A Mosca na Sopa do Século 21

21 de Junho de 1973, chegava às lojas de todo o país, o LP “Krig-Ha-Bandolo”, resultado das inquietações filosóficas-existenciais-políticas de um sujeito feio, cabeludo e magricela chamado Raul Seixas, vindo da Bahia “depois de ter passado fome por dois anos na Cidade Maravilhosa”, e nela ter provado o gosto amargo da busca pelo sucesso, numa espécie de peregrinação repetida por aspirantes a carreira artística. Após passar por toda sorte de provações, Raul apresentou aos brasileiros esse álbum como um troféu pelo sucesso conquistado.

Krig-Ha-Bandolo é o primeiro trabalho solo de Raul Seixas, tendo como parceiro o escritor Paulo Coelho, e é o primeiro de uma série de álbuns bem-sucedidos na década de 1970, que firmaram o nome de Raulzito na história da cultura brasileira. O disco foi incluído na lista dos 100 maiores discos da música brasileira da revista Rolling Stone, ocupando um respeitável 12º lugar, ao passo que a obra-prima aparece em primeiro lugar em listas semelhantes. Contudo, não é sobre esse álbum que trato nesta matéria, e sim, sobre uma faixa em particular: Mosca na Sopa.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_dos_100_maiores_discos_da_m%C3%BAsica_brasileira_pela_Rolling_Stone_Brasil

Raul Seixas 1973 (Foto O Globo)

Naquele já distante (mas nem tanto) ano de 1973, o regime militar estava em sua fase mais feroz, em resposta às ações de grupos de extrema-esquerda, que agiam em diversos pontos do país, cometendo, sequestros, atentados terroristas, assassinatos, assaltos e ações de guerrilha, visando a derrubada do regime e a implantação de um regime marxista. O contexto era de Guerra Fria. A Censura, uma arma do regime para vigiar, controlar e punir, quando era o caso, todas as formas de expressão artística que o Governo julgasse subversivas, ou como atentado à moral e os bons costumes. Evidentemente, a música, por ser facilmente difundida, estava sempre no radar dos censores. Obviamente, uma parte da classe artística estava sempre no radar da Censura, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, bandas de rock, etc., e Raul Seixas logo passou a integrar o grupo, dado o conteúdo inconformista e ao mesmo tempo irreverente de Krig-Ha-Bandolo, sendo Mosca na Sopa e maior destaque do álbum.

Naquele 1973 eu era uma criança, ouvia Mosca na Sopa no rádio. Como não poderia deixar de ser, o meu entendimento da letra era literal, afinal de contas, o inseto era onipresente nas casas, inclusive na minha. Raul falava de uma mosca que zumbizava, abusava, perturbava o nosso sono, e, claro, pousava na nossa sopa. Moscas e sopa haviam em qualquer casa. Por serem muito pequenas, a matávamos com veneno – o DDT, componente bastante comum em inseticidas –, mas não adiantava muito, pois vinha outra em seu lugar. Mosca na Sopa era um sucesso, tocava nas rádios, nas tevês, nas festinhas da vizinhança. E não era apenas eu que não entendia o real significado da música, muita gente também não. De qualquer modo, a mensagem estava dada.

Na composição de Raul Seixas, a sopa significa o regime militar; e a mosca, o povo, ou qualquer meio de espezinhar o poder ditatorial de então, o que não permite ao dono da sopa o merecido sossego. Simples assim. Há outras interpretações para o significado da música, mas não vem ao caso tratar delas aqui.

Como era de praxe na época, a música foi submetida ao crivo da Censura, que a liberou sem cortes, não sem antes declarar que, “Em que pese a estupidez e o mau gosto, somos pela liberação já que não atinamos a comprometimentos outros”. O censor deve ter cochilado.

Tudo o que se refere ao álbum Krig-Ha-Bandolo!, a Raul Seixas e a Mosca na Sopa está fartamente documentado, sendo de fácil acesso a qualquer pessoa, graças ao milagre da internet.

Aqui damos um salto no tempo.

Encarte do Disco

A música Mosca na Sopa, ao contrário do que se pensa, não envelheceu nestes mais de cinquenta anos. Em 2024 o cenário é outro. O regime militar acabou em 1985, após 21 anos no comando do país, a censura foi abolida, o Brasil ganhou uma nova Constituição em 1988, na qual está garantido que a liberdade de expressão é um direito inalienável. Entretanto, os fatos provam que as coisas não são bem assim, visto que onze pessoas vestindo togas reinterpretam a Carta Magna da forma que lhes convém, inclusive, reinterpretando o conceito de liberdade de expressão, sem falar de outros acintes a Constituição Cidadã. Em outras palavras: a Censura está de volta.

E de volta estão a sopa e a mosca, mas não Raul Seixas, que faleceu em 1989. Como ninguém é capaz de compor uma música com o peso da irreverência da obra-prima do Maluco Beleza, a Mosca na Sopa de 1973 se faz cada vez mais presente. Entretanto, os significados do alimento e do inseto são os seguintes:

A sopa: a cúpula do Poder Judiciário e o governo do atual Presidente da República; uma parte considerável da chamada grande imprensa, da classe artística, da intelectualidade, das instituições aparelhadas pelo partido do governo, entre outros.

A mosca: todos aqueles que não aceitam e combatem o status quo por todos os meios disponíveis, e que são perseguidos por não se deixarem seduzir por uma falsa ideia de democracia, e a rejeição de um projeto de hegemonia política, interrompido no governo “fascista” de Jair Bolsonaro.

A mosca na sopa do século 21 não está sendo combatida com DDT, um veneno banido, mas com prisões ilegais, intimidações, multas e visitas-surpresas da Polícia Federal. Entretanto, para desespero da sopa, as moscas são incansáveis, e ficam zumbizando por aí, perturbando o sono dos ocupantes do Poder, que, mais cedo ou mais tarde, serão postos para fora, não por causa desses insetos inconvenientes, mas por seus próprios crimes.

A propósito. Conforme Raul Seixas esclareceu ao temido Departamento de Ordem Política e Social – DOPS, a expressão Krig-Ha-Bandolo!, tirada dos gibis de Tarzan que ele lia na infância, significa “Cuidado, aí vem o inimigo!”

Ele já veio. Vamos jogar fora a sopa.

18/03/2024

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.

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3 Comentários
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Fernanda Araujo
Fernanda Araujo
13/06/2024 15:15

Eu não conhecia essa história e amei as comparações. Compartilhando agora!!!

BarataVerso
Responder a  Fernanda Araujo
13/06/2024 16:25

Agradecemos muito o compartilhamento das nossas publicações. Isso nos ajuda bastante!

Genecy de Souza
Genecy de Souza
Responder a  Fernanda Araujo
13/06/2024 22:11

Muito obrigado pelo elogio.
Continue conosco.

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