A picanha prometida por Lula é uma metáfora, mas ninguém se alimenta disso.
A carne nobre de verdade será cobrada, e com cerveja gelada.
30 de outubro de 2022: dia de decisão. Não a decisão de um campeonato esportivo, tampouco o final eletrizante de uma novela, quando então seria revelado o nome do assassino, os maus seriam derrotados e os bons seriam recompensados com a felicidade eterna, afinal, o amor tudo vence. A decisão era eleitoral/política/ideológica, recheada de interesses e desinteresses. O atual presidente da República Jair Bolsonaro disputava sua continuidade no Palácio do Planalto com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nenhum divertimento público estava a altura da disputa. Por outro lado, tal qual na novela ou no campeonato esportivo, os embates eleitorais apresentavam seus heróis e seus vilões. Dependendo da preferência do público, o vilão era o herói e vice-versa.
E eis que a novela termina, com a vitória do vilão, segundo o posicionamento deste reles escriba. Luís Inácio é eleito presidente da República pela terceira vez, vencendo Bolsonaro com o placar marcando 50,9% a 49,1% dos votos válidos. Se compararmos a disputa com uma corrida de cavalos, a diferença é comparável a algumas polegadas de focinho, uma tragédia para o Capitão do Povo e aos que digitaram o número 22 na tecla da urna. A palavra “tragédia” não é mero exagero retórico.
https://www.jota.info/eleicoes/lula-vence-segundo-turno-e-e-eleito-presidente-do-brasil-pela-terceira-vez-30102022
A vitória do ex-presidiário, em termos regionais, ocorreu apenas na região Nordeste. Lá, onde Jair Bolsonaro investiu pesado em obras públicas e ações sociais, entre elas, a finalização da transposição do rio São Francisco, a distribuição de títulos de terra àqueles que sempre foram utilizados como massa de manobra pelo MST, um braço do Partido dos Trabalhadores, de pouco ou nada adiantou. Também, as gigantescas motociatas não tiveram grande efeito sobre a decisão do eleitorado nordestino. De fato, os 30,7% dos votos válidos dados a Bolsonaro se traduziram em uma grande decepção, apesar de o Presidente ter vencido em todas as demais regiões: 54,3% no Sudeste; 51,0% no Norte; fantásticos 60,2% no Centro-Oeste; e, por fim, igualmente fantásticos 61,8% no Sul.
Desde o anúncio da vitória de Lula, naquela noite de domingo de 30 de outubro, em que se encerrava a apuração da votação em segundo turno, todos se perguntavam (e ainda perguntarão pelos meses e talvez anos vindouros), qual a razão de o Nordeste ter decepcionado as expectativas, mais uma vez. Não à toa, a população da região mais pobre do país, está sendo alvo de críticas raramente divulgadas pela grande imprensa, talvez por medo de serem interpretadas como xenofobia, racismo, ou qualquer outro comentário depreciativo. Cada um que se sentiu perplexo e, em certos, casos, traído pelo eleitorado nordestino, não encontrou, até agora, uma justificativa ao menos técnica para a tendência de parte considerável do eleitorado de uma região que há séculos fica roendo osso no quesito desenvolvimento, seja material ou humano.
A impressão que resiste ao tempo sempre liga o povo nordestino a uma eterna tendência de viver sob o jugo de um Antônio Conselheiro, Virgulino Lampião, Padre Cícero, beatos, “coronéis” líderes de famílias que sempre ditaram as regras de DNA feudal, e as adaptando às mudanças geracionais. No fundo, no fundo, tudo muda para ficar como sempre foi, apesar da evolução da humanidade. Guardadas as devidas proporções, a América Latina também possui uma vocação nordestina de dar um passo a frente e dois ou três para trás. Em pleno século 21, essa “tradição’ deveria estar restrita aos livros de História. Mas não, é aquela coisa sempre presente. Até parece que exploradores e explorados estão sempre de mãos dadas. É um jogo que não muda, e os que se fodem sempre são aqueles que possuem a força para mudar o resultado. Contudo, convém frisar que as mazelas políticas, econômicas e sociais da região Nordeste também é replicada nas demais regiões, especialmente no Norte. Todavia – não quero estar equivocado – só que em um grau menor. O Brasil não deixa de surpreender.
