Ziggy Stardust reagindo a uma pergunta direta do entrevistador:
Como vai?
Muito bem, obrigado. E você?
Eu vou bem. Ótimo.
E vocês? Como vocês estão?
Você precisa se montar para conseguir se projetar? Você era um ninguém, e aí pensou: “Jesus, preciso arrumar outro jeito de aparecer”.
Eu nunca peço nada a Jesus. A iniciativa é sempre minha.
Perguntinha básica: quantos Davids Bowies cabem em pouco mais de duas horas de um documentário?
Respostinha: quase nada. Talvez um pouco de quase tudo. Ou quem sabe, só o que realmente interessa.
Mas, o que realmente interessa sobre David Bowie a não ser TUDO?
Esse foi o questionamento que fiz a mim mesmo ao assistir (com enorme atraso, admito, e não me perdoo por essa falha) em uma madrugada na minha smarth TV, sozinho, iluminado apenas pela torrente de imagens e abraçado por sons. Muitos sons. De tudo. Se isso foi uma experiência sensorial, não sei dizer ao certo. Talvez fosse, se eu tivesse visto/ouvido Moonage Daydream no cinema.
Há mais de dez anos não entro em uma sala de cinema por uma série de razões. E nenhuma das razões que me afastaram da grande tela seria o bastante para me tirar da imersão a que eu seria submetido, estando cara a cara com o cara que é um dos meus grandes heróis da música.
Sim, tenho vários: Lou Reed, Syd Barrett, Iggy Pop, Van Morrison, Neil Young, Raul Seixas, Leonard Cohen, Sérgio Sampaio, David Gilmour, Ney Matogrosso, Patti Smith, Curtis Mayfield, Nico… Eles estão longe de serem deuses como muitos pensam que eles são/foram. Esses meus heróis não são santos milagreiros, a ponto de eu entregar-lhes a decisão sobre que rumo tomar na minha vida. Tal prerrogativa sempre foi minha. Gosto de ser o dono da minha própria loucura e dos erros. Também, mantenho o poder de defenestrar qualquer herói que, por uma razão ou outra além de suas imperfeições humanas façam por merecer tal destino. Não é mesmo, mister Roger Waters? O mesmo vale para vocês, senhor Caetano Veloso, señor Carlos Santana.
David Bowie está livre dessa danação eterna: ele voltou para as estrelas antes de me/nos decepcionar. Foi melhor assim. Para ele e para mim/nós. Nesta nova era medieval, com toda uma eficiente máquina inquisitorial capaz de matar Torquemada de inveja, e com todo um maquinário de tortura 2.0 pronto para uso, operado com a ajuda — ora vejam só – por alguns dos meus ex-heróis (e candidatos a), traindo toda a fé que neles foi depositada ao longo de décadas. Há quem deixe essa traição passar em branco; mas eu, não.
O meu herói não nasceu para ser uma pessoa qualquer, como ele próprio deixa claro em um dos trechos de entrevistas. Ser um homem comum, com rotina idem, previsível, de trabalhador com um emprego fixo e duradouro, de constituir uma família, envelhecer, se aposentar e… morrer. Uma das primeiras grandes decisões de David Robert Jones foi a de descartar o nome artístico de David Jones, não apenas para não ser confundido com o Monkee Davy Jones, que, mesmo que esse não existisse, seria, a meu ver, um nome comum demais. Bowie foi o sobrenome escolhido, inspirado em um tipo de faca americana do século 19. Foi uma aposta que deu certo. O cara que seria um David Jones qualquer se metamorfoseou em um David Bowie irrepetível, incopiável e insuperável. Bowie foi um apostador quase sempre sortudo… para nossa sorte. A partir daí, é só história.
Moonage Daydream é na verdade uma supercolagem de fatos, trechos de shows e de músicas-capitais da prolífica carreira do Camaleão, um apelido que, além de não o ofender, traduz muito bem suas constantes mudanças de personagens, de cenários e da resposta de seu imenso público. Ou seriam devotos? Um dos grandes acertos no documentário é amostragem generosa da forma como o público interage com David Bowie, independentemente do personagem ou da fase de sua carreira. É pura devoção não-religiosa. Embora seja verdade que esse tipo de reação é bastante comum no showbiz, em especial no rock, mas David Bowie capta algo como uma devoção genuína. Ou quase isso.
Já não me recordo mais do momento que ouvi David Bowie pela primeira vez. Certamente, foi na segunda metade da década de 80, mas na voz de outros, quando, uma daquelas bandas típicas do chamado Brock — a Nenhum de Nós — despontou nas paradas de sucesso com uma versão ‘lixuosa’ de Starman, convertida em uma tal de Astronauta de Mármore. Porra, que coisa mais vexatória! Bem… ao menos aquela coisa me fez um grande favor: procurar saber a fundo quem era aquele tal de David Bowie, do qual eu só ouvira falar, ou lido em alguma matéria da revista Bizz.
