O fascínio da cidade acesa
Seus delírios, suas histórias
A manta encoberta de todos os gozos.
A noite, e os becos de sangue
Solitários suicidas de arma comprada em camelô
Deixam bilhetes de despedida
Viram nota de rodapé de jornal
Entram pra estatística,
Um número tosco dessa humanidade.
Sarjetas e desajeitados à deriva,
Prostitutas inocentes vendendo carne
Bordéis lotados, salvando o mofo dos relacionamentos de sexta feira
Trepadas de alívio são terapêuticas
Já dizia meu pai
Mais barato que advogado, e sem bastardo no braço.
A porra ejaculada na camisinha, é troféu.
Só mais um drink, nesse inferno.
Papai e mamãe não conversam mais
Suas pernas e sexos estão em outras camas.
Os desencontros do cinzeiro,
Queimando as horas da madrugada.
Da janela, só os vultos disformes
as lanternas dos carros,
O grito do asfalto.
O ranger dos dentes
O escuro dos olhos
O infecto dos ossos
O negro da noite.
13.01.20
Nunca entendi as pessoas que acham que a poesia não deve se prestar ao tratamento de temas incômodos como pedras no sapato: as palavras dispostas em estrofes burilam tão bem quanto a prosa esses assuntos que a maioria varre para debaixo do tapete. Eu, que nasci há cinco décadas e meia numa cidade que ainda hoje não chegou aos dez mil habitantes, sei o que é um lugar aparentemente decente, mas que esconde segredos cabeludos em quase todas as casas que deveriam ser lares. Ótimo texto!
Eu gosto de todos!