Na apuração do segundo turno das eleições de 2014, quando a presidente Dilma Rousseff, do PT, venceu o tucano Aécio Neves por 51,6% a 48,4% dos votos válidos, causando um desapontamento geral, só suplantado pelas eleições de 2022, cheguei a publicar meu manifesto no Facebook, deixando o estado de coisas que tinha como protagonista a região Nordeste, que deu a reeleição para a “estocadora de vento”. Dois anos depois, a “mulher sapiens” foi defenestrada do Palácio do Planalto em razão dos inúmeros escândalos, somados a administração desastrada da economia. Assumiu o posto de Presidente da República seu vice Michel Temer, o qual, justiça seja feita, arrumou a casa para que esta não despencasse no abismo.
Ao que parece, toda a série de escândalos surgidos nos dois (des)governos do poste de Lula, somados aos dois de seu guru, não foram suficientes para deixar patente que, onde quer que a esquerda se instale, a ordem natural das coisas se esvai ou se transmuta em outras que quase sempre resulta em desastre.
E eis que essa transmutação está de volta, visto que, a corrida eleitoral de 2022 começou, na verdade, em 2018, quando o atual presidente (pelo menos até 31.12.2022) surfando numa onda de antipetismo que contaminou o país, e como sobrevivente de um atentado praticado por um ex-militante do PSOL, partido aliado ao PT, foi eleito, para desencanto de um organismo denominado “O Sistema”, presidente da República. Jair Bolsonaro sobreviveu, não apenas à facada desferida por Adélio Bispo, mas às ações e aos golpes baixos de parte considerável da imprensa, de aliados de primeira hora, da classe artística, de intelectuais, da ala progressista da Igreja Católica, dos mais diferentes níveis do Poder Judiciário; de celebridades internacionais, que nem sempre são capazes de identificar o Brasil no mapa mundi. Enfim, nunca se viu na História do Brasil ações concentradas e consertadas com um único objetivo: destruir Jair Bolsonaro, o qual, justiça se faça, também se ocupou de jogar algumas cascas de banana à frente, parafraseando aquela velha música de Roberto Carlos, seu jeito meio estúpido de ser, o qual foi explorado ao máximo por todos aqueles que tiveram interesses feridos pelo Presidente. O advento da pandemia do vírus chinês também foi outra arma poderosa utilizada contra Bolsonaro, ao qual foi atribuída a pecha de genocida.
Ao contrário do que se previa em 2018, Jair Bolsonaro não deu um golpe de estado, não perseguiu judeus, gays, mulheres, negros, artistas e, claro, tampouco nordestinos. Bolsonaro também não censurou jornais, não mandou perseguir nem prender opositores. Na verdade, Jair Bolsonaro poderia, como qualquer cidadão, acionar a Justiça para muitos casos de agressão a sua honra e a da sua família. O que ocorreu, na prática, foi uma série de ações coordenadas pela Justiça, que marcava todos os passos e palavras do mandatário da nação, por quaisquer palavras ditas. Não se tem conhecimento de nenhum presidente alvo de um bem coordenado ativismo judicial. Escabrosamente, o Poder Judiciário avançou sobre os poderes Legislativo e Executivo, causando um desequilíbrio constitucional, cujos efeitos se fazem sentir no dia-a-dia dos brasileiros, os quais, ora vejam, são obrigados a conviver (e aceitar) uma praga chamada Censura, trazida de volta por ministros encarregados de defender a Constituição.
“A ministra Cármen Lúcia, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), disse nesta 5ª feira (20.out.2022) que “não se pode permitir a volta de censura sob qualquer argumento no Brasil”. A declaração foi dada durante julgamento sobre a desmonetização de canais com conteúdo favorável ao presidente Jair Bolsonaro (PL). O caso também envolveu a suspensão, até 31 de outubro [de 2022], da exibição do documentário “Quem mandou matar Jair Bolsonaro?”, produzido pelo site Brasil Paralelo.
As medidas foram determinadas pelo corregedor-geral Eleitoral, ministro Benedito Gonçalves, em 18 de outubro. O pedido partiu da campanha do candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva. Nesta 5ª feira, o TSE confirmou, por maioria, a decisão do magistrado. Apesar de sua declaração, Cármen Lúcia votou favoravelmente às restrições –inclusive de veiculação do documentário. Disse ser uma situação “excepcionalíssima” e que as determinações serviriam para assegurar a segurança do pleito.
