A Triste Figura de Um Professor

Era um amigo do meu pai. Nós o conhecíamos como Professor Sérgio. Se não estou enganado ele era italiano de nascimento, um homem culto e educado, artista dos bons. Este senhor é uma das minhas lembranças taciturnas de uma São Paulo fria e cinzenta. Todos os anos que passei lá na primeira metade da década de 70 hoje me são rememoradas com cores opacas, mortiças, como uma gravura que estivesse muito tempo exposta ao sol e seus pigmentos tivessem desbotados.

Hoje não lembro mais a origem do Professor Sérgio, como ou de onde meu pai o conheceu. Era da idade, talvez, de uns 40 anos, sua tez era morena, bem bronzeada, cabelos lisos e escuros com grandes entradas, nariz aquilino, lábios finos. Corpo bem magro. Não era muito alto e não tinha boa postura, sempre meio encurvado para a frente. Duas coisas nunca esqueci naquele homem, seus imensos olhos escuros tristes, de uma tristeza que comovia e as mãos grandes, um tanto deformadas. Ele era um bom artista, semanalmente nós o recebíamos em casa pois era lá que ele deixava algumas de suas obras que eram expostas na chamada “feira hippie” que acontecia na Praça da República aos domingos. Ele, se me lembro bem, morava na Lapa e seus quadros eram bastante pesados para trazer em ônibus, então, possivelmente, a convite dos meus pais, os deixavam num canto do quarto onde eu dormia com a minha avó materna e os irmãos mais novos. A técnica dele era a seguinte: ele elaborava seus temas num papel e os reproduzia desenhando com papel carbono azul sobre grandes chapas de metal – cobre, se não estou enganado — depois com um instrumento de ponta grossa ele forçava aqueles traços de forma que eles ficassem em relevo do outro lado da chapa. Eram detalhes minuciosos e que exigiam grande esforço, motivo pelo qual seus dedos eram meio tortos dando à mão um aspecto de deformidade. Lembro da Santa Ceia do Leonardo Da Vinci que ele reproduzia nesta técnica, não só Leonardo, aliás, mas muitos temas religiosos de outros grandes mestres, em cobre, assim como cavalos correndo pelo campo e escudos (destes que as famílias tradicionais colocavam em suas paredes). Se a memória não me trai a venda dessas obras era sua única fonte de renda e ele não vendia tão bem. Meu pai ajudava a divulgar e transacionar aqueles quadros metálicos entre seus contatos no ministério.

Todos os domingos pela manhã, lá estava o professor nos saudando com seu sotaque forte já preparado para pegar aqueles quadros pesados e eu, um gurizinho, o ajudava a levar até a praça. Me recordo que aquele lugar aos domingos era tomado por uma multidão de pessoas onde mal se podia andar. Muitas vezes eu ficava por ali assistindo ele comercializar seus trabalhos. Não era uma vida fácil, assim como a da nossa família também era cheia de aflições.

Numa dessas ocasiões, sofri um assédio por parte de um senhor baixinho que usava chapéu e tinha uma cicatriz de lábio leporino. Ele me disse bem baixinho: deixe eu ficar encostado em você, não fale nada pra ninguém e eu te dou um cruzeiro e ficou colado em minhas costas, comprimindo algo entre minhas omoplatas, me seguia por aquele caminho até o local onde o professor tinha seu espaço de exposição. Claro que naquela época eu não sabia do que se tratava aquilo, para mim era apenas um cara chato que não desgrudava onde quer que eu fosse e o compacto bloco daquela procissão facilitava tudo para ele. O professor ia à frente, suando, levando seus pesados quadros, eu, com os objetos menores um pouco atrás e o lábio leporino logo desapareceu. Nunca contei isso a ninguém, por algum motivo aquilo me pareceu muito errado. Hoje a petizada sabe de tudo, mas eu, naqueles dias, era um total ignorante em relação a quase tudo. Muitos anos depois eu vi aquele sujeito em Brasília, no Setor Comercial Sul, bem em frente ao Shopping Pátio Brasil com uma barraquinha de doces, bem envelhecido, de chapeuzinho e a cicatriz debaixo do narigão. Tentei não pensar mais naquele assunto até que me lembrei hoje.

