A Última (?) Obra-Prima do Rock

Uma das coisas mais divertidas no mundo da música nos últimos três anos é, sem dúvida, o estardalhaço provocado pelo lançamento, no final de 2011, do álbum Lulu, produto da soma do talento de dois dos maiores nomes-lendas vivas do rock: Lou Reed e a banda Metallica. Para piorar, o disco, que, além de duplo, é conceitual(!). E, como desgraça pouca é bobagem, na prática, a música de um nada tem a ver com a do outro; são caminhos que não se cruzam, salvo em uma ou outra coincidência. Cada macaco no seu galho – pelo menos era assim –. Agora, não sei dizer se foram os galhos ou se os macacos é que mudaram. Mas, algumas coisas ficaram fora de ordem na aldeia dos metallibans: esse um misto de metaleiros – fãs do Metallica ou não – e radicais islâmicos, aqueles tipos capazes de exterminar um terço da humanidade, quando têm suas convicções feridas ou postas em dúvida.

Eu não saberia quantificar o número de fãs de James Hetfield, Kirk Hammett, Robert Trujillo e Lars Ulrich, que deixaram de amar o Metallica sobre todas as coisas. Por outro lado, aposto que os fãs de Lou Reed (ao menos a maioria) tenham se importando muito com essa empreitada. Todavia, a joint venture Reed-Metallica produziu não apenas um álbum, mas um festival de besteiras dela derivadas, disseminadas internet a fora, como uma epidemia de gripe. Basicamente, toda essa celeuma se assenta em uma base só: a ignorância.

Os comentários variavam de um básico “não gostei”, passando por análises técnicas minuciosas feitas por ‘especialistas’, faixa por faixa, a declarações de ódio absoluto ao fundador do The Velvet Underground, visto por muitos como um intruso velho e decadente, numa tribo de iluminados do heavy metal, aquela gente portadora do Complexo de Povo Escolhido. O problema maior desses comentaristas era – e ainda é – a mais pura alienação. Primeiro: por não saberem a importância de Lou Reed na história da música moderna; segundo: por não procurarem saber as razões que levaram o Metallica a participar de Lulu; e, terceiro: pouca gente se interessou em saber quem foi Benjamin Franklin Wedekind, o verdadeiro ‘culpado’ por toda essa confusão, pois, foi ele o criador da anti-heroína musa inspiradora do álbum (por enquanto) maldito.

Já estamos em plena segunda década do século 21, época em que a tecnologia nos dá acesso a um mundo de possibilidades trazidas pela internet de forma praticamente instantânea. Entretanto, como uma espécie de efeito colateral resultante dessas facilidades, parece que a preguiça anda de mãos dadas com a ignorância, daí a série ideias pré-concebidas, ou aquela velha questão do efeito manada; do ser humano que se anula enquanto indivíduo, cada vez mais incapaz de pensar por si, em favor de um pensamento coletivo indutor de equívocos e preconceitos, que levam a julgamentos instantâneos sobre quase tudo. A pressa em enquadrar qualquer assunto em um padrão, um rótulo ou uma lógica de raciocínio dirigido, que, por causa desse imediatismo ‘internético’ condena ideias ao apedrejamento em uma praça pública metafórica, não a prostituta Lulu, mas seu criador (mesmo que inconscientemente) – Wedekind –; seu admirador – Lou Reed –; e os admiradores deste – O Metallica.

O álbum Lulu nada tem de inédito em sua proposta. Antes dele, o rock produziu obras fantásticas, nascidas de devaneios e das observações de seus autores e suas visões do mundo real ou imaginário: Tommy e Quadrophenia (The Who), Thick as a Brick (Jethro Tull), The Lamb Lies Down on Broadway (Genesis), The Wall (Pink Floyd), 2112 (Rush), e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spider from Mars (David Bowie), só para citar alguns. Cada um desses álbuns abriu uma, duas, mil portas multidirecionadas em um leque de possibilidades a livros, filmes, peças de teatro, artes plásticas, enfim, qualquer forma de arte altamente influenciável que, não raro, foram além das intenções de seus autores. Aí está, portanto, uma prova inequívoca da imortalidade que esses álbuns alcançaram, enquadrando rock enquanto ritmo compreensivelmente em um plano secundário, ou seja, ultrapassaram o gênero musical dentro do qual foram criados, sem o objetivo do demérito.

Grandes álbuns, como os citados, nos levaram a Poe, Orwell, Tolkien, Marquês de Sade, Crowley, Shakespeare, Kerouac, Burroughs, Jesus Cristo, Buda… Lulu não fez diferente.

Voltando a Benjamin Franklin Wedekind. Apesar do nome sui generis, Frank Wedekind nasceu na Alemanha, em 1864. Aos 20 anos abandonou o curso de direito para se dedicar à literatura e ao teatro, começando assim uma carreira repleta de altos e baixos, ainda assim, rica e fascinante, tal qual a de um astro do rock. Lulu, a nossa lasciva heroína “nasceu” em 1895, como personagem principal da peça O Espírito da Terra, primeira parte da trilogia que ostenta seu nome. Em 1904 publica a segunda parte da trilogia em A Caixa de Pandora. E, em 1905, a trilogia se encerra em A Morte e o Demônio. Wedekind nunca parou de produzir, até sua morte em 1918. Em 1922, O Espírito da Terra estreou no cinema e, em 1929, foi a vez de A Caixa de Pandora. Outra obra de Frank Wedekind a conquistar as telas foi O Despertar da Primavera, em 1929. O resto é História. Fica para você a tarefa de desvendá-la.

A síntese acima anula os efeitos do bate-boca do álbum que, nada mais faz do que contar a história de uma personagem agora centenária, que fascina pela complexidade apaixonante e apaixonada com que é mostrada, desta vez, sob um novo ângulo, na concepção de um homem – Lou Reed – conhecido, inclusive por seus detratores, por ousar, ser o dono das próprias vontades sem temer as consequências. Na outra ponta, a ousadia parte do Metallica, que aceitou pagar o preço pela ‘traição’ ao movimento do qual é líder inconteste. Isto é independência. Uma demonstração de coragem, algo cada vez mais raro no rock deste mal parido século 21, mais afeito a tolices pré-fabricadas para agradar o mercado. Uma das queixas mais comuns feitas pelos protestantes, se refere à voz de Lou Reed. Pelo que consta, ele nunca quis ser um Frank Sinatra ou um Tony Bennet, da mesma forma que Patti Smith não é uma Ella Fitzgerald, tampouco Neil Young um Luciano Pavarotti.

Lulu, o álbum, é poesia viva, sem amarras, declamada por um homem de 70 anos com fundo musical feito em um heavy metal vigoroso. Temo que este seja a última obra-prima do rock. Talvez sua péssima reputação se desfaça em 10, 20, 30 anos. Não importa. A História está repleta de equívocos semelhantes. Nada como o tempo para dar vitória à razão. Amém.

Só para constar: Miguel Sokol, o enfezado articulista da revista Rolling Stone Brasil (edição no. 106), trouxe o Caso Lulu à baila. No artigo ele declara: “(…) Na última cerimônia do Hall da Fama do Rock, Laurie Anderson, viúva de Lou, fez uma revelação no discurso de indução do marido. Ela contou que David Bowie, reservadamente lhe afirmou: “Lulu é a obra-prima de Lou”.

É possível encontrar no You Tube trabalhos inspirados nas, ou adaptados das obras de Frank Wedekind. Para começar, sugiro começar por Caixa de Pandora:

Texto publicado na 6ª edição da revista “Gatos & Alfaces“, Junho 2015

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

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