(…)
A ministra fez uma ressalva. Afirmou que a medida pode ser revista se, durante a condução do processo, for verificada que a decisão pode ser uma “censura”. “Se, de alguma forma, senhor presidente e especialmente o ministro relator, que é o corregedor, isto se comprovar como desbordando para uma censura, deve ser imediatamente reformulada essa decisão no sentido de se acatar integralmente a Constituição e a garantia da liberdade, de ausência de qualquer tipo de censura”.
https://www.poder360.com.br/eleicoes/nao-se-pode-permitir-volta-da-censura-diz-carmen-no-tse/
Pois é. Trocando em miúdos, o que a Ministra quis dizer é que a Justiça tem lado e candidato, e que, por necessidade de “evitar um mal maior”, vale o risco de suspender um importante preceito constituição só por alguns dias, mesmo se tratando de um documentário que ninguém viu, sob a justificativa da manter uma suspeitíssima higidez do processo eleitoral. Carmem Lúcia e seus supremos colegas testemunharam nesses últimos quatro anos diversas ações pra lá de questionáveis, que atropelaram o direito constitucional, reinterpretando a Carta Magna conforme as conveniências das partes interessadas. O que se depreende desse descalabro, é que ações semelhantes serão tomadas com relativa facilidade no futuro. Alguém duvida?
E assim o bonde da vergonha segue em frente, sem que se conheça o seu destino.
Nos dias que se seguem ao anúncio do vitorioso das eleições, o Brasil está em ebulição. Os inconformados com o resultado protestam por todo o país, inclusive, tomando atitudes insanas típicas da esquerda, como o bloqueio das rodovias. A frente dos quarteis do Exército são ocupadas por manifestantes vestidos de amarelo, pedindo ações efetivas contra aquilo que chamam de golpe. Ao mesmo tempo, a grande imprensa os acusa de golpistas, fascistas, antidemocratas, milicianos bolsonaristas. Aliás, o termo manifestante foi substituído por “bolsonarista” propositadamente pejorativo, chegando ao ponto de nivelá-lo a extremista e terrorista. Salvo poucas e honrosas exceções, a imprensa brasileira optou por chafurdar na lama. No fundo, desconfio que esse posicionamento vergonhoso é um investimento – verbas publicitárias, naturalmente – fundamentais para a saúde financeira dessas empresas, visto que os leitores, ouvintes e telespectadores migrou para fontes alternativas (e mais eficientes) de informação. Tais empresas, quase no mesmo modus operandi que mantém o eleitorado em permanente estado de voto de cabresto. Nesse caso, nada como o Governo para dar uma força. É óbvio que, nessa troca de favores, o silêncio, a omissão e a conivência com desmandos de políticos fazem parte do negócio.
Não podemos esquecer da classe artística, cuja fome de verbas públicas para financiamento de seus projetos é imensa. Para isso, eles têm como espelho a grande imprensa. Viveremos para ver isso acontecer.
O novo-velho presidente apressa-se em formar aquilo que será o novo governo que assumirá em 01.01.2023, vinte anos após a primeira vez. Obviamente, as promessas feitas estão sendo cobradas, nem todo mundo ficará satisfeito, pois os cofres públicos tem limites. Ou não.
Felizmente, a depender das projeções e, ao contrário dos anos anteriores, o atual cenário político trouxe de volta um personagem importante: a Direita. Expulsa da vida nacional desde a Redemocratização na década de 1980, ela voltou a ocupar os espaços a que tem direito. Embora ainda não esteja organizada, o antagonista da Esquerda também sabe fazer barulho e, o que é melhor, está aprendendo a incomodar, pois possui forte representatividade no Senado e na Câmara dos Deputados. Por outro lado, como a arte da política sabe pregar peças, há o risco de essa maioria se enfraquecer, em razão da existência de políticos venais, especialmente daquele bloco chamado de Terceira Via. Convém destacar que a Direita possui inimigos poderosos, principalmente no Poder Judiciário, em grande parte da imprensa e na classe artística.
Não custa lembrar que, a partir de 01.01.2023, o já ex-presidente Jair Bolsonaro será perseguido de todas as maneiras, bem como seus parentes e aliados mais próximos, sob todos os argumentos possíveis e impossíveis, haja visto que seus 58.206.354 de votos pesam bastante. Caberá ao Capitão administrá-los sabiamente, e usá-los como arma política eficiente e demolidora.
Certo está que 2023 não será um ano fácil. E certo está que não haverá chuva de picanha, nem o cumprimento de promessas de campanha do novo-velho presidente. É mais provável que os eleitores recebam apenas as duas primeiras sílabas da palavra picanha. E terão que se darem por satisfeitos.
https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/43532/ao-vivo-globo-revela-que-promessas-de-campanha-de-lula-nao-serao-cumpridas-e-castelo-comeca-a-ruir-veja-o-video
Por fim, aos que acreditaram nas palavras e promessas do Senhor Nove Dedos, caso pouco ou nada aconteça conforme o prometido, dou um conselho: façam um L.
06/11/2022
Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.
