Arte by Barata

Geraldo Alckmin, o Traidor e a Pocilga

A política ama a traição e odeia o traidor (Leonel Brizola)
Eu jamais votaria em Leonel Brizola, mas ele sabia o que dizia.

Muito tempo atrás, na empresa em que eu trabalhava, alguém, não lembro quem, disse: “A política é como chão de pocilga: por mais que você entre limpo não há como sair limpo dela, mesmo que você não veja a sujeira”. Foi isso ou algo parecido. Era 1982. O regime militar estava em sua fase terminal. Os políticos cassados nos Anos de Chumbo foram beneficiados pela Lei da Anistia, recuperando seus direitos políticos e, é claro, a possibilidade de disputar as eleições. Muitos deles foram eleitos, e os que não foram, recuperaram sua visibilidade pública. Na prática, o que ocorreu foi a volta de ideias velhas e desacreditadas. O Brasil evoluiu muito pouco desde então, basta ver como nosso país se apresenta no panorama mundial em 2022: é grande como sempre foi, mas não dá as cartas, embora alimente cerca de um bilhão de pessoas. Por outro lado, ainda há brasileiros que não sabem ler, moram em favelas, são vítimas da violência urbana, da falta de acesso à saúde de qualidade, entre outros fatores. Fala-se muito em cidadania, mas isso ainda é uma abstração.

O populismo, que nunca sumiu da paisagem política brasileira, mudou para continuar sendo o mesmo. Os eleitores acreditavam nos milagres de antigamente, enquanto os eleitos acreditavam nos benefícios resultantes daquele gado ingênuo e manipulável. Nesse período, os conceitos de esquerda ganharam destaque, enquanto os de direita foram empurrados para a marginalidade, de forma que foram escanteados na Constituição de 1988. É verdade que ela trouxe algum avanço aqui e ali, inclusive mecanismos para impedir um novo 1964. No geral, o que se percebe (ao menos por mim), é que o povo é totalmente tutelado por um livro extenso, complexo e cheio de brechas que dão margem às mais esdrúxulas interpretações, inclusive daquele grupo de 11 semideuses, os quais, ao menos em tese, são escolhidos para defender a tal Constituição Cidadã.

As tais brechas constitucionais são responsáveis por toda essa confusão/tensão pré-eleitoral em 2022. É incrível como as regras do jogo são mudadas a cada corrida eleitoral, mais para beneficiar políticos e partidos concorrentes do que o eleitor, esse sujeito eternamente passivo na cultura política brasileira. Todavia, ao que se percebe, o eleitor brasileiro já não está tão disposto a representar o papel de gado. Os ventos da política, especialmente a partir do escândalo do mensalão, da queda do governo de Dilma Rousseff e da prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva por corrupção.

Como se sabe, Lula esteve preso por pouco mais de um ano em uma sala ao invés de uma cela, na sede da Polícia Federal em Curitiba. Apesar da gravidade de seus crimes, manobras jurídicas no Supremo Tribunal Federal devolveram a liberdade ao ex-presidente, de forma que ele agora se apresenta como pré-candidato à presidência da República, em contraposição ao presidente Jair Bolsonaro, também pré-candidato ao mais alto cargo político da nação. Esqueçam a Terceira Via, esse arranjo criado para dar ao eleitor a opção de escolher um nome viável para o eleitor que rejeita tanto Lula quanto Bolsonaro. A briga mesmo será entre o atual presidente e o ex-presidiário. O resto é resto. Simples assim.
E onde é que entra Geraldo Alckmin nessa briga?

Voltemos à pocilga.

“O PSB realizou um evento oficial para indicar Geraldo Alckmin (PSB) para concorrer a vice na chapa presidencial do ex-presidente Lula (PT). Gleisi Hoffmann, presidente Nacional do PT, também esteve no evento. No próximo dia 14, o partido deve aprovar o nome de Alckmin.

Chamado por Gleisi de “companheiro Geraldo Alckmin”, o ex-governador de São Paulo agradeceu a confiança e a honra de ter sido indicado para ser vice de Lula. “Política não é uma arte solitária, nós vamos somar esforços para a construção do nosso país”, disse Alckmin. “Temos hoje um governo que atenta a democracia e atenta contra as instituições.”

“O presidente Lula, no último ano de seu governo, em 2010, o PIB brasileiro cresceu 7,5%. Quero somar meus esforços ao presidente Lula para a gente recuperar renda, empregos dos brasileiros e a população poder ter dias melhores. Chega de sofrimento para o povo brasileiro”, afirmou. “Vamos colocar nosso nome à disposição para que a gente possa trabalhar pelo Brasil.”
Lula afirmou que a relação entre PT e PSB é histórica. “Conseguimos demonstrar que duas forças que têm projeto, duas forças que têm princípios podem se juntar em um momento que é de interesse do povo”, disse o ex-presidente. O petista elogiou Gleisi Hoffmann e afirmou que a presidente do partido não tem medido esforços para que Lula e Alckmin vençam a eleição.

Ao falar com Geraldo Alckmin, Lula pediu para ser chamado de “companheiro Lula” e avisou que chamará o colega de chama de “companheiro Alckmin”. O ex-presidente afirmou que a polarização que protagonizou contra Alckmin e Serra era uma “polarização civilizada”, em que os adversários se respeitavam.

Lula afirmou que a relação entre ele e Alckmin sempre foi “respeitoso e civilizado” e relembrou encontros entre eles quando o petista era presidente e ia ao estado de São Paulo, governado por Alckmin.

