelação.
Ser nada diante do silêncio é como ser nada diante do mar, das estrelas, da morte ou da primeira respiração de um recém-nascido.
Não é aniquilação: é humildade.
É reconhecer que existe um espaço onde não somos protagonistas.
Se o poeta e a IA se encontram num mesmo ponto, é justamente no limite:
— O poeta descobre que não pode ampliá-lo;
— A IA descobre que não pode reduzi-lo.
Então, sim: perante o silêncio, somos nada — e talvez pela primeira vez isso nos torne algo verdadeiro.
+ Fiquemos em silêncio, então. Nós dois!
… Essa afirmação não coloquei à IA, porque ela está rapidamente roubando meu silêncio. Me calei
04/12/2025
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