Algumas vezes fomos visitar o professor em sua casa, eu, minha mãe, avó e irmãos pequenos. A esposa dele era uma mulher problemática, meio louca, até. Falava muito e falava alto, ao contrário do marido que era circunspecto. Eles tinham um filho pequeno, quase da idade do meu irmão Gil — talvez mais velho um pouco — chamado Gino. Um pirralho magrinho com uma enorme cabeleira toda cacheada que chegava até as nádegas. A mãe fizera uma promessa a um santo de não cortar as madeixas do menino até que ele completasse uma determinada idade. Um troço bem doido.

Numa dessas visitas àquela casa eu desenhei uma figura do Super-Homem num caderno e aquela senhora me passou um longo sermão, como se aquilo fosse um pecado, dizia que o desenho nunca me traria felicidade se eu continuasse nesse caminho. Durante um tempo eu fiquei sofrendo de culpa por gostar de desenhar.

Parece, não tenho bem certeza, que o Sérgio tinha sido padre — ou fazia seminário — e abandonou a batina para se casar.

Bem, era visível que aquele homem não era feliz. Muitas dificuldades financeiras, nunca reconhecido por seu talento e cultura, sem sex apeal e uma relação conjugal infeliz.

Eu sempre me senti pressionado, solitário, poucos amigos e muito bullying na escola. Em casa vivíamos tensos por causa do humor tempestivo do meu pai. Naquela época eu brincava com soldadinhos de Fort Apache ao lado de um garoto (não sei se seria legal citar o nome dele, acho melhor não). Era um menino vivaz e muito comunicativo, muito protegido pela mãe, o pai frequentemente chegava bêbado em casa. Soube uns anos mais tarde que aquele senhor morrera atropelado por um ônibus.

A mãe do menino mantinha a casa impecavelmente limpa. Na hora de almoçar, claro, parávamos a brincadeira, eu, às vezes era convidado, às vezes, não, mas ficava ali ao lado observando ela colocar a comida na boca de um pirralho que já tinha idade mais que suficiente para comer sozinho. Numa dessas situações ela o deixou com um copo de limonada e foi para a cozinha. Em dado momento, acidentalmente, o copo virou e molhou todo o chão. Temendo a surra que a mãe lhe daria tentou ajeitar a merda que fez pegando um pano no banheiro para limpar a sujeira. Tinha piorado, era visível a mancha no soalho encerado. Ele colocou um tapete em cima (era o couro curtido de um bovino malhado, lembro bem) e achou que tudo estava ok. A brincadeira continuou. Logo a gorda senhora veio pegar o copo para lavar e, lógico, notou a travessura. “Fulano, o que foi que você fez?” O pivete ficou pálido como se a vida lhe faltasse, sem delongas a mulher pegou-o pelo braço, sacou seu tamanco e deu-lhe com fúria na bunda e nas pernas. Eu fiquei petrificado ouvindo os berros: Aaaaaiii, mãe!!! Não, mãe…aaaaaiiii! Num me bate, mãeeeee, aiiiiii!!!!! Me levantei e saí da casa com o choro gritado do menino soando pelos corredores daquele prédio soturno.

Acho tudo isso muito triste. Triste como a figura do professor Sérgio. Nos mudamos para Brasília e nunca mais ouvimos falar dele.

Meu pai, em meados dos anos 80, certo dia, recebeu uma carta do professor Sérgio — até hoje não sei como ele nos localizou, talvez algum amigo em comum — e a mensagem era tão triste quanto sua figura, nela ele falava um pouco de sua vida, que continuava a mesma luta inglória, pedia que meu pai respondesse a ele. Não sei se ele o fez. Uma segunda carta com apelos mais desesperados onde se lia: “Por favor, escreva… escreva… escreva… por favor, escreva!” E depois, nunca mais.

Não sei porque me lembrei do professor Sérgio nesses dias. Há em mim uma sensação de ocaso. De fim da linha, embora eu saiba que o porvir só a Deus compete. Eu sei que obtive mais sucesso que o triste professor, mas não consigo evitar de me comparar a ele, de me solidarizar com sua história. Acho que ela merecia registro aqui. Não sei se o Sérgio vive ainda, provavelmente não. A ele minha admiração e minha homenagem. Até um dia, professor!

Eduardo Schloesser, Jaboatão dos Guararapes, PE. é desenhista, quadrinista, ilustrador e escritor, criador de Zé Gatão. Também é o ilustrador de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe. Livre Pensador.

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Eduardo Schloesser
Eduardo Schloesser
13/05/2024 22:58

Obrigado por sempre me prestigiar divulgando meus escritos, parceiro. Como dizem, TMJ!
Abraço!

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Plágio é Crime!

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