Muito obrigado, Theddy Corrêa. Pausa para uma risadinha sardônica.
Continuemos.
Era a época em que o Palhaço de Deus estava em sua fase mais pop, o que não me atraía de jeito nenhum. Apesar de eu estar vivendo na virada dos anos 80 para os 90, o meu foco eram os anos 50, 60 e 70. Tive que retroceder no tempo, comprar todos os discos que pudesse, e ler tudo o que estivesse à mão, até que cheguei a Ziggy Stardust, o personagem que interpreta Starman. Era um caminho sem volta. Cada vez mais eu queria Bowie, e ele me atendia. O CD era a grande inovação tecnológica do momento, de modo que o disquinho prateado combinou perfeitamente com a música de David Bowie. O DVD veio logo a seguir, e foi em um que vi um show completo pela primeira vez. Era o último da turnê Ziggy Stardust. Só então saquei que o cara parecia não ser deste mundo, mas seu personagem, sim. Moonage Daydream estava no setlist. Esta foi a primeira canção de Bowie que me pegou de jeito:
“Keep your ‘lectric eye on me, babe
Put your ray gun to my head
Press your space face close to mine, love
Freak out in a moonage daydream, oh, yeah!”
Do DVD para o CD The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars foi um pulo. Perdi a conta de quantas vezes ouvi essa música com a função repeat do meu CD player ativada, e o volume alto. Bem alto. Portanto, nada mais natural o documentário receber um título tão poderoso.
Não vou falar do Bowie ator, pintor, dançarino, mímico, muito embora isso seja mostrado em Moonage Daydream. Fica para uma próxima vez. São outras facetas que exigem uma nova abordagem.
Durante algum tempo, eu quis saber e ter tudo que dissesse respeito a alguma personalidade que eu admirasse, mas descobri que isso é um esforço quase inútil e apenas cumulativo, como muitos fazem. Prefiro não saber tudo. Quero que as coisas aconteçam naturalmente. É mais prazeroso descobrir algo novo a cada dia, ainda que tenha ocorrido há dez, quinze, trinta, cinquenta ou cem anos atrás. Isso se mostra evidente em Moonage Daydream, onde as muitas facetas do meu herói se mostraram grandes novidades.
Em 10 de Janeiro de 2016 disse “bye bye love” para todos, e partiu. Entretanto, antes que o manto da Dama de Preto o cobrisse, ele lançou mais um álbum, chamado Black Star. Bowie sabia que seu fim estava próximo, pois o câncer já lhe havia dado o veredito. Foi um trabalho feito compreensivelmente em segredo. Se levarmos em conta seus 69 anos, o meu/nosso herói viveu pouco, mas não deixou lacunas, em sua curta existência. De modo definitivo, ficamos privados de futuras facetas que o Camaleão prepararia para nós, meros devotos.
Moonage Deaydream não é o único documentário sobre David Bowie, mas certamente me arrisco em dizer que ele é o “definitivo”, até que outro, ainda mais “definitivo”, surja. No entanto, acho difícil que isso aconteça, devido ao trabalho magistral de Brett Morgen, que não apenas dirigiu, mas também escreveu, produziu e montou um trabalho que, sem exagero, classifico como hercúleo, dado que foi difícil escolher o material retirado do gigantesco acervo de Bowie, além da coleta de um número incontável de entrevistas concedidas nas quatro últimas décadas. Fico a imaginar a quantidade de material que foi deixado de fora da seleção.
Outro fator interessante é o fato de o documentário não expor o lado B do nosso herói. E todo mundo tem o seu lado B. Então, por quê diabos isso interessaria agora? Evidentemente, Brett Morgen quis mostrar o artista dando o seu melhor, mesmo sabendo que David Bowie seguia à risca o lema sexo, drogas & rock and roll, de modo que o artista entendia que, segundo William Blake, “A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Estou inclinado a admitir que Bowie deve ter alcançado essa sabedoria em algum ponto de sua vida, talvez quando ele conheceu a modelo Iman, a mulher com a qual casou. Bowie admite isso em um trecho de Moonage Daydream.
Contudo, e com tudo que Moonage Daydream me proporciona, me dou por satisfeito. Ao menos por enquanto…
Moonage Daydream
Alemanha • Estados Unidos
2022 • Cor • 140 min
Documentário
Direção: Brett Morgen
Produção: Brett Morgen
Roteiro: Brett Morgen
Elenco: David Bowie
Edição: Brett Morgen
BMG
Public Road Productions
Live Nation Productions
HBO Documentary Films
Distribuição
Neon (Estados Unidos)
Universal Pictures (Internacional)
Lançamento: 23 de Maio de 2022 (Cannes) / 16 de Setembro de 2022 (Estados Unidos/Brasil)
Assistir (Amazon Prime)
Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.