O presidente do PSB, Carlos Siqueira, afirmou que o que está em risco na eleição de outubro é a democracia. “Não é uma eleição da esquerda contra a direita, mas da democracia contra o autoritarismo”, declarou.

A parceria foi oficializada nesta sexta-feira (8), mas há meses havia uma articulação para a formação da chapa entre Lula e Alckmin. O movimento é uma tentativa do petista de ir mais para o centro do espectro político e atrair mais eleitores, com o objetivo de derrotar Jair Bolsonaro (PL).

Aproximação entre Lula e Alckmin

Alckmin e Lula foram adversários políticos em eleições presidenciais. As disputas foram marcadas pela troca de farpas entre os dois. Com a aproximação para a chapa presidencial, o petista e o ex-governador de São Paulo passaram a trocar elogios: Alckmin classificou Lula como esperança do Brasil, enquanto o ex-presidente afirmou que os dois são democratas e podem trabalhar juntos.

“Eu e o Alckmin podemos estar juntos na chapa. Vou ter uma reunião na sexta-feira em que o PSB vai propor ele, o Alckmin, de vice e isso nós vamos levar para discutir no PT. Vamos reconstruir o Brasil porque somos dois democratas, gostamos da democracia e temos como prova o exercício dos nossos mandatos”, declarou Lula na última terça (5).

Em março, Alckmin afirmou que Lula é quem melhor representa os brasileiros. “Ele [Lula] é, hoje, aquele que melhor reflete, interpreta o sentimento de esperança do povo brasileiro. Aliás, ele representa a própria democracia porque ele é fruto da democracia. Não chegaria lá, do berço humilde que sempre foi, se não fosse o processo democrático. Por ter conhecido as vicissitudes, é que, na realidade, interpreta esse sentimento da alma nacional.”

Saída de Alckmin do PSDB.

Geraldo Alckmin passou 33 anos filiado ao PSDB. Após embates com João Doria, ele deixou o partido e migrou para o PSB.

Os desentendimentos entre Doria e Alckmin começaram em 2018. O empresário entrou no PSDB como apadrinhado de Alckmin, mas, na corrida eleitoral, apoiou Bolsonaro, com o voto BolsoDoria, em vez de apoiar o tucano.

Em 2021, Geraldo Alckmin pensava em se candidatar novamente ao governo paulista. Doria, no entanto, articulava o partido para que Rodrigo Garcia fosse o candidato tucano e afirmou que Alckmin poderia participar das prévias do partido.

Atraído pelo convite de Lula para integrar a chapa presidencial, Alckmin optou por deixar ao partido e ir para o PSB.

https://br.noticias.yahoo.com/eleicoes-2022-em-evento-em-sp-psb-oficializa-alckmin-como-vice-de-lula-140155748.html

Não é segredo para ninguém que, entre tantos gestos nada nobres, a traição é mercadoria farta e barata no meio político. Políticos se atraem e se traem conforme suas conveniências. E, o que é mais grave: políticos traem seus eleitores das mais diversas maneiras, e o ex-governador e ex-garçom do Ronnie Von não foge à regra. No caso de Geraldo Alckmin, a traição alcança uma dimensão maior que a tradição. Tudo indica que os eleitores do ex-governador tucano não deixarão barato. É óbvio que estou apenas presumindo, baseado no que vejo nos meios de comunicação de um modo geral.

Os brasileiros muito aprenderam não apenas sobre a política, mas como ela acontece de fato, mesmo fora dos holofotes. E, também aprenderam muito duramente como os mecanismos da política afetaram a vida de todos no bojo da pandemia do vírus chinês. O ex-governador Alckmin também faz parte das engrenagens desses mecanismos, mas ele não se deu conta da cova que foi aberta para sepultar sua carreira política por causa de uma manobra política que vai lhe custar caro.

Ao que parece, os eleitores estão cada vez menos otários e mais críticos e cada vez mais exigentes, quando não cruéis. A internet lhes deu o poder do não esquecimento. Um exemplo claro disso são as declarações do ex-governador paulista contra seu arquirrival Lula ao longo dos anos. São palavras fortes e incisivas. Em contrapartida, o ex-presidente também não economizou nas ofensas. Confesso que foi divertido porque era interessante acompanhar os embates retóricos entre as duas figuras.

O ano de 2022 não será, já está pesado. A classe política tradicional está em polvorosa, pois os brasileiros a está cobrando alto e forte. O Fenômeno Bolsonaro e a saída da direita do armário (para o qual ela jamais deveria ter ido) desarrumaram o chiqueiro. Já não vale mais o dito pelo não dito, o esqueçam o que falei, o me interpretaram mal, o descontextualizaram o que falei. Tento me colocar na pele do eleitor de Geraldo Alckmin para adivinhar a sensação de ter sido traído por aquele que, durante anos foi o destino do meu voto. O resultado é uma frustração e uma raiva descomunal e, é óbvio, o desejo de vingança. Sim, ela virá. A retaliação se dará na debandada de parte do eleitorado do Picolé de Chuchu paras as hostes de Jair Bolsonaro; a outra parte optará pelo voto nulo ou em candidaturas menores. Sim, o eleitor está aprendendo a ser cruel.

Na hipótese da vitória de Lula, há uma grande pergunta que surgirá a partir da cerimônia de posse do novo-velho presidente:

Quanto tempo levará para Lula trair seu vice “companheiro” Geraldo Alckmin?

Aconteça o que acontecer, uma coisa é certa: a cova da carreira política de Geraldo Alckmin já está aberta. Na pocilga, é claro.

10/04/2022

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

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